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No Irão, a Internet pode ter voltado. Mas só para alguns: "É o derradeiro desprezo pela dignidade das pessoas"

19 abr, 22:14
Horizonte do Irão no amanhecer depois de uma madrugada de ataques de Israel (Atta Kenare/AFP via Getty Images)

O Governo iraniano vai restabelecer parte do acesso internacional à Internet a professores e investigadores universitários, segundo o The New York Times, mas a maioria da população continua praticamente desligada da rede global há sete semanas

Há mais de 50 dias que, para a maioria dos iranianos, a Internet deixou de ser a Internet. O Governo diz que o bloqueio quase total foi imposto por "razões de segurança nacional", durante a guerra com os Estados Unidos e Israel, mas o resultado foi outro quotidiano: famílias com dificuldade em falar com parentes fora do país, empresas dependentes da rede quase paradas, informação pública afunilada pelos meios estatais. E mais de 90 milhões de pessoas empurradas para dentro de uma ligação doméstica, fechada sobre si própria e vigiada pelas autoridades.

A contagem é da NetBlocks, organização que monitoriza restrições digitais, citada pelo The New York Times: sete semanas de apagão. O acesso aberto à Internet internacional ficou limitado a alguns responsáveis iranianos e a um grupo restrito de elites autorizadas. Para os restantes, há uma rede paralela, interna, sem ligação livre aos sites internacionais e sujeita ao controlo do Estado.

Nos últimos dias, Teerão começou a aliviar pequenas partes do bloqueio, mas sem devolver propriamente a Internet ao país. Meios semioficiais iranianos noticiaram que as pesquisas no Google e o Google Maps voltaram a estar disponíveis. Os especialistas ouvidos pelo The New York Times avisam, porém, que a abertura é limitada: os utilizadores podem pesquisar, mas continuam sem conseguir abrir grande parte dos sites que aparecem nos resultados.

Foi neste quadro que Seyed Mehdi Abtahi, vice-ministro iraniano da Ciência, anunciou este domingo que professores e investigadores vão passar a ter acesso à maior parte dos sites internacionais, com exceção dos que permanecem censurados. “Com base numa lista que tínhamos, foram dados passos para garantir aos professores acesso à Internet internacional, e gradualmente isso será alargado a todos os professores”, afirmou Abtahi, citado pela agência semioficial ISNA.

O anúncio, que noutras circunstâncias poderia parecer apenas administrativo, foi recebido por muitos iranianos como sinal da profundidade do bloqueio. Alguns dos que têm conseguido ligar-se através de soluções clandestinas, caras e instáveis, criticaram o entusiasmo público em torno da medida. A jornalista Elaheh Mohammadi perguntou nas redes sociais “como é que as coisas chegaram ao ponto” de as pessoas se entusiasmarem com uma ligação parcial ao Google, “para abrir alguns links simples”, aquilo que descreveu como “o direito mais básico de acesso”. “Querem baixar tanto as expectativas das pessoas que até as coisas mais pequenas começam a parecer um favor”, escreveu Mohammadi. “Esse é o derradeiro desprezo pela dignidade das pessoas.”

Na última semana, alguns fornecedores começaram também a oferecer um serviço chamado “Internet Pro”, com ligação internacional, mas apenas para quem tiver aprovação estatal. Académicos, empresários e defensores da liberdade digital veem aí os contornos de uma “Internet por escalões”, como lhe chamam muitos iranianos: uma rede aberta para os politicamente confiáveis, economicamente úteis ou institucionalmente protegidos; outra, curta e vigiada, para o resto do país.

Amir Rashidi, especialista em cibersegurança da Miaan, organização focada nos direitos digitais no Irão, descreveu ao The New York Times a mudança como mais profunda do que uma decisão técnica. “No Irão, a Internet já não está a ser tratada como um direito público. Está a ser reenquadrada como uma ‘infraestrutura estratégica’, cujo nível de acesso pode ser ajustado com base em preocupações de segurança e prioridades de alto nível do Estado”, afirmou. “Quando o acesso à Internet passa de uma lógica de direitos para uma lógica de governação securitária, deixa de pertencer a todos de forma igual”, acrescentou Rashidi.

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