Antes de alguns dos momentos decisivos da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, houve apostas milionárias feitas no tempo quase perfeito. Só que os ganhos levantam suspeitas entre especialistas e legisladores norte-americanos: foi sorte, boa leitura política ou informação privilegiada?
Na véspera dos ataques norte-americanos e israelitas contra o Irão, a 27 de fevereiro, cerca de 150 contas na plataforma Polymarket apostaram que Washington atacaria no dia seguinte. No total, foram colocados 855 mil dólares. Dezasseis dessas contas ganharam mais de 100 mil dólares cada uma.
Não foi caso único. De acordo com o Guardian, uma conta anónima chamada “Magamyman” ganhou mais de 553 mil dólares depois de apostar que Ali Khamenei seria afastado do poder, poucos momentos antes de o líder supremo iraniano ser morto num ataque israelita. Uma queixa apresentada à Commodity Futures Trading Commission, o regulador norte-americano dos mercados de futuros, refere ainda seis alegados “insiders” que terão lucrado 1,2 milhões de dólares na Polymarket após a morte de Khamenei.
O padrão repetiu-se a 7 de abril. Horas antes de Donald Trump anunciar um cessar-fogo temporário com o Irão, pelo menos 50 contas apostaram que haveria acordo. No mercado petrolífero, a escala foi ainda maior: operadores colocaram cerca de 950 milhões de dólares em posições que beneficiariam de uma queda do preço do petróleo. E o preço caiu.
Já a 23 de março, segundo o Financial Times, tinham sido colocados 580 milhões de dólares em futuros de petróleo apenas 15 minutos antes de Trump escrever nas redes sociais que os EUA estavam a ter conversações “produtivas” com o Irão. A mensagem provocou uma venda forte no mercado e fez baixar os preços.
As apostas em acontecimentos noticiosos deixaram de ser uma curiosidade de nicho, claro. E Plataformas como a Polymarket e a Kalshi permitem hoje apostar em quase tudo: eleições, guerras, decisões judiciais, cessar-fogos, mortes políticas, preços de matérias-primas. O problema é simples: quando o acontecimento depende de informação sensível, quem a conhece antes dos outros pode transformar uma notícia numa fortuna.
Ainda assim, os especialistas evitam conclusões apressadas. Andrew Verstein, professor de Direito na Universidade da Califórnia em Los Angeles, admite ao Guardian que qualquer uma das operações pode ter sido legal, baseada "em informação pública" ou apenas "em sorte". Mas reconhece que muitas "têm sinais suficientes para justificar investigação".
Também ao Guardian, Craig Holman, da organização Public Citizen, que apresentou queixa ao regulador, é mais direto na leitura do padrão: o momento e o volume das apostas tornam provável que alguém "tenha tido conhecimento interno" e "o tenha usado para ganhar muito dinheiro".
A resposta das autoridades é menos clara. A Comissão de Negociação de Futuros sobre Mercadorias (CFTC, na sigla em inglês), que regula mercados de futuros, está reduzida a um único comissário, Michael Selig, nomeado por Trump no fim de 2025 e visto como favorável aos mercados de previsão. Ao mesmo tempo, vários estados norte-americanos contestam a atuação destas plataformas, defendendo que muitas delas funcionam como casas de apostas sem licença.
A Kalshi, concorrente da Polymarket, já enfrentou processos no Nevada e no Arizona. No entanto, a empresa nega ilegalidades e sustenta que a supervisão cabe ao regulador federal.
Entre mercados financeiros, criptoativos e apostas sobre notícias de guerra, a fronteira ficou mais difícil de ver. E é nessa zona cinzenta que se concentram agora as perguntas de Washington: quem soube antes, quem apostou primeiro e quem ficou rico (ou muito rico) no intervalo entre uma decisão secreta e uma manchete.