A mais recente escalada no Médio Oriente, apesar de "controlada", teria sido mais significativa sem a intervenção do presidente dos EUA, dizem fontes israelitas e norte-americanas à CNN. Mas a situação parece estar mesmo a fugir ao controlo da administração num momento "crucial" do processo de paz - e recuperá-lo será "bastante difícil"
Uma nova onda de retaliações entre Irão e Israel deu ao mundo a sensação de que o conflito no Médio Oriente foi, por momentos, reacendido. Contra todas as expectativas, pelo menos as de Donald Trump, que garantiu em entrevista ao Financial Times que só pelas suas ordens a guerra seria retomada, Telavive respondeu na mesma moeda à ofensiva de Teerão deste fim de semana.
“Não é ele [Benjamin Netanyahu] que toma as decisões”, assegurou o presidente norte-americano àquele jornal para, minutos depois, ser desmentido por relatos de várias explosões em território iraniano. O primeiro-ministro israelita teria chegado a um “pseudoacordo” com os EUA pouco tempo antes, concordando com a interrupção das hostilidades no Irão, já que o caminho para a paz se afigurava promissor.
Talvez numa tentativa de amenizar a tensão entre os dois lados, soube-se depois que o resultado teria sido mais devastador se não fosse uma segunda chamada telefónica entre o presidente americano e o chefe de governo israelita, avança a CNN. De acordo com a fonte israelita e o responsável norte-americano citados, Israel preparava-se para lançar mais um ataque significativo contra o Irão esta segunda-feira, quando foi interrompido por Trump, que apelou ao fim da agressão. O pedido, no entanto, surgiu num tom mais sério, acompanhado de um aviso: “Eu disse: ‘Bibi, é melhor teres cuidado, ou ficarás por tua conta muito em breve’”, ameaçando o parceiro de perder o apoio dos EUA no Irão.
Apesar de Israel ter anunciado entretanto a suspensão de ataques, desde que o Irão não volte a retaliar, a ideia que fica é de que Donald Trump “nunca teve domínio político sobre o assunto”, diz à CNN Portugal o especialista em relações internacionais Tiago André Lopes.
“Os norte-americanos, em bom rigor, no Médio Oriente, têm a tendência para confiar cegamente no parceiro Israel, e isso acaba por fazê-los pagar alguns embaraços diplomáticos”, sublinha, dando conta de que estamos perante uma relação “muito desequilibrada e assimétrica”.
Se, por um lado, os EUA seguem uma lógica “meio errática” sem “ter propriamente um agenda”, por outro, Israel mantém-se fiel, desde início, a “uma agenda e um propósito claros”: “Para Israel era importante ter uma dinâmica militar que permitisse consolidar uma distração da anexação contínua do território palestiniano, e era igualmente importante esta dinâmica de beligerância contra o Irão.”
Após tentativas falhadas de vender a guerra com o Irão a Joe Biden e a Barack Obama, Benjamin Netanyahu encontrou a sorte grande em Donald Trump. E agora, alerta o também comentador da CNN Portugal, é precisamente Trump quem se vê a braços com dois novos problemas.
“O presidente dos EUA já percebeu que, não só não tem capacidade militar para fazer a tal campanha rápida sobre o Irão, como não consegue controlar o seu parceiro em Israel”, afirma, lembrando que “sempre que Donald Trump pede a Netanyahu para não fazer uma coisa”, o chefe do executivo “faz o seu oposto”.
Segundo Tiago André Lopes, isto acontece também porque o líder americano parece ter “poucos instrumentos para punir politicamente” o seu aliado, ao mesmo tempo que Netanyahu tem várias ferramentas ao seu dispor “para condicionar as decisões de Trump”.
Para o major-general Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança da CNN Portugal, a aparente desautorização de Israel faz parte de uma “ação coordenada” entre ambas as partes que defrontam o Irão.
“Os Estados Unidos fazem de polícia bom, e Israel faz de polícia mau. Donald Trump faz de pessoa moderada, Benjamin Netanyahu faz do desvario, do líder que está completamente descontrolado”, frisa, acrescentando que as duas potências “são quase irmãos siameses”, sendo Israel quase como um estado dos EUA.
Com a atual instabilidade nas negociações e no cessar-fogo, a doutrina TACO (“Trump Always Chickens Out”) é o que ganha mais força, já que “cada passo à frente” de Donald Trump equivale a “dois atrás”, salienta Agostinho Costa.
“Quando confrontado com uma situação que implica empenhar decisivamente meios, nomeadamente quando implica baixas norte-americanas, aí temos o TACO, porque na estratégia norte-americana o único teatro de operações onde os americanos entendem que verdadeiramente se vão empenhar decisivamente - isto é, onde podem morrer americanos - é o Indo-Pacífico, não o Médio Oriente”. Essa, explica o major-general, é uma questão para os israelitas: “Sempre que há uma necessidade dos americanos se empenharem de alguma forma que implique custos na operação, os americanos “tacam”, porque ali não se jogam interesses vitais para os EUA.”
"Israel sabe que é agora ou nunca"
Tudo indicava que o momento era “crucial” no processo de paz, de acordo com um responsável norte-americano citado pelo portal Axios. Mas continuava por cumprir uma das principais reivindicações do regime iraniano, que exige a interrupção dos ataques israelitas contra o Líbano.
“Os iranianos já perceberam a manobra. E o que fizeram foi uma pequena violação, um ataque a um prédio vazio, ou seja, responderam com uma escalada moderada. Os israelitas, por uma questão de limpar a face, também atacaram moderadamente”, destaca o especialista militar, que não tem dúvidas de que aquilo que está em causa é uma “escalada controlada” na forma de um “jogo de braço de ferro”.
Teerão alega ter saído em defesa das populações do Líbano, mas procura simultaneamente “manter uma ação militar muito limitada”, colocando a resolução do conflito nas mãos da economia, uma vez que está “convencido de que tem o tempo do seu lado”.
Por sua vez, Tiago André Lopes classifica a guerra como uma autêntica “prova de resiliência”, que, diz, fará do Irão “o regime que embateu com os norte-americanos e sobreviveu”, munindo o país de um maior poder diplomático.
Os objetivos de Israel são igualmente claros, concluem os comentadores. Está em curso um “plano mirabolante”, como descreve Agostinho Costa, para construir uma “Grande Israel”. Plano esse que só pode ser concretizado com a ajuda dos EUA, encarregados de “fazer o trabalho que Israel não tem capacidade para fazer”.
“Israel sabe que é agora ou nunca. Nunca mais terá na Casa Branca um presidente tão alinhado com Israel como Donald Trump. Tanto que nenhum dos presidentes anteriores se envolveu diretamente na guerra com o Irão”, explica, sublinhando que, com este ataque, Israel consegue “manter a pressão sobre o Irão, reter os Estados Unidos no processo, impedir o acordo de paz e manter esta fantasia”.
Trump perdeu o controlo e será "bastante difícil" voltar a ganhá-lo
O presidente dos EUA tem dado sinais de que está empenhado numa saída real do conflito e aquilo que “está a fazer é deixar amadurecer o processo até que a questão se resolva por si”, recorda o especialista militar. Mas a situação já ameaça ficar fora do controlo da administração norte-americana - e voltar a ganhá-lo será “bastante difícil”.
“Nós estamos numa situação de impasse estratégico. Os norte-americanos não têm uma solução: têm lá dois porta-aviões, têm uma força de desembarque anfíbio, têm umas dezenas de milhares de militares, na casa dos 40 mil militares, têm um volume imenso de forças na região, mas, estrategicamente, estão impedidos. Estão impedidos, porque, por um lado, têm a pressão dos países da região, que servem um bocado de cobaias e, por outro, uma espécie de Calcanhar de Aquiles que é todo o dispositivo de produção de energia - se o Irão o atacar, o petróleo vai por níveis obscenos em termos de custo”, remata.
Voltar a controlar Benjamin Netanyahu é tão ou mais difícil, como dá conta o especialista em relações internacionais, uma vez que o chefe do governo israelita enfrenta uma “pressão eleitoral e os pedidos de uma ação militar mais musculada por parte dos partidos da oposição e da população do Norte de Israel”.
Restam-lhe assim duas soluções: “Ou Trump está disposto a correr num braço de ferro com Netanyahu - o que não me parece -, ou dificilmente voltará a ter a iniciativa política nas mãos.”
