Israel anunciou rapidamente que está fora deste barco e o Irão já disse de diferentes formas que também ainda não entrou lá. Alheio a isso, Donald Trump até já vai anunciando que tudo se pode resolver na Europa
Foi menos de um dia mas chegou para virar a guerra ao contrário por duas vezes. O mundo acordou com a perspetiva de uma invasão terrestre dos Estados Unidos ao Irão e vai deitar-se com um aparentemente iminente acordo de paz, ainda que haja pontas soltas que continuem a levantar legítimas dúvidas.
Depois de ter ameaçado tomar a importante e estratégica ilha iraniana de Kharg - que se vê na imagem de capa numa operação ofensiva dos Estados Unidos realizada anteriormente -, o presidente dos Estados Unidos anunciou que havia um “grande acordo” a caminho, depois de as duas partes terem chegado a um memorando de entendimento.
E o número de partes é logo a primeira grande dúvida. São duas, sim, e foi o primeiro-ministro de Israel quem teve a necessidade de o esclarecer, num comunicado em que aproveitou para elogiar Donald Trump, mas também para sublinhar que Telavive estava fora.
Fazendo fé no que diz Benjamin Netanyahu, Israel poderá continuar a sua ofensiva no Líbano, provavelmente o maior irritante para o Irão, que já deixou claro que o fim da guerra tem de significar o fim de toda a guerra, incluindo a saída das tropas israelitas dos territórios onde o Hezbollah ainda opera.
A outra dúvida em cima da mesa é como o Irão vê realmente este anúncio de Donald Trump. Como já tem sido habitual, os meios de comunicação iranianos apressaram-se a garantir que ainda não havia fumo branco para nada, sendo que o presidente dos Estados Unidos adensou ainda mais a dúvida.
“O que eu entendo é que a resposta é sim”, referiu depois de questionado sobre se o líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, estava a par do acordo.
Donald Trump acha que sim, portanto, mas não tem 100% de certezas, ainda que tenha referido novamente, já em conferência de imprensa na Casa Branca, que havia um “memorando de entendimento muito forte” com o qual o Irão aceitou “conceptualmente”.
“Eles não vão ter uma arma nuclear, concordaram com isso - não haverá, o que é toda a questão, uma grande parte da razão. Eles não só não vão ter, não vão comprar, desenvolver de qualquer forma, maneira, de modo nenhum, moldar ou construir uma arma nuclear”, reiterou, sublinhando que no Irão querem um acordo “tanto ou mais que ele”.
Volta de 180 graus
E como chegámos até aqui? O presidente dos Estados Unidos acredita que foi à lei da força, defendendo que a ameaça feita durante a madrugada foi decisiva para se alcançar um acordo.
Donald Trump prometeu tomar a ilha de Kharg e até outras infraestruturas petrolíferas do Irão, o que pressupunha uma invasão terrestre e as tais boots on the ground, algo que o próprio presidente norte-americano admitiu que podia não ser muito popular.
Apesar de pequena e perdida no meio do Golfo Pérsico, esta ilha é responsável por cerca de 90% de todas as exportações de petróleo do Irão. Na prática, retirá-la ao Irão significaria uma asfixia total de uma economia já de si frágil.
“Os Estados Unidos vão atingir o Irão (cuja Marinha, Força Aérea, radares, antiaéreas e outras formas de Defesa, em conjunto com a capacidade ofensiva, se foram) de forma muito dura esta noite”, anunciou Donald Trump nas redes sociais, prometendo também tomar conta do mercado de petróleo e gás natural do Irão, tal como aconteceu na Venezuela.
Puxando a fita à frente para o anúncio de um memorando de entendimento com o Irão, Donald Trump defendeu que foi esta ameaça que motivou o adversário a assinar um acordo. Um acordo que, relembre-se, Teerão continua a não confirmar.
“Eles sofreram um baque, um baque como poucas pessoas aguentariam, e querem fechar o acordo muito mais do que eu”, disse Trump aos jornalistas a partir da Sala Oval. “Foram duramente atingidos recentemente, como sabem, e não gosto de ter de fazer as coisas desta forma, mas senti que era necessário.”
"Com base no facto de as discussões com a República Islâmica do Irão terem sido levadas ao mais alto nível da liderança iraniana e aprovadas, eu, como presidente dos Estados Unidos da América, cancelei os ataques e bombardeamentos programados contra o Irão para esta noite", escreveu Trump na sua conta de Truth Social.
Numa das poucas reações públicas, a Guarda Revolucionária Islâmica levantou dúvidas sobre toda a extensão do acordo, nomeadamente os “pontos finais” referidos por Donald Trump.
“Além de os responsáveis iranianos ainda não terem respondido às alegações de Trump, as notas mostram que desde o início da guerra que Trump tem feito afirmações repetidamente contraditórias e imprecisas”, pode ler-se naquele comunicado, sublinhando que um acordo só existe totalmente quando o Irão o disser.
Os próximos dias serão decisivos para percebermos a real dimensão de todas estas informações, até porque Donald Trump sugeriu que a assinatura do acordo pode acontecer já este fim de semana, atirando até que a Europa pode ser o local onde isso vai acontecer.
