Casa Branca reclama uma grande vitória, enquanto Teerão não abandona o discurso bélico. O objetivo é tentar que a coisa não estale até sábado, dia decisivo em todo o processo
Há cessar-fogo no Médio Oriente ou não? O anúncio foi feito com grande pompa pelo presidente dos Estados Unidos, mas as duas partes continuam a dizer coisas diferentes e no terreno, cá e lá, continuam as explosões e os ataques, enquanto o Estreito de Ormuz não parece totalmente aberto.
Na prática, os dois grandes pilares do acordo não parecem estar a ser cumpridos. E isso acontece porque uma das bases não parece ser vista da mesma forma por toda a gente.
O Irão deixou claro que têm de parar todos os ataques na região, incluindo no Líbano, onde Israel lançou uma operação que continua contra o Hezbollah. Apesar de Teerão ter garantido que o fim dessas hostilidades fazia parte do acordo, tanto Telavive como Washington negam essa versão.
Sem clarificar muito bem o que está a acontecer, a Casa Branca vai reclamando “vitória”. Foi a palavra vincada pela secretária de imprensa da presidência norte-americana, que exaltou as “inacreditáveis capacidades dos guerreiros da América”, que ajudaram os Estados Unidos a “atingir e exceder os objetivos militares”.
Karoline Leavitt reclamou a destruição de toda a base industrial de defesa do Irão, garantindo também que o fabrico de armas por parte de Teerão está severamente afetado.
Mantendo o tom bélico, o Irão continua pouco contente com as primeiras horas da suposta suspensão de ataques.
Por isso mesmo, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão avisou que “os termos do cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos são claros e explícitos: os Estados Unidos têm de escolher - cessar-fogo ou continuação da guerra através de Israel. Não podem ter as duas coisas”.
Abbas Araghchi pretende, assim, uma clarificação do que está acontecer, nomeadamente no Líbano, que o Irão exige que deixe de ser atacado, sendo que Israel e Estados Unidos garantem que isso não está previsto no acordo.
"O mundo assiste aos massacres no Líbano. A bola está do lado dos EUA, e o mundo está atento para ver se o país cumprirá os seus compromissos", acrescentou o governante iraniano.
A alternativa, já a sabemos: fecha-se o Estreito de Ormuz outra vez, tal como se fechou a dois petroleiros durante esta quarta-feira, numa clara demonstração de força do Irão, que pode até ter vontade de acabar a guerra, mas não parece querer vergar-se.
Alheio às trocas de argumentos, o primeiro-ministro de Israel segue o seu caminho, até porque o Irão, garante, “está mais fraco que nunca”, enquanto “Israel está mais forte que nunca”.
“Isto não é o fim da campanha. O Irão está a entrar nestas negociações mais amassado e fraco que nunca”, reiterou, sublinhando que a operação no Líbano é mesmo para continuar, apesar dos avisos de Teerão de que isso coloca o cessar-fogo em perigo.
E se dúvidas havia, Karoline Leavitt fez questão de as esclarecer: “O Líbano não faz parte do cessar-fogo”, afirmou, numa mensagem que certamente terá resposta do Irão, e que coloca o cessar-fogo em risco.
O que os Estados Unidos esperam é que esta espécie de limbo possa continuar, pelo menos até sábado. É nesse dia que Islamabad vai receber as delegações norte-americana e iraniana, com o Paquistão a efetivar o seu papel como mediador principal deste conflito, mesmo que tenha sido a China a desempenhar um papel crucial à última da hora ao convencer o Irão a aceitar a pausa de duas semanas.
De resto, os Estados Unidos entendem que o Irão está a jogar um jogo-duplo, incluindo no Estreito de Ormuz. Karoline Leavitt negou que o ponto nevrálgico para a passagem de petróleo e gás natural teve um “pequeno aumento no tráfego”, acrescentando que Donald Trump pretende uma reabertura total “imediatamente”.
“Essa é a expectativa, tem sido passada para ele de forma privada. Estes relatos públicos [de encerramento] são falsos”, reiterou, acusando o Irão de adotar uma postura de duas caras.
Isso é também aplicado ao plano de paz, que o Irão diz conter coisas que os Estados Unidos não reconhecem, desde logo a possibilidade de continuar a enriquecer urânio.
Segundo Karoline Leavitt, os 10 pontos iniciais do Irão não eram sério, pelo que “o regime percebeu a realidade” e apresentou um plano “condensado” que se “alinha com a nossa proposta de 15 pontos”, sendo agora “totalmente diferente” do original.
Em reação à conferência de imprensa da Casa Branca, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que três dos 10 pontos da proposta de cessar-fogo do Irão foram violados antes das negociações.
O responsável afirmou que as três cláusulas não cumpridas foram o cessar-fogo no Líbano, a proibição da violação do espaço áereo do Irão e ainda a negação do direito que o Irão tem de enriquecer urânio.
"Em tal circunstância, um cessar-fogo bilateral ou negociações não são razoáveis".
— محمدباقر قالیباف | MB Ghalibaf (@mb_ghalibaf) April 8, 2026
O cessar-fogo parece continuar, assim, preso por arames, sendo que para já só a retórica vai diferindo. Falta ver se isso resulta em algo pior.