Câmaras de trânsito e torres de telefone hackeadas: como EUA e Israel conseguiram a oportunidade perfeita para matar Ali Khamenei

3 mar, 13:23
Khamenei discursa após votar na segunda volta das eleições presidenciais em Teerão, no Irão, a 5 de julho de 2024 (Vahid Salemi/AP)

CIA e Mossad vigiaram durante anos a mesma rua ao ponto de a conhecerem tão bem como conhecem o sítio onde cresceram

Foram meses de preparação para, em minutos, conseguir o objetivo. Estados Unidos e Israel montaram uma operação minuciosa para alcançar um único propósito: matar o aiatola Ali Khamenei.

E conseguiram-no à luz do dia, talvez quando ninguém esperava, até porque este tipo de operações costuma decorrer durante a noite, como aconteceu na captura de Nicolás Maduro semanas antes.

E de nada valeu ao Líder Supremo do Irão estar ladeado de guardas leais e altamente treinados, já que as forças norte-americanas e israelitas sabiam de tudo o que estava a acontecer. E quando dizemos tudo, é mesmo tudo.

De acordo com o Financial Times, até os passos dos motoristas das mais altas figuras do regime eram seguidos pelas secretas norte-americanas e israelitas, nomeadamente por CIA e Mossad, que foram trocando informação mutuamente para saber quando e como atacar.

Perto da rua Pasteur, junto ao complexo onde o aiatola e vários líderes iranianos se reuniram na fatal manhã do último sábado, praticamente todas as câmaras de trânsito estão hackeadas há anos. Além de transmitirem para onde é suposto, algures em Teerão, estão encriptadas de forma a transmitirem também para servidores em Telavive e no sul de Israel.

Segundo o jornal britânico, que cita fontes com conhecimento da operação, uma dessas câmaras foi particularmente útil, já que permitia saber sempre que os motoristas estacionavam os carros, dando até um vislubmbre para uma parte do complexo altamente vigiado.

Desses mesmos guardas Estados Unidos e Israel sabiam tudo. Onde moravam, quantas horas trabalhavam, quando trabalhavam, que rotas seguiam para o trabalho. Mais importante, sabiam até quem cada motorista devia transportar, naquilo que os responsáveis dos serviços de informação descrevem como um “padrão de vida”.

Tudo isto foi parte de um plano de anos e anos que ajudou a trilhar o caminho para o assassínio do aiatola, com dados em tempo real e informação a chegarem à CIA e à Mossad a toda a hora.

Para garantir que a informação recolhida servia mesmo de alguma coisa, Estados Unidos e Israel tiveram então de colocar em prática uma operação de espionage no próprio dia. Era preciso fazer com que as cerca de 12 antenas de rede telefónica perto da rua Pasteur fizessem parecer com que os telefones das pessoas que estavam no complexo estivessem interrompidos. E também isso foi feito, impedindo qualquer contacto entre a segurança de Ali Khamenei e quem podia avisar da operação em curso. Na prática, mesmo que as forças defensivas do Irão detetassem a chegada da ameaça, não a conseguiriam comunicar a tempo. Como não conseguiram.

Como explica uma pessoa com conhecimento de toda a operação ao Financial Times, Estados Unidos e Israel conheciam “Teerão como se fosse Jerusalém”. “E quando conhecemos um local tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, acrescenta.

Isso mesmo só foi possível com recurso a vários dados laboratoriais que os sinais do serviço Unit 8200 - uma das unidades especializadas de Israel, além de um grande destacamento de recursos humanos, nomeadamente da Mossad.

Israel utilizou mesmo um método matemático que passa pela análise de redes sociais e milhares de pontos de dados que ajudam a identificar alvos para vigilância e, em último caso, eliminação.

E apesar de já se saberem vários detalhes como estes aqui divulgados, há muito sobre a operação das secretas norte-americanas e israelitas que ainda está po revelar. Provavelmente, muitos desses dados nunca chegarão a público.

Em todo o caso, e como garantiram várias pessoas ligadas ao processo, a decisão de matar o aiatola Ali Khamenei foi política, já que a ordem veio de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu, que não quiseram desperdiçar a oportunidade perfeita quando CIA e Mossad descobriram que o Líder Supremo do Irão ia realizar uma reunião com o seu círculo próximo naquele mesmo local na manhã de sábado.

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