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Do petróleo aos pixels. A guerra no Médio Oriente pode travar a Inteligência Artificial

19 mar, 13:46
Extração de petróleo em Nefteyugansk, Rússia (Reuters)
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Os centros de dados não estão a escapar à guerra. O Irão já atingiu alguns deles e pode não se ficar por aqui. Afinal de contas a guerra também usa IA. E muita

Todos contamos com guerras rápidas. É quase um reflexo moderno acreditarmos que a tecnologia, a diplomacia e a pressão internacional conseguem encurtar conflitos, mas a história insiste em lembrar-nos que há guerras “rápidas” que duram anos e que, pelo caminho, reconfiguram economias inteiras.

Dos barris aos bits

No Médio Oriente, essa reconfiguração já estava em curso muito antes dos primeiros mísseis tocarem o ar e mesmo o chão. A região procurava transformar petróleo e gás em algo mais valioso: capacidade computacional. A Inteligência Artificial tornou-se na oportunidade do novo produto acabado, o novo ouro refinado, a nova energia estratégica.

Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Arábia Saudita desencadearam investimentos gigantescos em hubs de centros de dados para servir a Inteligência Artificial. Os gigantes americanos encontraram ali tudo o que precisavam para servir a região, e mesmo o mundo. Rede elétrica robusta, energia barata, localização estratégica entre Oriente e Ocidente para reduzir latência e manter proximidade, mão de obra especializada e vontade política para erguer megacentros de dados. E não se pense sequer que os produtores de petróleo estão, eles próprios, a deixar-se ficar à mercê dos proveitos e custos da energia fóssil. São eles os primeiros a procurar diversificar fontes de energia e criar redundância do fornecimento através de fontes que podem ter em abundância como é o caso da energia solar. Este artigo da CNN bem o mostra.

São, portanto, centenas e centenas de milhões de euros investidos, e por investir, que sustentam o modelo global de crescimento da IA. E agora?

Os centros de dados não estão a escapar à guerra. O Irão já atingiu alguns deles e pode não se ficar por aqui. Afinal de contas a guerra também usa IA. E muita. E a guerra cria a insegurança necessária para travar investimentos planeados e, inevitavelmente, a velocidade de desenvolvimento da IA.

A IA é o novo petróleo invisível

A Inteligência Artificial é o novo petróleo invisível. Um petróleo que não se extrai do chão, extrai-se da segurança e da estabilidade. Dados são poder e ninguém quer dados nas mãos erradas!

Dificilmente encontramos uma guerra em que a energia não seja o motivo central. A narrativa costuma ser épica, mas as razões reais são quase sempre mais tépidas.

Jensen Huang, CEO da NVIDIA, afirmou recentemente que a Bitcoin é uma forma de reserva de energia, e pode ter razão. Por detrás do algoritmo matemático que gera Bitcoin existe uma quantidade colossal de energia, que representa grande parte do custo de criação. A computação descentralizada faz o resto, mas sem energia não há Bitcoin. O mesmo acontece com a Inteligência Artificial que requer uma enormidade de dados em todas as fases do seu desenvolvimento. A inteligência artificial é, sobretudo energia acumulada pela via do processamento de dados. Sem energia, não há IA.

A corrida pelos melhores modelos de IA tornou-se a nova disputa pela soberania dos países. Não há estudos públicos, mas basta observar as empresas envolvidas para perceber que a IA terá um papel determinante no que acontece daqui para a frente. Na economia, na sociedade, na paz e até mesmo na guerra.

O Departamento de Defesa Americano tem colocado diversas empresas debaixo de fogo pelas suas restrições quanto ao uso dos seus modelos pelo exército. Os exércitos querem a IA para fazer a guerra. Para ganhar a guerra.

Sabemos que a IA vai ajudar, e muito, os humanos. Podemos até ainda não saber a extinção dessa ajuda e como ela chegará, mas sabemos agora e em tempo real que será uma parte relevante das guerras seja no comando autónomo de armamento seja na análise do campo de batalha, seja na definição da tática e da estratégia, seja onde for. Haverá um preço humano a pagar mas também haverá um enorme preço energético para que esses modelos de IA funcionem.

Os países produtores de gás e petróleo estão especialmente bem posicionados para produzir dados e enviá-los à velocidade da luz para qualquer lugar e, coincidentemente ou não, são eles que estão debaixo de mísseis. Os petroleiros parados no estreito de Ormuz ameaçam a economia global, mas os dados bloqueados nas fibras óticas podem trazer ainda mais perdas à região vista agora como insegura.

O fim da latência zero

Para o utilizador comum, dificilmente sentirá, a curto prazo, diferenças na utilização diária da IA. Os centros de dados de cada região servem essencialmente e por defeito, essa região, e funcionam como redundância uns dos outros, mas as haverá sobre carga se outras regiões perderem a sua capacidade de processamento, ou se não a desenvolverem a ritmo suficiente. Menos centros ativos no Médio Oriente significa que outras regiões terão de absorver essa carga, exceto no que toca a dados locais. Os dados sensíveis locais tendem a ficar nesses locais. O maior impacto real será sentido sobretudo em aplicações que dependem de latência mínima, como intervenções cirúrgicas remotas ou condução autónoma.

Para funcionar plenamente, a IA terá de estar descentralizada. Não por eficiência, mas por rapidez. Há algo de democraticamente belo na IA: o investimento tem de ser, idealmente distribuído. É por isso que cada país participa na corrida das infraestruturas com tanta velocidade quanto lhe é possível. Sem elas, os modelos de IA ficam perros.

Impacto da guerra na IA

O impacto é brutal, sobretudo para países pacíficos que se viram arrastados para esta guerra. Estes países eram vistos como portos seguros para investimentos avultados, e foi essa perceção que levou tantos datacenters para os pontos mais estáveis do Médio Oriente. O Médio Oriente deixou de refinar petróleo para começar a refinar dados e é isso que a guerra ameaça.

Se a guerra aumenta a insegurança, haverá retração de investimento. Muitos destes investimentos em infraestruturas, apesar de descentralizados, são feitos por capital estrangeiro dos colossos da tecnologia. Sem investimento, reduz-se a capacidade de processamento e, por consequência, o desenvolvimento da IA desacelera.

Quantos mais centros de dados existirem, mais modelos poderão ser treinados em menos tempo. Se estes investimentos falharem, demorará a encontrar regiões com a mesma aceitação, agilidade e custos energéticos. Demora muito tempo a tirar do papel um megacentro de dados.

E há outro impacto igualmente relevante: cada resposta do ChatGPT consome hardware, software e energia. A energia é, portanto, um elemento crítico. Se os custos energéticos esmagarem a rentabilidade, os centros de dados não surgem com a velocidade esperada e sem eles, a IA não evolui ao ritmo esperado. Está tudo ligado.

O jogo de soma nula

É difícil criar um centro de dados sem ter antes um acordo energético firmado por muitos anos. Esse acordo garante a competitividade mas é um jogo de gato e rato: se um centro de dados se compromete com um preço fixo por 15 anos, esse preço mantém-se, haja ou não guerra, haja ou não petróleo, haja ou não renováveis. Embora o investidor tenha aparentemente o investimento protegido, se o fornecedor de energia tiver perdas gigantescas porque o custo real da energia supera o previsto e o contrato de longo prazo, acabará por fechar portas e rasgar o contrato deixando o centro de dados ao “deus dará”. Existem mecanismos de “hedging” financeiro, mas o jogo é de soma nula: para que o preço se mantenha fixo num período de grandes subidas, alguém perde muito pelo caminho.

Onde se constrói o futuro?

A guerra no Médio Oriente não está apenas a destruir infraestruturas físicas. Está a abalar a fundação energética e geopolítica sobre a qual assenta o futuro da Inteligência Artificial. A IA não vive no ar, vive em cabos, servidores, energia, estabilidade e confiança. Vive em países que garantem que amanhã será igual a hoje, ou melhor.

Se esses pilares tremem, a IA treme com eles. E quando a IA treme, treme a economia global, treme a inovação, treme a soberania tecnológica dos países. Uma subida do preço dos combustíveis fósseis afeta todos, mas não afetará todos por igual. A China, por exemplo, tem feito um caminho absolutamente incrível no desenvolvimento de energias renováveis reduzindo, a cada ano e de forma exponencial, a sua dependência do petróleo.

A guerra pode atrasar a IA. Mas mais perigoso do que atrasá-la é obrigar o mundo a repensar onde e como constrói o futuro e quem controla a energia que o alimenta. No século XXI, soberania não se mede em território, mede-se em megawatts.

 

 

 

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