Fingindo ser jovens utilizadores do Telegram a viver em Londres, jornalistas da CNN encontraram canais que se anunciavam como serviços secretos iranianos a operar à vista de todos
As paredes da sala médica estão carbonizadas e a porta parece ter derretido parcialmente devido às chamas. Dez dias depois de uma aparente bomba incendiária ter sido atirada pela janela da sinagoga a meio da noite, o cheiro a fumo ainda fica na garganta.
Quando o rabino Yehuda Black regressou na manhã seguinte ao ataque àquilo a que chama a sua "joia" de sinagoga — com a sua parede de vitrais e um teto esculpido com Estrelas de David —, ficou dominado pela emoção.
"É apenas a sala médica. Podemos substituí-la, podemos redecorar", conta. "Mas o que poderia ter acontecido — isso que é realmente difícil."
A Sinagoga Kenton United, no noroeste de Londres, foi um dos vários locais, principalmente judaicos, atingidos por ataques incendiários na capital britânica e noutras cidades europeias nos últimos dois meses, incluindo escolas, empresas e ambulâncias geridas por voluntários.
Pelo menos 17 incidentes foram reivindicados por um grupo online obscuro que se autodenomina Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia (HAYI), traduzido aproximadamente do árabe como "O Movimento Islâmico dos Companheiros da Direita (Justos)" — que só surgiu online em março e afirma ter como alvo os interesses "sionistas".
Uma investigação da CNN apurou ligações aparentes entre o HAYI e um grupo paramilitar xiita apoiado pelo Irão. E descobriu também que o que parecem ser agentes ligados ao Irão estão a usar as redes sociais para tentar recrutar indivíduos para realizar vigilância e potencial violência contra locais ligados à comunidade judaica na Europa.
Fingindo ser jovens utilizadores do Telegram a viver em Londres, jornalistas da CNN encontraram canais que se anunciavam como serviços secretos iranianos a operar à vista de todos. Um deles publicou, em inglês e hebraico, que procurava recrutar "agentes bem pagos num ambiente totalmente seguro e profissional, com monitorização e apoio 24 horas por dia, 7 dias por semana".
Numa troca de mensagens com a CNN, a conta do Telegram "VIPEmployment" afirmou que procurava "contratar qualquer pessoa capaz de prejudicar os interesses ou indivíduos israelitas".
Noutra conta ligada ao canal, um utilizador que se autodenominava Sina ofereceu dinheiro em troca da afixação de cartazes em Londres a criticar o presidente dos EUA, Donald Trump, e a guerra entre os EUA e Israel contra o Irão, dando conselhos como "tens de verificar e fazê-lo num local onde não haja câmaras de segurança".
A equipa da CNN decidiu encerrar as conversas nesse ponto e não pode confirmar qualquer ligação direta entre as contas e o Estado iraniano ou os seus representantes. Mas as mensagens ilustram como, com apenas alguns cliques, os utilizadores das redes sociais à procura de rendimentos clandestinos podem potencialmente ser atraídos para caminhos que conduzem à violência ou à espionagem.
Casos de espionagem israelita
Especialistas contactados afirmam que é possível que tais interações façam parte de uma estrutura operacional multifacetada, com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) a dirigir, em última instância, a atividade.
"Temos um modelo potencial em que, no topo, estão o IRGC ou organizações ligadas ao IRGC", afirma Roger Macmillan, antigo chefe de segurança da Iran International, um meio de comunicação da oposição iraniana sediado em Londres que também foi alvo de um ataque incendiário reivindicado pelo HAYI em abril.
"Há outro nível que se encarrega do recrutamento e, depois, há o nível mais baixo – os não qualificados, os rufias contratados."
Enquanto a conversa da CNN com o canal “VIPEmployment” no Telegram terminou rapidamente, é provável que outros tenham levado as suas interações muito mais longe.
As autoridades em Israel alegam que um canal do Telegram com o mesmo nome foi utilizado pelo Irão para recrutar israelitas para espiar locais e indivíduos sensíveis em troca de dinheiro.
De acordo com duas acusações distintas contra indivíduos israelitas acusados de espionagem, utilizadores do Telegram ligados ao canal “VIPEmployment” atribuíram aos homens tarefas iniciais de natureza semelhante à oferecida à CNN. Foi pedido aos homens israelitas que escrevessem slogans depreciativos sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em pedaços de papel e se filmassem a queimá-los.
Os procuradores alegam que os suspeitos passaram a realizar tarefas de recolha de informações cada vez mais graves em troca de pagamento, a pedido dos seus contactantes no Telegram, que agiam em nome dos serviços secretos iranianos.
Um dos homens é acusado de filmar secretamente no interior do hospital onde o antigo primeiro-ministro Naftali Bennett estava a ser tratado. O outro terá filmado a sede do serviço de segurança interna Shin Bet, bem como várias bases das Forças de Defesa de Israel (IDF) e outros locais sensíveis, antes de enviar as imagens ao seu contactante.
Enquanto o segundo homem servia como reservista das IDF, de acordo com a acusação, o seu contacto pediu-lhe que assassinasse o seu comandante em troca de cerca de 33 mil dólares [cerca de 28 mil euros, ao câmbio atual]. Ele não aceitou essa alegada missão.
Nenhum dos dois apresentou ainda nem uma declaração de culpa, nem uma defesa.
Israel tem enfrentado uma onda sem precedentes de espionagem interna desde 2023, avança uma autoridade local à CNN, e pelo menos 60 israelitas foram acusados de espionagem a favor do Irão. Vários dos locais que, segundo os procuradores, foram filmados por estes alegados recrutas foram alvo de ataques com mísseis iranianos contra Israel ao longo do último ano.
Supostas ligações a grupos xiitas iraquianos
Em Londres, a polícia continua a investigar os ataques reivindicados pelo HAYI e afirma estar a analisar se o Irão tem utilizado intermediários criminosos para os levar a cabo.
"Estamos a ponderar se esta tática está a ser utilizada aqui em Londres – recrutar violência como um serviço", afirma a vice-comissária adjunta Vicki Evans, coordenadora nacional sénior da polícia antiterrorista da Polícia Metropolitana.
"Os indivíduos que cometem estes crimes muitas vezes não têm qualquer lealdade à causa e estão a receber dinheiro rápido pelos seus crimes", acrescenta.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou na terça-feira que as autoridades estavam a investigar se um "Estado estrangeiro" estaria por trás de alguns dos incidentes. "A nossa mensagem ao Irão ou a qualquer outro país que possa procurar fomentar a violência, o ódio ou a divisão na sociedade é que isso não será tolerado", afirmou.
Um jovem de 17 anos do noroeste de Londres declarou-se culpado no mês passado de uma acusação de fogo posto sem perigo de vida na sinagoga de Kenton e deverá voltar a tribunal em junho. Numa declaração em tribunal, afirmou que não fazia ideia de que o edifício era uma sinagoga e que "não nutria ódio pelo povo judeu".
O HAYI também reivindicou a responsabilidade por um incidente em Antuérpia, em março, onde um carro foi incendiado à noite num bairro predominantemente judeu. A advogada de um dos dois suspeitos no caso, Chantal Van den Bosch, disse à CNN que ao seu cliente, de 17 anos, tinha sido prometido dinheiro e que ele serviu apenas como “carne para canhão”. Os pais dele tinham dito a um tribunal de menores que ele foi “usado” e que não tinha qualquer intenção de dividir a comunidade. A advogada afirmou que ele não tinha qualquer motivo ideológico.
Os procuradores belgas afirmaram em março que os dois estavam a ser investigados por suspeita de fogo posto e participação nas atividades de um grupo terrorista e não divulgaram mais detalhes sobre o caso.
As publicações que reivindicavam ambos os ataques surgiram pela primeira vez em canais das redes sociais que, segundo os especialistas, estão ligados a grupos xiitas iraquianos. Dois dias antes de o HAYI reivindicar o seu primeiro ataque – em Liège, na Bélgica, em março – um dos canais fez uma alusão ao nome do grupo: "Ashab al-Yamin, em breve…" Em mensagens trocadas com a CNN, o administrador de um canal do Telegram associado a grupos iraquianos apoiados pelo Irão confirmou que o seu superior mantinha comunicação direta com o HAYI.
Uma fonte próxima do grupo paramilitar iraquiano Kataib Hezbollah disse à CNN que alguns membros do HAYI são iraquianos e que os dois grupos estão ligados. O Kataib Hezbollah, tal como outros grupos alinhados com o Irão na região, opera sob o comando direto ou indireto do IRGC.
Analistas que falaram com a CNN afirmaram que o HAYI funciona provavelmente como uma fachada para o IRGC.
"Parte do apelo disto reside no facto de não terem de depender de redes ideologicamente leais e centrais que os levariam diretamente até eles", diz Phillip Smyth, especialista que se dedica às milícias xiitas.
"Isso proporciona uma fachada para o que realmente se passa na Europa, de modo que o Irão pode tanto reivindicar a responsabilidade como, simultaneamente, negá-la." Este tipo de guerra híbrida — contratar indivíduos "descartáveis" para atividades criminosas e de vigilância — foi pioneira da Rússia, aliada do Irão, acrescenta Smyth.
A embaixada iraniana em Londres negou qualquer ligação ou envolvimento nos ataques de Londres, afirmando num comunicado: “Tais acusações infundadas contra a República Islâmica do Irão carecem de provas credíveis e parecem servir agendas políticas mesquinhas, bem como induzir a opinião pública em erro e desviar a atenção das verdadeiras causas profundas do terrorismo e do extremismo violento.”
Receios de escalada
Mesmo antes desta recente onda de ataques, a agência de inteligência interna britânica, o MI5, já tinha alertado para uma ameaça crescente por parte do Irão. A organização afirmou ter desmantelado mais de 20 planos potencialmente letais apoiados pelo Irão no Reino Unido no ano até outubro de 2025.
"Não há dúvida de que estamos a assistir a um aumento da atividade daqueles que apoiam ou são agentes do IRGC", diz Alicia Kearns, ministra-sombra da Segurança Nacional e Proteção do Partido Conservador da oposição, à CNN.
"Eles vão recrutar quem puderem", acrescenta. "Quer se trate de alguém que está aborrecido ou à procura de emprego… ou de um criminoso a tempo inteiro."
Não é a primeira vez que o Irão é acusado de utilizar redes criminosas existentes na Europa para levar a cabo atos de violência ou espionagem. Na Suécia, acredita-se que gangues conhecidas como Foxtrot e Rumba tenham planeado ataques contra a embaixada israelita sob as ordens do Irão.
Embora a maioria dos ataques reivindicados até agora pela HAYI tenham sido executados de forma amadora e não tenham resultado em feridos ou danos graves, os analistas temem que possam escalar.
Depois de dois homens judeus terem sido esfaqueados na rua no bairro de Golders Green, no noroeste de Londres, a 29 de abril, a HAYI saudou o que chamou de ações dos "nossos lobos solitários" – mas os especialistas duvidam que o grupo tenha realmente dirigido o ataque.
Smyth afirma que o HAYI está atualmente a operar no que parece ser uma "primeira vaga" e aponta para ações semelhantes por parte de representantes iranianos no Médio Oriente, que têm tendido a evoluir para uma escalada da violência.
Na sinagoga de Kenton, tudo o que o rabino Black diz poder fazer é instalar medidas de segurança adicionais e seguir em frente, tal como tantas comunidades judaicas em todo o Reino Unido estão a fazer.
A sinagoga já instalou um alarme de pânico, câmaras de vigilância e portas reforçadas. Os horários dos serviços religiosos e os detalhes dos eventos listados online estão agora protegidos por palavra-passe.
Black foi destacado no vídeo publicado pela HAYI, que o chamou de "instrumento-chave" do sionismo. Os ataques em Londres e noutros locais foram "puro antissemitismo", afirma. "Isto tem de parar."
