ANÁLISE || Se o Estreito de Ormuz permanecer fechado até ao final do ano, os preços do Brent poderão aproximar-se dos 200 dólares por barril, transformando o choque energético "numa crise económica global"
Londres — O Irão ganhou uma nova fonte de influência sobre a economia global e não está disposto a abdicar dela.
Teerão demonstrou que é capaz de bloquear eficazmente o ponto de estrangulamento petrolífero mais importante do mundo, com relativamente poucos mísseis e drones. A sua influência sobre o Estreito de Ormuz irá perdurar muito mais tempo do que o próprio conflito, de acordo com vários analistas que falaram com a CNN, independentemente do que venha a acordar com a Casa Branca.
A mais recente troca de ataques entre os Estados Unidos e o Irão sugere que um acordo ainda pode estar longe. Mas mesmo que se concretize, os especialistas dizem que é improvável que um acordo prive o Irão da sua nova arma energética.
Isso tem implicações significativas para a economia global, que já se encontra abalada por um choque energético histórico. Antes da guerra, o mundo recebia cerca de um quinto do seu abastecimento de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) através da via navegável agora fortemente disputada.
Os esforços para diversificar para lá do estreito – e do Médio Oriente – irão provavelmente melhorar a segurança energética, mas a um custo. Além da energia, a incerteza persistente relativamente à segurança do estreito irá afetar outros bens, desde fertilizantes e combustível para aviões até hélio e alumínio.
"O que o Irão demonstrou é que tem o poder de fechar o estreito e de o manter fechado, mesmo perante um bombardeamento imenso por parte dos EUA e de Israel", afirma Gregory Brew, analista sénior da Eurasia Group, uma consultora de risco político. "E isso é algo que ninguém lhes poderá jamais tirar", acrescenta.
"É a sua nova opção nuclear."
Uma portagem de Ormuz?
Vários analistas argumentam que um Estreito de Ormuz aberto, mesmo que parcialmente controlado pelo Irão, causaria menos danos à economia global do que um que estivesse fechado.
A Kpler, empresa de inteligência comercial, publicou um artigo em abril sobre como um estreito gerido pelo Irão, em conjunto com Omã, poderia funcionar na prática. Estes académicos sediados no Reino Unido argumentam em termos semelhantes. Por outras palavras, a ideia, por mais alarmante que seja, entrou no discurso dominante.
O Irão, por seu lado, avançou no sentido de formalizar o seu controlo sobre o estreito, em oposição direta às exigências dos EUA. No mês passado, o país criou a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA) para supervisionar um novo protocolo de trânsito, que inclui a verificação pelas autoridades iranianas e, em alguns casos, o pagamento de taxas.
Entretanto, os EUA sancionaram a PGSA e proibiram as companhias de navegação de celebrar acordos com Teerão para garantir a passagem segura pelo estreito. A Casa Branca também ameaçou com sanções secundárias contra as empresas que paguem taxas ao Irão.
Ainda assim, alguns comerciantes de petróleo e companhias de navegação terão, alegadamente, feito acordos com o Irão num esforço desesperado para fazer com que o petróleo chegue aos mercados globais, onde as reservas estão a esgotar-se rapidamente.
"O importante é que os fluxos através do estreito sejam retomados em volumes significativos. Isso começaria a eliminar o choque energético", afirma Alan Gelder, vice-presidente sénior para refinação, produtos químicos e mercados petrolíferos da Wood Mackenzie, uma empresa de investigação.
Por outro lado, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado até ao final do ano, os preços do crude Brent, a referência global do petróleo, poderão aproximar-se dos 200 dólares por barril, transformando o choque energético "numa crise económica global", acrescenta o diretor de economia da Wood Mackenzie, Peter Martin.
Os preços do petróleo refletirão o aumento do risco
Uma taxa de passagem pelo Estreito de Ormuz seria muito menos onerosa, pelo menos para os preços do petróleo, se isso significasse que o tráfego de petroleiros regressasse ao seu nível pré-guerra de cerca de 140 navios por dia, segundo Gelder.
Ele estimou que uma taxa de trânsito de dois milhões de dólares (1,7 milhões de euros) por petroleiro, o preço que Teerão cobrou a pelo menos um navio, de acordo com a empresa de inteligência marítima Lloyd’s List, acrescentaria apenas cerca de um dólar a um barril de petróleo.
"A preocupação com qualquer gestão (do estreito) é o grau em que isso restringe os fluxos", adverte Gelder, questionando, no entanto, como Teerão iria gerir a logística de supervisionar 140 trânsitos de petroleiros por dia.
A consultora de energia Rystad, por sua vez, acredita que um prémio de 1 a 2 dólares por barril nos preços do petróleo é uma estimativa conservadora. “Estamos a falar de um prémio de risco geopolítico de 10 a 20 dólares por barril”, afirma Jorge Leon, diretor de análise geopolítica da Rystad, à CNN.
“Estamos convencidos de que o Irão manterá algum tipo de influência sobre o Estreito de Ormuz daqui para a frente”, caso em que “o risco de novas perturbações no estreito… é real”, acrescenta.
"Não vamos voltar a preços do petróleo a 60 dólares por barril", onde se situavam no início do ano, "nem mesmo em 2027."
Alternativas ao estreito
Quer o Irão institucionalize ou não o seu controlo sobre o estreito, as dúvidas sobre a segurança a longo prazo da via navegável permanecerão. Tais preocupações já levaram os principais produtores de petróleo do Golfo a utilizar e investir em rotas de exportação alternativas.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos redirecionaram as exportações de petróleo através dos oleodutos Este-Oeste e Habshan-Fujairah, respetivamente. Os EAU já estão a trabalhar num segundo oleoduto para contornar o estreito.
Mas para outros países da região, as alternativas ao estreito são menos viáveis do ponto de vista político e comercial. O Kuwait, o Catar e o Bahrein, por exemplo, teriam de canalizar as exportações através da Arábia Saudita ou do Iraque.
Construir oleodutos significa "grandes projetos de infraestruturas, muitas vezes transfronteiriços, o que significa que são dispendiosos, complicados e demorados", afirma Gelder, da Wood Mackenzie.
Para o Catar, que exporta cerca de um quinto do abastecimento global de GNL, uma solução alternativa ao Estreito de Ormuz implicaria não só a construção de uma infraestrutura de gasodutos dispendiosa, mas também o investimento em instalações de liquefação nos portos para transformar o gás dos gasodutos em GNL a ser enviado para todo o mundo.
A nova infraestrutura energética também não estaria imune a um ataque iraniano, como demonstra a experiência da guerra. Os gasodutos "ficariam ao alcance dos mísseis e drones iranianos", declara Brew, do Eurasia Group.
Segurança energética em foco
A perturbação causada pela guerra no Estreito de Ormuz intensificou o foco na segurança energética em todo o mundo e surge na sequência da crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Os esforços para diversificar as cadeias de abastecimento energético para além do Golfo já estão em curso e irão impulsionar o investimento noutras regiões produtoras de petróleo, como a América Latina, bem como na eletrificação e nas energias renováveis.
Ainda assim, o Médio Oriente, rico em petróleo, continuará a ser fundamental para satisfazer as necessidades energéticas mundiais durante algum tempo, tornando a nova arma energética do Irão ainda mais potente.
"A economia global… vai ter de reconhecer essa realidade", diz Brew à CNN. "É de importância colossal… sugere que, em última análise, a segurança de Ormuz e do Golfo Pérsico dependerá em grande parte das ações e decisões tomadas pelo Irão."
