Enquanto parece quase certo que o Irão "será afetado de forma severa" pelo bloqueio norte-americano em Ormuz, Donald Trump pode ver-se a braços com o descontentamento interno, tendo em conta que os americanos já deixaram claro que não tolerariam preços dos combustíveis ainda mais elevados e baixas militares
O Irão tem estado a ganhar o jogo económico de intimidação com o presidente Donald Trump.
O bloqueio extraordinário do Estreito de Ormuz por parte do presidente norte-americano esta semana mostra que os Estados Unidos ainda não estão a recuar. Mas este novo passo significativo dos EUA acrescenta riscos substanciais - e não apenas para a economia.
Se se mantiver, o bloqueio poderá infligir danos severos tanto à economia iraniana como à americana. Trata-se de uma espécie de dor económica mutuamente assegurada que os Estados Unidos, com a sua economia de 31 mil milhões de dólares, acham que conseguem suportar melhor.
Mas o bloqueio exigirá um poder militar significativo para ser aplicado, colocando as tropas americanas em perigo - uma consequência que os EUA têm evitado até agora ao conduzir a maioria dos seus ataques a partir do ar. Colocar forças no terreno em navios inimigos e assumir o controlo de águas perigosas pode significar aumentar o número de baixas americanas.
Os americanos já se opõem em grande medida à guerra, e o bloqueio arrisca dois resultados que já mostraram não tolerar: preços da gasolina ainda mais elevados e baixas militares. Trump está a apostar que o Irão cederá primeiro, mas Teerão já suportou fortes dificuldades económicas anteriormente, e há poucos indícios de que esteja disposto a recuar nesta luta existencial.
“O jogo de ‘chicken’ do petróleo continua a intensificar-se”, afirmou Helima Croft, responsável global de estratégia de matérias-primas na RBC Capital Market e antiga analista da CIA. “Não tenho a certeza de que qualquer um dos lados esteja disposto a desviar-se.”
Impasse económico
O bloqueio pode retirar do mercado global os 1,8 milhões de barris de crude que o Irão tem exportado diariamente durante a guerra. Isso representa cerca de 2% da procura diária mundial - não é uma quantidade enorme de petróleo, mas quando 12 milhões de barris por dia foram bloqueados pelo fecho efetivo do estreito por parte do Irão, cada gota conta.
O mercado global de petróleo já mostrou o que pode acontecer se o bloqueio se mantiver: os preços do crude subiram até 8% na segunda-feira. Isso poderá fazer subir ainda mais os preços da gasolina, que já estão no nível mais alto dos últimos quatro anos. Os preços aumentaram no mês passado ao ritmo mais elevado desde 2022, e os americanos, preocupados com a inflação, não demonstram qualquer tolerância para mais aumentos do custo de vida.
Trump reconheceu na Fox Business esta segunda-feira que os preços elevados da gasolina poderão manter-se até às eleições intercalares de novembro.
“Pode ser, pode ser igual, ou talvez um pouco mais alto, mas deverá ficar mais ou menos no mesmo”, disse Trump a Maria Bartiromo, da Fox.
Mas um bloqueio bem sucedido poderá ser significativamente mais devastador para o Irão.
O bloqueio vai estrangular as exportações de petróleo do Irão, cortando a sua principal fonte de receitas, observou Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners. A única rota de oleoduto do Irão - para um porto no Golfo de Omã - tem uma capacidade realista de exportação de apenas 200 mil barris por dia, e a Marinha dos EUA também poderá tentar bloquear essa via.
“O Irão será certamente afetado por isto, e será afetado de forma severa”, afirmou Adnan Mazarei, investigador sénior para assuntos do Médio Oriente no Peterson Institute for International Economics.
Durante quanto tempo poderá o Irão resistir?
Ainda assim, o Irão está bem habituado a sanções e dificuldades económicas, e dispõe de recursos para resistir durante bastante tempo. Depois de os EUA terem levantado sanções sobre o petróleo iraniano no mês passado, a produção de crude do país aumentou significativamente. Os volumes totais de crude iraniano no mar, incluindo armazenamento flutuante e cargas em trânsito, atingiram cerca de 190 milhões de barris esta semana, segundo Johannes Rauball, analista sénior de investigação de crude na Kpler.
A Marinha dos EUA poderá intercetar parte desse petróleo, mas travar todo esse volume seria difícil.
“É improvável que as medidas atuais perturbem materialmente o Irão a curto prazo”, afirmou.
O Irão também desenvolveu algumas estratégias para contornar sanções no passado. Tem um histórico de misturar o seu petróleo com o do Iraque ou de contrabandear combustível através do Paquistão, observou Hasan Alhasan, investigador sénior de política para o Médio Oriente no International Institute for Strategic Studies, no Bahrain.
Então, quem vai ceder primeiro?
- “O tempo está a trabalhar a favor do Irão”, afirmou Rauball.
- “O Irão já lidou com sanções devastadoras antes e nunca abandonou o seu direito de enriquecer urânio”, disse Croft.
- “O Irão provavelmente conseguirá resistir mais tempo do que a Marinha dos EUA estaria disposta a manter o bloqueio”, acrescentou Karen Young, investigadora sénior da Universidade de Columbia, no Centro de Política Energética Global.
Três votos a favor do Irão.
Nova fase da guerra
Com o seu bloqueio, os Estados Unidos estão efetivamente a assumir uma tarefa exigente: retirar ao Irão o controlo do Estreito de Ormuz.
A administração Trump afirmou há mais de um mês que a Marinha iria escoltar petroleiros através do estreito. Mas isso nunca aconteceu, em parte devido ao perigo para as tropas ao navegarem em águas estreitas enquanto enfrentam minas iranianas e embarcações de ataque. A complexidade logística tornou o plano numa prioridade menor para a Marinha, que se concentrou antes em eliminar as capacidades ofensivas do Irão.
O bloqueio de Trump é funcionalmente semelhante ao plano de escolta, mas com um objetivo diferente: os navios da Marinha terão a missão de intercetar e apreender embarcações inimigas para impedir que o Irão coloque o seu petróleo no mercado marítimo.
Trata-se de uma escalada séria da guerra: Trump afirmou na segunda-feira que os EUA irão afundar qualquer navio iraniano que se aproxime do bloqueio americano. Um deputado iraniano de alto nível respondeu que quaisquer navios da Marinha que tentem bloquear os portos iranianos serão “enviados para o fundo do mar”. Não é uma ameaça vazia. Mesmo com uma Marinha enfraquecida, o Irão já demonstrou ser capaz de atingir embarcações no estreito com pequenas lanchas rápidas e drones de baixo custo.
O bloqueio americano também corre o risco de fazer extravasar a guerra além dos seus limites atuais. O Irão já retaliou contra ataques anteriores dos EUA e de Israel ao destruir infraestruturas energéticas cruciais no Catar e na Arábia Saudita, e Croft afirmou esperar que Teerão intensifique os ataques a instalações energéticas regionais caso Trump concretize as suas ameaças.
Os aliados do Irão, incluindo os Houthis e milícias apoiadas por Teerão no Iraque, também poderão entrar no conflito de forma mais ampla do que fizeram até agora, alertou Croft. Já começaram a assediar navios no Mar Vermelho e aparentemente atacaram um oleoduto na Arábia Saudita.
“É pouco provável que este bloqueio se limite ao Irão”, afirmou Mazarei.