O modelo de inteligência artificial que está a guiar os mísseis americanos no Irão tem uma visão sombria sobre o desfecho da guerra. A CNN Portugal testou a tecnologia da Anthropic, que alimenta o sistema de alvos do Pentágono, e os resultados não são bons para os norte-americanos
Esqueça as imagens de Hollywood de incríveis combates aéreos e dos brinquedos militares tecnologicamente mais evoluídos. A principal novidade da Operação "Epic Fury", o ataque americano e israelita ao Irão, passa pela gestão de enormes quantidades de informação: tudo o que estamos a ver neste conflito tem o "dedo" da inteligência artificial. E, entre muitos, um modelo destaca-se: o Claude, da Anthropic. Integrado no sistema Maven da Palantir, o modelo está a ser utilizado pelo Pentágono para a identificação direta de alvos e planeamento em tempo real, ajudando a atingir milhares de alvos logo nas primeiras horas de conflito.
Ao contrário de um avião, de um tanque ou de um lançador de mísseis, esta tecnologia não se vê no campo de batalha, mas os seus efeitos são inegáveis. O sistema inteligente Maven tornou-se o sistema nervoso central da guerra norte-americana. Alimentado com dados classificados de satélites e vigilância, o Maven utiliza a inteligência artificial do Claude para sugerir centenas de alvos, emitir coordenadas precisas e avaliar os danos após os bombardeamentos. O que antes demorava semanas a planear, acontece agora em tempo real. Segundo um estudo da Universidade de Georgetown sobre o uso deste sistema, a IA permite que uma equipa de apenas 20 militares faça o trabalho analítico de dois mil.
A importância desta capacidade é tão grande que motivou um ataque político sem precedentes da administração Trump. Poucos dias antes do início dos bombardeamentos, o presidente americano tentou banir a Anthropic de concorrer a contratos federais, devido à recusa da empresa em permitir a utilização do seu modelo para armas 100% autónomas e em vigilância da própria população americana. Só que, apesar da ordem presidencial para substituir o sistema no prazo de seis meses, a dependência do Pentágono obrigou a que o sistema fosse utilizado, mesmo com as atuais limitações.
"Caos prolongado"
A CNN Portugal decidiu submeter o "cérebro" das operações militares americanas a um teste. O que acontece se pedirmos ao modelo que analisa as operações militares americanas para avaliar a estratégia política da operação?
Sem acesso à rede classificada das forças armadas americanas, alimentámos a versão comercial avançada do modelo com os parâmetros tornados públicos pela administração norte-americana. Traçámos duas metas centrais: a "destruição de potencial militar" exigida pelo Secretário da Defesa, Pete Hegseth, e a "mudança de regime" sugerida por Trump. O veredicto não é favorável à estratégia americana. O Claude dá menos de 10% de hipóteses à criação de um governo estável capaz de substituir o regime dos aiatolás.
"Se fosse forçado a dar uma probabilidade única de sucesso estratégico (...) diria menos de 10%", refere o modelo da Anthropic. A IA sublinha que o cenário mais provável não é um sucesso nem um fracasso limpo, mas sim "um estado intermédio de caos prolongado: regime iraniano fragilizado, mas não substituído, capacidade militar degradada, mas não eliminada, instabilidade regional aumentada". O modelo é taxativo ao classificar este desfecho como sendo "o pior de todos os cenários".
Mesmo a entrada de combatentes curdos na guerra ao quinto dia, uma variável ativada nesta simulação, não altera a matemática do conflito. O sistema recorda que "forças proxy regionais sem apoio logístico massivo e sem legitimidade nacional" têm enorme dificuldade em converter conquistas militares em poder político real. "Os curdos podem capturar território curdo, mas não podem governar Teerão", resume.
As perspetivas de sucesso sobem ligeiramente, para a casa dos 15% a 25%, se o foco for apenas o colapso do regime enquanto instituição. Porém, isso exigiria um descalabro militar rápido, a fragmentação do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) e o surgimento imediato de uma figura capaz de preencher o vazio de poder. Como nenhuma destas condições está presente de forma robusta no terreno, e o CGRI mantém uma forte estrutura de comando, essa hipótese esbarra na realidade da guerra.
Ainda assim, o tempo joga contra a coligação israelita e americana. A janela de oportunidade "é curta" e uma intensa campanha aérea só tem o seu efeito máximo nas primeiras semanas. Depois, os sistemas defensivos dispersam-se, a resistência começa a organizar-se e os custos multiplicam-se. Depois, a defesa dispersa-se e os custos disparam. Há ainda o peso do "nacionalismo de resistência", um fator frequentemente ignorado no Ocidente. Apesar de uma larga fatia da população detestar o regime, o bombardeamento externo tende a ativar um reflexo de união. Sondagens consistentes mostram que os mesmos iranianos que se opõem aos aiatolás rejeitam a intervenção estrangeira, o que acaba por alimentar a máquina de propaganda do CGRI.
A probabilidade de sucesso sobe para "moderada a alta" no que toca ao objetivo traçado pelo Secretário da Guerra, Pete Hegseth. O Claude acredita que existe cerca de 60 a 70% de probabilidade de os Estados Unidos e Israel conseguirem destruir significativamente o potencial militar iraniano. "Este é o objetivo mais atingível por via aérea. Israel demonstrou capacidade de degradar sistemas de defesa aérea iranianos nos ataques de 2024", descreve, acrescentando que o problema é que a "a destruição é temporária" e que o bombardeamento pode resultar apenas no atraso do armamento e não numa eliminação permanente.
A falha mais perigosa na estratégia, alerta o modelo que ajuda os militares americanos a tomar decisões, é o cenário pós-decapitação do regime. Sem um líder e sem presença de tropas terrestres aliadas, o regime iraniano não colapsa ordenadamente e pode fragmentar-se. O grande risco, defende o modelo da Anthropic, é o país resvalar para um cenário de "senhores da guerra". Fações religiosas radicalizadas passariam a competir pelo controlo do território, herdando o acesso a mísseis balísticos e, no limite, a material nuclear.
Quando questionado sobre se existe algum paralelo histórico, o Claude admite que não existe um caso claro de sucesso com base nos mesmos pressupostos. O exemplo mais próximo destacado pelo modelo é o caso da campanha aérea da NATO na Líbia, em 2011, que levou à queda do regime de Gaddafi, mas que acabou por produzir uma guerra civil, dois governos paralelos, resultando num Estado falhado. A campanha na Sérvia, em 1999, também é frequentemente citada como exemplo de coerção aérea bem-sucedida. Mas os objetivos eram muito mais limitados e não passavam por uma mudança de regime, mas sim a retirada militar de um território.
Também a campanha no Iraque também começou de forma semelhante à Operação "Epic Fury". Primeiro veio uma campanha aérea intensa, houve o colapso rápido do regime e até apelos à população, mas foi necessária uma invasão terrestre maciça para conseguir cumprir o objetivo. Ainda assim, essa invasão acabou por produzir um dos maiores desaires estratégicos do século XXI. No Afeganistão, havia o apoio de forças locais e o regime Talibã colapsou em poucas semanas. Mas uma oposição organizada e com apoio tribal, os Talibãs voltaram ao poder 20 anos depois.