Se o Estreito de Ormuz não abre a bem, abre a mal. Esta parece ser a lógica da Casa Branca, que na mira tem um alvo que Donald Trump já conhecia bem em 1988
Há uns dias era um alvo de pura “diversão”, mas há uma ilha perdida no meio do Golfo Pérsico que pode em breve passar a ser o centro da guerra no Médio Oriente, ameaçando tornar o mercado energético ainda mais caótico.
Falamos da ilha de Kharg, que tem sensivelmente metade do tamanho da cidade do Porto e é pouco maior que a ilha do Corvo, nos Açores. Mas é também um alvo que Donald Trump conhece desde 1988. Foi nesse ano que, numa entrevista publicada no jornal The Guardian, o agora presidente dos Estados Unidos deu conta de que ali estava o coração do regime: "Uma bala disparada contra os nossos homens ou navios e eu faria um grande número na ilha de Kharg. Ia lá e tomava-a", afirmou.
Com o regime do Irão a resistir mais do que Estados Unidos e Israel podiam pensar, a guerra extravasou a dimensão militar para atingir um pico económico, ao ponto de a Agência Internacional de Energia já admitir que podemos estar perante a pior crise energética da história.
Isso deve-se, em grande parte, ao encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passava grande parte do petróleo e gás natural que todo o mundo consome, já que é também naquela região, nomeadamente em países como Arábia Saudita, Iraque ou Catar, que grande parte destes combustíveis fósseis são produzidos.
Isso faz com que a popularidade do presidente dos Estados Unidos em casa caia em flecha, já que a maior sensibilidade dos norte-americanos está mesmo na carteira. E quando ela começa a gritar, como está a acontecer, eles gritam com ela, o que é particularmente problemático quando estamos a meses de umas eleições intercalares que podem decidir se Donald Trump fica com ainda mais poder ou, se pelo contrário, vê um reforço do Partido Democrata nos órgãos de fiscalização legislativa.
É nesse cenário que, segundo o Axios, os Estados Unidos já têm em cima da mesa uma decisão que vai escalar a guerra: a ocupação da ilha de Kharg. O objetivo passa por tomar conta de todas as infraestruturas daquele pequeno pedaço de terreno. É que apesar de não ser grande, é um ponto nevrálgico em toda a exportação de petróleo do Irão, com uma infraestrutura petrolífera e naval de importância estratégica crucial para toda a região.
Escreve o portal norte-americano o objetivo de Washington, DC pode passar por ter uma grande vantagem estratégica, numa tentativa de obrigar o Irão a voltar atrás e permitir a passagem segura pelo Estreito de Ormuz, onde os poucos navios que tentam arriscar são alvo de ataques incessantes, como aconteceu a uma embarcação tailandesa em que três membros da tripulação desapareceram depois de um projétil atingir a casa das máquinas.
Com apenas 20 quilómetros quadradaos e a cerca de 25 quilómetros da estratégica cidade de Bushehr, onde há uma importante central nuclear, só Kharg exporta 90% de todo o petróleo iraniano.
E se a ilha até tem sido alvo de ataques, as infraestruturas petrolíferas permanecem, para já, intactas. O cenário contrário, nomeadamente a destruição do armazenamento e exportação de petróleo, colocam o Irão num blackout que torna insustentável a vida do país como ela ainda existe.
"Apenas uma palavra simples e os oleodutos vão-se" afirmou Donald Trump no início desta semana na Casa Branca, antecipando que demoraria "muito tempo" a reconstruir tudo nesse cenário.
Ainda segundo o Axios, o plano está em cima da mesa, mas não há qualquer decisão de Donald Trump, até porque na Casa Branca ainda há quem acredite na possibilidade de uma negociação após a operação militar, mesmo que o Irão pareça totalmente indisponível para isso.
Milhares de fuzileiros a caminho
Se politicamente há dúvida, militarmente há preparação. Enquanto na Casa Branca e Pentágono se vão discutindo os próximos passos, os Estados Unidos já mobilizaram uma força expedicionária de fuzileiros para a região. Chamam-lhes marines e são uma força especial de resposta rápida, normalmente chamada para intervenções relâmpago e difíceis, como aconteceu na Venezuela há meses ou no Paquistão há anos, em operações que acabaram com a captura de Nicolás Maduro e com a morte de Osama bin Laden, respetivamente.
Esta unidade já passou por Singapura e está a seguir com toda a velocidade para o Médio Oriente. A bordo leva 2.500 militares, mas não há nenhuma confirmação de qual o verdadeiro objetivo desta unidade, que para entrar em Kharg teria de passar pelo Estreito de Ormuz antes, o que exigiria um confronto militar quase direto com o Irão.
Em paralelo, e de acordo com a agência Reuters, os Estados Unidos estão a preparar o envio de milhares de militares adicionais para o Médio Oriente, incluindo fuzileiros e outros tripulantes. O reforço inclui o destacamento do navio de assalto anfíbio USS Boxer, acompanhado por uma Unidade Expedicionária de Fuzileiros (MEU, na sigla em inglês) e por outros meios navais de apoio.
Segundo o Wall Street Journal, os Estados Unidos e alguns dos seus aliados intensificaram a batalha ao enviarem aviões de ataque que voam a baixa altitude e que devem atacar a Armada do Irão. Em paralelo, helicópteros Apache devem estar prontos para derrubar os vários drones que circulam de forma incessante entre os dois lados do Estreito de Ormuz.
“Precisamos aproximadamente de um mês para debilitar os iranianos e depois tomar a ilha”, diz-se pelo Pentágono, de acordo com os jornais norte-americanos.
Embora Donald Trump tenha classificado a missão de libertar o Estreito de Ormuz como algo simples de se fazer, a história não joga a favor dos Estados Unidos. Basta lembrar o que aconteceu em Guadalcanal ou Iwo Jima, ilhas quase desconhecidas que se tornaram famosas por brutais perdas das forças norte-americanas.