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Interesses de Portugal "estão defendidos porque alinhámos com o mais forte": Gouveia e Melo diz que podemos não gostar desse alinhamento mas "é uma questão de sobrevivência"

20 mar, 10:00
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ENTREVISTA || Henrique Gouveia e Melo liderou durante vários anos a Armada portuguesa. Agora, olha para o que acontece no Estreito de Ormuz e não tem dúvidas: a missão é difícil, mesmo para uma Marinha como os Estados Unidos

Naturalmente já lhe irei perguntar sobre se defende ou não a legitimidade desta ofensiva levada a cabo pelos Estados Unidos e também por Israel, mas queria também ouvi-lo sobre a sua opinião sobre a possibilidade real e efetiva de que uma operação militar, por via da força, seria ou não capaz de desbloquear o Estreito de Ormuz.

A operação militar pode ter sempre essa capacidade. No entanto, é uma possibilidade difícil de concretizar. Requer muitos meios e com poucos meios consegue-se criar um efeito psicológico que pode depois resultar verdadeiramente num bloqueio. Não é num bloqueio físico, mas o efeito psicológico depois resulta num bloqueio. O estreito tem cerca de sete quilómetros navegáveis, é muito fácil de atacar, até com drones, drones improvisados, e é muito difícil conseguir defender o estreito.

Porque até agora Donald Trump diz que quando quiser ele consegue fazê-lo. Do lado do presidente francês também já ouvimos dizer que está a preparar com outros aliados uma ofensiva militar no Estreito de Ormuz para desbloquear, mas ainda nada aconteceu até agora…

Sim, ainda não aconteceu e eu julgo que é um bocado mais retórica do que a realidade. É das operações mais complexas…

Mesmo por uma Marinha como a dos Estados Unidos?

Sim, mesmo para uma Marinha como a dos Estados Unidos. Porque o estreito, como o próprio nome diz, é um constrangimento físico muito grande à navegação, a navegação que passa na área é muito intensa, o que obriga a uma defesa de área muito profunda. No entanto, hoje, os drones e os mísseis existentes conseguem penetrar nessas defesas, como está aprovado, e é muito difícil garantir essa defesa desses drones. Para além dos drones marítimos e de outros ataques que podem ser feitos de forma irregular.

Neste momento, os 2.500 fuzileiros que estão a caminho, ou que foram avistados há poucos dias na costa de Singapura e que estão a caminho do Médio Oriente, na sua experiência, vão fazer o quê?

Para já não vão fazer nada. Quando muito, vão preparar uma testa de ponta ou fazer operações especiais. O número é insignificante. Comparativamente, se estamos a falar do Irão, que tem uma população muito elevada, com as Forças Armadas e com uma Guarda Revolucionária muito elevada, não são, certamente, 2.500 marines que vão resolver o problema. Poderão fazer operações especiais, tomar conta de partes portuárias e ajudar, de alguma forma, a preparar a tal passagem segura que se pretende. Mas eu julgo que é muito difícil conseguir uma passagem segura num momento de conflito em que o Irão está verdadeiramente empenhado em impedir essa passagem.

Neste momento não vê qualquer ou quase... Para não dizer que é impossível.

Sim, muito dificilmente. Só esgotando as capacidades militares do Irão, e eu julgo que isso não vai acontecer.

Porque os Estados Unidos têm também a caminho dois bombardeiros estratégicos, os B-52…

Só se largarem o parma nuclear na região. Porque não é com uma população de cerca de 90 milhões de habitantes, com a área que o Irão tem, não se conquista com bombas, nem se resolve o problema com bombas. Julgo que esta operação tem logo um erro de início. Não foi calculado qual foi o objetivo político. Onde é que ela devia parar e o que é que se devia alcançar. Ou se esse objetivo político era sequer exequível. Pensar que o Irão seria comportar como a Venezuela, perante a posição do líder, é alguma infantilidade na análise. E nós estamos, neste momento, todos envolvidos num problema muito grande, que vai afetar toda a economia mundial. Mas afeta curiosamente mais a Europa e a China. Portanto, eventualmente, por trás disto, está aqui um realinhamento da Ordem Internacional também, porque os Estados Unidos e a Federação Russa têm petróleo e têm capacidade para resistir melhor aos problemas que esta crise vai criar em termos energéticos.

Então, de alguma forma, julga que Donald Trump, quando lançou esta ofensiva, podia estar ciente de que ele e os norte-americanos poderiam, de alguma forma, até ser beneficiados?

Eu julgo que nos Estados Unidos, há muitos think tanks, o Pentágono é muito forte em termos do que é a doutrina, a capacidade de prever o futuro e de fazer jogos de guerra. De surpresa, certamente não serão apanhados. No entanto, pode haver alguma tendência errática na política norte-americana desta administração, mas também há coisas mais profundas que não aparecem logo à superfície, mas que realmente podem explicar...

O que é que poderia explicar?

Como lhe disse, há aqui um confronto de um realinhamento internacional, da Ordem Internacional. E o grande problema para os Estados Unidos é a China. E a China tem uma dependência total de fontes energéticas exteriores. Menos que os Estados Unidos, menos que a Federação Russa e a Europa. A China e a Europa têm essa dependência. E essa dependência vai afetar mais essas economias, fazendo com que elas não progridam à velocidade que progrediam anteriormente e beneficiar outras economias. Se nós estivermos a falar de uma competição a 20 ou 30 anos, em que o ponto de partida - considerando hoje o ponto de partida - é importante, esses fatores devem ser considerados. Eu não acho que tudo o que a administração americana faz hoje seja ilógico. Tem é uma lógica, que é uma lógica de poder, que nós já não estávamos habituados, porque estávamos habituados à lógica de Ialta, que é uma lógica pós Segunda Guerra Mundial, que aprendeu muito com a Primeira Guerra Mundial, mas nós já esquecemos esse passado.

E nessa lógica, que diz que ainda há alguma, do lado dos Estados Unidos faz parte também a decisão de Donald Trump de cancelar, por exemplo, a visita que estava agendada à China

Sim, a mim parece-me que tudo isto tem um contexto mais vasto. Há aqui uma coisa que gostaria só de expor. Uma superpotência mundial tem de controlar no mínimo três coisas. Uma capacidade militar suficiente para dominar todas as outras capacidades militares, controlar as estruturas internacionais e, por fim, que todas as transações, ou a maior parte das transações mundiais, sejam feitas da sua própria moeda. O que é que estava a acontecer? A Venezuela não ia transacionar em dólares e o Irão já não transacionava em dólares, um produto que é essencial para a economia mundial, que é o petróleo. Isso também justifica, se calhar, o que aconteceu na Líbia, o que aconteceu no Iraque. Portanto, a superpotência mundial tem uma necessidade absoluta de que a moeda de referência em que são feitas as grandes transações mundiais seja a sua moeda. Quando qualquer coisa põe isso em risco, há outros fatores muito mais profundos, os fatores de longo prazo estratégicos. Por isso, não me parece que isto seja só uma coisa errática. O que me parece é que a ação, depois, em termos políticos, não foi conduzida com o cuidado necessário para não escalar para um determinado nível. Porque escalando, nós podemos ter um grande problema na economia, que depois, indiretamente, acaba por afetar também a economia dos Estados Unidos e a economia dos outros países.

Mas, escalando para esta crise energética que já estamos a sentir, e o que estamos a assistir agora é que as bases que são afetadas, as bases energéticas que são afetadas, não são apenas armazenamento, são também de produção, o que quer dizer que nos próximos anos estaremos ainda a ter o efeito desses danos causados. Isto são danos colaterais que Donald Trump não terá calculado?

Ele se calhar calculou, e é precisamente esses danos colaterais que interessam.

E que lhes estão a servir os seus próprios interesses...

Os interesses dos Estados Unidos, os interesses profundos dos Estados Unidos, no que eu considero ser um combate para não deixarem de ser uma superpotência hegemónica.

Então, nesse sentido, quando nós olhamos para a crise que está a acontecer, a crise energética que está a acontecer e o ataque a estas importantíssimas bases, ainda com o ataque ao maior reservatório de gás natural em todo o mundo, não é por isso que a guerra vai acabar mais cedo?

Não, não me parece que seja por isso. Claro que a pressão internacional conta e, a certa altura, terá o seu efeito. Mas terá um efeito numa segunda... Nós, quando queremos atingir um efeito estratégico de médio-longo prazo, às vezes temos de fazer sacrifícios de curto prazo. A questão é se os Estados Unidos estarão preparados, a população dos Estados Unidos também estará preparada para fazer esses sacrifícios de curto prazo. Porque há eleições, as midterm elections, que vão ser este ano, e, portanto, de certeza que este problema também afeta a economia americana, afeta é menos que as outras economias, mas, afetando a economia americana, o balanço interno dos poderes pode ser afetado e isso, de alguma forma, poderá fazer considerar Donald Trump e a administração atual as atitudes que têm neste momento.

Ao dia de hoje, o senhor, com a experiência que tem, a sua experiência militar, consegue antecipar a forma de saída desta guerra?

A forma de saída... Quem entra mal numa guerra e não tem objetivos claros e concretos nunca tem estratégia de saída, ou tem uma estratégia de saída que, normalmente, não é aquela que é desejável. Nós vamos ter aqui uma estratégia de saída que vai acontecer conforme os acontecimentos se vão desenrolar. E, pronto, de alguma forma, alguma imprevisibilidade do ator americano poderá contribuir para acelerar essa estratégia de saída em determinadas situações, ou até, em sentido contrário, para prolongar. Por isso, estamos no momento de elevada imprevisibilidade.

E do lado israelita, ouvíamos há pouco o primeiro-ministro israelita dizer que a capacidade de enriquecimento urânio tinha sido destruída, que o Irão também não tem mais capacidade para construir, para fabricar mísseis balísticos, mas também não há uma garantia de quando é que estão prontos a sair deste conflito O que é que é preciso mais para Israel estar satisfeito no seu entender?

Destruir, digamos, o centro de poder que o Irão constituía com os seus proxies. E destruindo a sociedade, destruindo a capacidade dessa sociedade de ter uma política ativa e financiar essa política ativa internacional, acabam por atingir os seus objetivos.

Mas isso pode demorar bastante mais tempo…

Eu julgo que Israel já está praticamente a atingir os objetivos que pretendia. Do ponto de vista de Israel, esta guerra é uma guerra muito boa para eles, no sentido dos seus interesses estratégicos profundos. O que se vai pôr aqui em questão no futuro é se o que parece agora bom, depois não vai ter um efeito boomerang no futuro, em termos do que é que os países árabes pensarão do Estado de Israel e como é que o Estado de Israel depois se vai inserir na região a médio e longo prazo. Atenda-se a que todos eles estão a ser atingidos.

Estamos também na nossa reta final e não lhe queria deixar de fazer a pergunta que disse que iria fazer. O senhor é dos que concorda com a legitimidade desta ofensiva levada a cabo pelos Estados Unidos e por Israel?

Não, não há nenhuma legitimidade nesta ofensiva. A Carta das Nações Unidas não permite a interferência na política interna de outros países. De facto, as capacidades militares do Irão já estavam muito reduzidas. Depois dos últimos ataques, a arma nuclear, o perigo da arma nuclear também já estava posto de lado, porque efetivamente não constituiu um perigo. Não é muito claro porque é que se fez uma guerra preventiva e as guerras preventivas...

Foi porque Israel quis?

Isso é um bocado complicado de dizer, mas acho que Israel ganhou neste jogo internacional, ganhou uma alavanca que não tinha ganho com outra administração americana.

E no seu entender, não sendo uma guerra legítima, devia ou não Portugal ter aceitado que os reabastecedores estivessem na base das Lajes?

Isso é uma pergunta complexa. Na cena internacional, nós não falamos só de ética e de moral, falamos também de interesses dos países. Nós temos de ter cuidado na gestão dos nossos interesses atlânticos, porque dependemos muito para a nossa defesa, quer da Europa, quer dos Estados Unidos. E devemos gerir com pinças qual é a função, neste momento, do arquipélago dos Açores. E eu não aconselho, por exemplo, nada, neste momento, estabelecerem-se conversações para negociar qualquer coisa relativamente aos Açores. Precisamos de ter muita precaução e temos de defender os nossos interesses.

E os nossos interesses foram defendidos?

Os nossos interesses, neste momento, estão defendidos porque alinhámos com o mais forte.

Com os Estados Unidos?

Isto é uma realidade. Quer dizer, nós poderíamos não gostar desta realidade. Mas, em termos de relações internacionais, muitas vezes, alinhar com o mais forte é uma questão de sobrevivência. Não estou a dizer que seja correto ou que seja moralmente aceitável. Mas nós temos uma dependência muito grande dos Estados Unidos, como sabe, em termos do que é a nossa área, nós desejamos uma área de mar gigantesca. Sem os Estados Unidos será difícil, sem a União Europeia será difícil.

Mas é uma decisão que nos expõe mais aos riscos ou protege-nos mais?

Neste caso, protege-nos mais do que nos expõe. O Irão tem muitos inimigos com que se preocupar. O Portugal não está, certamente, na mira do Irão. E nem eles têm mísseis que alcancem as nossas posições.

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