"Isto é um grito de socorro." Há crianças (e adultos) a morrerem de fome em Gaza: "O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, foi impedido de funcionar". Tal como os civis palestinianos, os trabalhadores humanitários correm o risco de morrer à fome e de serem alvejados quando procuram alimentos (AVISO: ESTE ARTIGO CONTÉM IMAGENS QUE PODEM FERIR A SENSIBILIDADE DE QUEM AS VÊ)
Muhammad Zakariya Ayyoub al-Matouq tem um ano e meio e pesa apenas seis quilos. O menor, fotografado ao colo da mãe, é uma das milhares de pessoas que sofrem de má nutrição em Gaza. Sem leite nem qualquer outro alimento, Muhammad luta pela vida.
O Ministério da Saúde da Gaza afirma que 33 pessoas, incluindo 12 crianças, morreram de má nutrição entre segunda e esta quarta-feira, elevando o total para 101 (entre as quais 80 crianças).
“O número de mortos devido à fome e à subnutrição está a aumentar a um ritmo alarmante”, declara Munir al-Boursh, diretor-geral do Ministério da Saúde, numa publicação no X. “Não se trata apenas de números - são gritos de socorro, um apelo humano para que o mundo atue antes que seja demasiado tarde."
Esta quarta-feira mais de 100 organizações de ajuda alertaram para o facto de estar a alastrar uma “fome em massa” em Gaza. Uma declaração com 111 signatários, incluindo os Médicos Sem Fronteiras (MSF), a Save the Children e a Oxfam, avisou que “os nossos colegas e aqueles que servimos estão a definhar”. Os grupos apelam a um cessar-fogo negociado imediato, à abertura de todas as passagens terrestres e ao livre fluxo de ajuda através de mecanismos liderados pela ONU.
A carta apela ao governo israelita para que ponha fim ao bloqueio de Gaza, salientando que existem alimentos suficientes para impedir a ocorrência da fome, mas Israel não os deixa entrar. “O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, foi impedido de funcionar”, dizem.
As organizações dizem ainda que, tal como os civis palestinianos, os trabalhadores humanitários correm o risco de morrer à fome e de serem alvejados quando procuram alimentos. "Nos arredores de Gaza, em armazéns - e mesmo dentro da própria Gaza -, toneladas de alimentos, água potável, material médico, artigos para abrigos e combustível permanecem intocadas, com as organizações humanitárias impedidas de aceder a eles ou de os entregar. As restrições, os atrasos e a fragmentação do Governo de Israel, sob o seu cerco total, criaram o caos, a fome e a morte."
"As agências humanitárias têm a capacidade e os recursos necessários para responder em grande escala. Mas, com o acesso negado, estamos impedidos de chegar aos necessitados, incluindo as nossas próprias equipas exaustas e famintas", lê-se.
O Ministério da Saúde e a ONU também afirmam que mais de mil pessoas foram mortas pelas forças armadas israelitas enquanto procuravam ajuda alimentar desde que o sistema de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiado pelos EUA e por Israel, começou a 27 de maio.
De acordo com a ONU, cerca de 87,8% da Faixa de Gaza está atualmente coberta por ordens de evacuação ou encontra-se dentro de zonas militarizadas israelitas, deixando a população de 2,1 milhões de pessoas comprimida em cerca de 46 km2 de terra.
"A fome está a bater a todas as portas", diz Guterres
“Em todo o mundo, assistimos a uma total desconsideração, se não mesmo a uma violação total, do direito internacional”, disse terça-feira o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ao Conselho de Segurança ONU. "Não precisamos de olhar mais longe do que o espetáculo de horror em Gaza. O nível de morte e destruição não tem paralelo nos últimos tempos. A subnutrição está a aumentar. A fome está a bater a todas as portas. Agora estamos a assistir ao último suspiro de um sistema humanitário construído com base em princípios humanitários."
Segundo Guterres, o sistema humanitário da ONU está a ser “privado das condições para funcionar” em Gaza, incluindo o espaço para distribuir ajuda e a segurança para ajudar as pessoas necessitadas. A nova operação militar israelita em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, está a acrescentar ainda mais devastação a uma situação que já não era boa.
Guterres afirma também que está “chocado” com o ataque às instalações da ONU em Gaza, incluindo as instalações do Gabinete das Nações Unidas para os Serviços de Projetos e os armazéns e residências da Organização Mundial da Saúde. “Estas instalações devem ser protegidas ao abrigo do direito internacional humanitário, sem exceção.”
Foto de Hamza Z. H. Qraiqea/Anadolu via Getty Images
Israel desmente que haja fome em Gaza e culpa Hamas e ONU pela falta de alimentos
David Mencer, porta-voz do governo israelita, diz que as alegações de “fome” têm sido consistentes ao longo do conflito e chama-lhes “falsos alarmes”. “Onde há fome em Gaza é fome causada pelo Hamas”, disse em conferência de imprensa esta quarta-feira. A fome "é uma tática do Hamas" para pressionar Israel, afirmou. “Há uma escassez provocada pelo Hamas."
Segundo este responsável, a ajuda tem entrado em Gaza através da Fundação Humanitária de Gaza (GHF) e através de carregamentos coordenados pela ONU de matérias-primas para padarias e cozinhas comunitárias.
Entre 19 de julho e terça-feira, entraram em Gaza mais de 4.400 camiões de ajuda, contendo alimentos, farinha e comida para bebés, afirmou. Esta terça-feira, a GHF distribuiu dois milhões de refeições aos habitantes de Gaza num só dia, disse. No total, referiu que foram distribuídas 87 milhões de refeições pela organização.
“O Hamas está a tentar impedir a distribuição de alimentos”, alegou Mencer, acrescentando que “estão a saquear os camiões de ajuda”.
O porta-voz do governo israelita afirma que, nas últimas 24 horas, há mais de 700 camiões de ajuda dentro de Gaza, à espera de serem recolhidos pela ONU. Mencer culpa a ONU por este “estrangulamento” e sugere que a ONU é o principal obstáculo à manutenção do fluxo de ajuda para Gaza.
Outros funcionários israelitas já tinham transmitido esta ideia de que a ajuda humanitária está a ser autorizada a entrar em Gaza, acusando o Hamas de explorar o sofrimento dos civis, nomeadamente roubando alimentos para vendê-los a preços inflacionados ou disparando contra os que aguardam ajuda.
Um funcionário israelita, que falou ao Times of Israel sob condição de anonimato, reconheceu que recentemente se verificou uma queda significativa na quantidade de ajuda que chega aos palestinianos na Faixa de Gaza, mas culpou os organismos das Nações Unidas por não recolherem e distribuírem os alimentos e mantimentos. “Não identificámos fome neste momento, mas entendemos que é necessário agir para estabilizar a situação humanitária”, disse o funcionário, acrescentando que pode haver dificuldades de acesso aos alimentos em algumas áreas, o que, segundo ele, é uma questão que precisa de ser resolvida.
NE: notícia atualizada a 1 de agosto com dados adicionais sobre o estado de saúde de Muhammad Zakariya Ayyoub al-Matouq