Uma mensagem para Washington, outra para a Ucrânia e quem sabe para os russos, uma demonstração de poder e o regresso da barbárie. O que quis Putin com ataques à luz do dia?

8 jul, 21:58

Alarmes soaram em várias cidades ucranianas em plena luz do dia: várias cidades foram alvo de ataques com mísseis russos. Um hospital pediátrico em Kiev foi um dos locais

Kiev, Dnipro, Kryvyi Rih, Sloviansk, Kramatorsk e Pokrovsk. Em plena luz do dia, a Rússia disparou mais de 40 mísseis contra várias cidades ucranianas, naquela que é uma das investidas mais mortíferas desde o começo do conflito, em fevereiro de 2022.

Para já, foram declaradas 36 vítimas mortais e 140 feridos, segundo o que Andriy Yermak, chefe do gabinete do presidente da Ucrânia, escreveu no Telegram. Mas o número de baixas pode ser maior, uma vez que ainda há pessoas soterradas nos escombros, sobretudo do Hospital Pediátrico Okhmatdyt, em Kiev, que foi um dos alvos russos desta segunda-feira. Não se sabe ao certo quantas pessoas estariam nas instalações e nas imediações desta unidade hospitalar no momento do ataque, mas este é um dos maiores hospitais pediátricos da Europa e, todos os anos, são lá realizadas cerca de sete mil cirurgias, incluindo tratamentos para o cancro, conta a CNN Internacional.

“Um dos hospitais pediátricos mais importantes não só na Ucrânia, mas também na Europa. Okhmatdyt tem salvado e restaurado a saúde de milhares de crianças. (...) A Rússia não pode alegar ignorância sobre para onde os seus mísseis estão a voar e deve ser responsabilizada integralmente por todos os seus crimes. Contra pessoas, contra crianças, contra a humanidade em geral. É muito importante que o mundo não fique em silêncio sobre isso agora e que todos vejam o que a Rússia é e o que está a fazer”, escreveu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na rede social X, antigo Twitter, partilhando imagens do caos causado pelo ataque.

Mas, o que quis a Rússia com um ataque feito às claras, em plena luz do dia e contra alvos civis? Enviar uma mensagem para Washington, onde se irá realizar entre esta terça e quinta-feira a cimeira da NATO e para a Ucrânia (e, quem sabe, para os próprios russos), demonstrar poder e deixar claro que ataca quando quer, o que quer e como quer. 

Para o major-general Isidro de Morais Pereira, “a escolha dos alvos não é feita de forma inocente", até porque Kryvyi Rih é a cidade-natal de Zelensky, e este ataque “é um mostrar de poder”, uma Rússia a dizer-se empoderada e a passar uma mensagem muito clara: “Só não fazemos mais porque não queremos, porque no dia em que quisermos, voltamos aos ataques bárbaros”. Com estes ataques à luz do dia, o major-general considera que Moscovo deixa um outro aviso: “Tenham cuidado com as decisões tomadas em Washington, estamos atentos porque também temos aliados”.

Sónia Sénica também entende os ataques desta manhã como uma vontade clara de Moscovo passar uma mensagem, sobretudo para a Aliança Atlântica. Para a especialista em Relações Internacionais e comentadora na CNN Portugal, sempre que há ataques em Kiev, a Rússia “passa uma mensagem muito importante” e, por isso, adianta, “devemos enquadrar os ataques de agora naquilo que é uma tentativa de pressionar” a Ucrânia por “querer avançar com o seu pedido de adesão” à NATO.

Tanto o major-general Isidro de Morais Pereira como o tenente-coronel Marco Serronha consideram que o ataque diurno pode ser uma mudança na abordagem russa, um aproveitamento daquele que ainda continua a ser o calcanhar de Aquiles das tropas ucranianas: a defesa aérea.

“A defesa aérea está muito alerta durante a noite e é provável que a Rússia tenha aproveitado alguma baixa na capacidade de alerta da defesa aérea da Ucrânia”, começa por dizer Marco Serronha, adiantando-se: “Estes ataques feitos durante o dia, independente dos objetivos militares, provocam mais baixas e afetam de algum modo a moral da população ucraniana”.

Isidro Morais de Pereira segue a mesma linha de pensamento e avisa que “a Ucrânia não tem cobertura anti-aérea que permita fazer face a todas estas ameaças” e que, por isso mesmo, “a Rússia está sobretudo a aproveitar esta debilidade e esta fraqueza”. “Isto é uma afirmação de poder, é a Rússia a dizer fazemos o que queremos e quando quisermos”, vinca o major-general e comentador da CNN Portugal.

Para o tenente-coronel Marco Serronha, Moscovo estará “a modificar o perfil dos ataques”, uma nova abordagem que poderá levar a cabo durante o verão, até porque Moscovo “poderá utilizar mais frequentemente” esta estratégia de ataque diurno por uma questão de “gestão da defesa aérea”. “É impossível manter estes sistemas de alerta 24 horas por dia”, vinca Marco Serronha.

Também o major-general Isidro de Morais Pereira destaca que “há um aproveitar, por parte da Rússia, para trocar de rotina” de ataque, até porque, vinca, “já não é a primeira vez que a Rússia faz isto e consegue atingir de forma mais fácil os alvos a que se destina”. No entanto, lamenta aquilo que diz ser um regresso aos tempos iniciais da guerra: “É o regresso à barbárie”.

“Tudo indica que estamos novamente de regresso à guerra do terror”, lamenta Isidro de Morais Pereira. E ao olhar para as imagens da destruição do hospital pediátrico de Kiev, “um dos maiores da Europa”, diz: “Parece a Faixa de Gaza”.

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