Um ataque de 250 km em profundidade a envolver EUA+Alemanha+França pode mudar "completamente" a guerra Rússia/Ucrânia. Mas pensar em guerra mundial "dá vontade de rir"

18 nov 2024, 14:21
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Kiev vai finalmente receber os mísseis de longo alcance que há tanto tempo andava a pedir aos EUA - e vai poder usá-los para atacar solo russo. Mas não vão servir para atacar Moscovo. Por enquanto a Rússia sente "urticária" mas vai sentir mais do que isso se a estes mísseis americanos se juntarem mísseis alemães e franceses. Filho de Trump veio dizer que estão a tentar começar uma 3.ª Guerra Mundial antes de o pai tomar posse

A autorização do Presidente dos EUA para a Ucrânia utilizar o Sistema de Mísseis Táticos do Exército (ATACMS, na sigla em inglês) vai permitir atacar objetivos militares dentro da própria Rússia. Com um alcance máximo de cerca de 300km, estes mísseis “têm uma capacidade de destruição e uma precisão tremendas e são muitíssimo difíceis de intercetar”, explica Isidro de Morais Pereira. O major-general esclarece que estes equipamentos “não são propriamente mísseis de longo alcance mas sim mísseis táticos” que permitem alcançar “objetivos militares, zonas de depósitos logísticos - que são fundamentais para apoiar as tropas -, depósitos de munições, locais de reunião de tropas”, entre outros.

Estes mísseis não vão ser usados “sobre cidades”, pois não têm capacidade para atuar “na profundidade, perto de Moscovo ou para atacar as refinarias”. Para isso, diz Isidro de Morais Pereira, “vão continuar a ser usados drones”.

Segundo o New York Times, estes mísseis devem ser utilizados contra as tropas russas e norte-coreanas em Kursk, região russa onde a Ucrânia avançou com uma incursão-surpresa em agosto. Ora, se assim for, diz o major-general Agostinho Costa, as forças russas, que “já lá têm uma bateria de defesa antiaérea, neutralizam-nos”.

“O que provoca urticária nos russos é o emprego destes mísseis no nível operacional e estratégico. Porque isso acarreta o empenhamento direto de militares ocidentais no targeting, isto é, no processamento dos dados para os mísseis e para o lançamento dos mísseis, etc. Quando a limitação destes mísseis é apenas a Kursk, a priori não será necessária toda esta intervenção ocidental, porque a Ucrânia tem meios de targeting para o nível tático”, explica o major-general Agostinho Costa.

Se o Reino Unido e França se juntarem aos EUA, enviando mais Storm Shadow, “aí o conflito muda de figura completamente”, avisa Agostinho Costa. “Se amanhã os Estados Unidos - porque são os Estados Unidos que efetivamente têm essa capacidade - atacarem 300 quilómetros na profundidade dentro da Rússia, e o Reino Unido e a França usarem estes meios para atacar a Rússia no máximo da sua capacidade, que é na casa dos 250 quilómetros, aí o conflito muda de figura completamente”.

Gasolina para a fogueira e uma "vontade de rir"

O Kremlin já reagiu entretanto, advertindo que, a confirmar-se o uso de mísseis de longo alcance dos Estados Unidos ou de outros aliados ocidentais em solo russo, Moscovo vai assumir que a responsabilidade é do país que desenvolveu esses mesmos mísseis - ou seja, de Washington. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, diz que Biden atirou "gasolina para a fogueira" e que tudo isto representa um "envolvimento diferente dos EUA" na guerra na Ucrânia.

O major-general Isidro de Morais Pereira desvaloriza estas declarações, afirmando que "é mais do mesmo" por parte de Moscovo. "Isto é narrativa pura e dura, porque se alguém está a escalar o conflito não é o Ocidente. Quem está a escalar o conflito é a Rússia quando trouxe para o combate um país terceiro que está a combater neste momento com os militares russos", afirma, referindo-se aos norte-coreanos que terão sido destacados para combater ao lado das forças russas em Kursk.

Quando muito, problematiza Isidro de Morais Pereira, "a Rússia poderá aumentar o número de ataques com mísseis e a violência com que tem atacado as populações ucranianas, mas mais do que isso não vai fazer".

No meio disto tudo, resta saber se Donald Trump, que vai tomar posse como presidente dos EUA dentro de dois meses, concordou com esta decisão de Joe Biden. A avaliar pela reação do filho do republicano, Donald Trump Jr., provavelmente o presidente recém-eleito não soube de nada, admitem os majores-generais.

"O Complexo Industrial Militar parece querer garantir o início da Terceira Guerra Mundial antes que o meu pai tenha a possibilidade de criar a paz e salvar vidas", escreveu o filho de Trump na sua conta oficial na rede social X.

"Terceira Guerra Mundial? Dá-me vontade de rir. Deve ser para crianças pequenas acreditarem neste tipo de narrativa", reage o major-general Isidro de Morais Pereira - que sublinha que "Biden tem toda a legitimidade para tomar estas decisões enquanto for presidente". Resta saber, acrescenta o major-general, qual será o plano de Donald Trump para acabar com a guerra em "24 horas", tal como prometeu durante a campanha para as presidenciais norte-americanas.  "Trump sabe exatamente aquilo que quer. Trump não quer mais guerras e prometeu aos americanos que tudo fará para conseguir a paz nesses dois conflitos. Agora, como vai fazê-lo? Muito sinceramente, nem ele sabe", conclui Isidro de Morais Pereira.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa