Gouveia e Melo garante que "a Rússia vai levar a sério a Europa": "Bastam 200 ou 300 ogivas nucleares para destruir" um território

24 fev, 23:19

Com avisos feitos àquilo que Portugal deve fazer sobre o envio de tropas para a Ucrânia, o almirante também pede especial à situação militar nos Açores

Ainda muitas pessoas andavam de máscara em público quando Henrique Gouveia e Melo passou de vice-almirante a almirante, passando também a liderar o Estado-Maior da Armada.

E foi ainda com a campanha de vacinação em curso que, apenas dois meses depois de o almirante tomar posse como líder de um dos ramos das Forças Armadas, Vladimir Putin decidiu ordenar a invasão da Ucrânia.

Quatro anos depois, o homem que foi figura nas últimas eleições Presidenciais veio à CNN Portugal dar a sua visão sobre um mundo em mudança.

Para Gouveia e Melo há duas conclusões rápidas a tirar, uma política e uma operacional, esta última mais simples. É que a guerra transformou-se rapidamente num cenário com “sistemas não tripulados que passaram a dominar o espaço de batalha e a negar o espaço de batalha”.

O almirante fala naturalmente dos drones, que se tornaram na principal arma de ambos os lados, tornando a batalha “assimétrica”.

Já a nível político, Gouveia e Melo lembra que chegámos aqui depois do tratado de Vestefália assinado em 1648, quando os Estados passaram a ser considerados soberanos dentro das suas fronteiras, aceitando-se como iguais numa lógica internacional.

A conferência de Ialta, ocorrida meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial, veio confirmar isso mesmo, para quase um século depois Vladimir Putin rasgar a lógica do Direito Internacional.

“Estas regras estão a ser postas em causa, é a grande consequência política”, aponta o almirante, notando que deixou de haver igualdade entre os Estados, passando a reinar a regra da força, em vez da regra da lei.

E se a Rússia ainda está confinada à Ucrânia, onde Gouveia e Melo vê um autêntico “atoleiro” para o Kremlin, há sempre a hipótese de as ambições se virarem mais para Ocidente.

“Não sabemos se a Rússia não vai desviar a sua máquina militar para outra área, naturalmente serão os Bálticos, o que interfere com a NATO, e aí poderemos ter um conflito de média-larga escala”, reitera, lembrando que países como a China podem sentir-se legitimados a tomar decisões territoriais com base nesta guerra.

Caso esse cenário venha a verificar-se, passarão a estar em confronto potências nucleares, mesmo que os Estados Unidos decidam ficar à parte. É que embora tenham muito menos bombas, França e Reino Unido também têm armamento nuclear.

De resto, e segundo Gouveia e Melo, que não vê na Europa um “jogador internacional” por falta de uma “política externa coerente”, a dissuasão nuclear destes dois países juntos pode chegar para dissuadir a Rússia.

 "A Rússia vai levar a sério a Europa. Um conflito prolongado entre a União Europeia e a Federação Russa, a Federação Russa tem tudo para perder esse conflito, a não ser que reverta a uma guerra nuclear, mas isso é impensável, porque as ogivas nucleares que França e Reino Unido têm são suficientes. Não é preciso ter mil ogivas nucleares, basta 200 ou 300 para destruir o território todo", sublinha.

Ora, de acordo com a Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN), França tem 290 ogivas nucleares e o Reino Unido tem 225. Muito menos que as 5.459 da Rússia, o país com mais bombas, mas suficiente, segundo Gouveia e Melo, para dissuadir o inimigo.

Notando que a Europa pode ter acordado tarde, o almirante vaticina que o maior perigo reside nos próximos três anos. É esse o período que coincide com Donald Trump na Casa Branca e Vladimir Putin no Kremlin.

“A Europa está a rearmar, mas para daqui a cinco, seis anos”, nota Gouveia e Melo, sugerindo que até essa altura há uma Europa indefesa, pelo que é necessário “prender a Rússia na Ucrânia”.

Olhando para a frente, Gouveia e Melo mantém a ideia de que é preciso ter cuidado a enviar tropas europeias para a Ucrânia. O almirante pede mesmo que Portugal não seja “tão ingénuo e voluntarioso” a fazê-lo, destacando a maior importância de colocar forças na Gronelândia, o que enviará uma mensagem em relação aos Açores.

“Um dia podemos precisar de meter forças nos Açores para diluir a tentação de uma administração que acha que pode mudar as regras internacionais”, avisou, assinalando, ainda assim, que há muitos conselheiros de origens portuguesas no círculo de Donald Trump, o que nos “protege um bocado”.

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