A dúvida é tão real que o secretário da Defesa dos Estados Unidos foi mesmo questionado sobre isto
Perante as preocupações com a possibilidade de o Irão colocar minas no Estreito de Ormuz, o secretário da Defesa dos EUA foi questionado esta terça-feira se o Irão poderia recorrer a golfinhos para ajudar a enfrentar a Marinha dos EUA.
Pete Hegseth afirmou que poderia "confirmar" que o Irão não possui golfinhos para serem utilizados nas operações, mas disse que não iria confirmar nem negar se os EUA têm golfinhos kamikazes.
Uma fonte familiarizada com as operações americanas no Estreito de Ormuz disse à CNN que as Forças Armadas dos EUA não estão a utilizar golfinhos nas suas operações no Estreito. Mas a Marinha dos EUA, de facto, possui um programa de décadas para treinar golfinhos na detecção de minas.
O Programa de Mamíferos Marinhos faz parte do Departamento de Informação, Vigilância e Reconhecimento (ISR) do Centro de Guerra de Informação Naval do Pacífico. Os golfinhos do departamento não são kamikazes, pois não sacrificam as suas vidas para detonar minas. Em vez disso, concentram-se na deteção.
“Utilizamos mamíferos marinhos para ajudar a detetar objetos debaixo de água e para proteger portos, detetando intrusos”, explica Scott Savitz, engenheiro sénior da RAND que trabalhou anteriormente com o agora desativado Comando de Guerra de Minas da Marinha dos EUA, à CNN. “Portanto, não é ‘O Dia do Golfinho’”.
Os EUA não são os únicos a utilizar golfinhos para fins militares - a Rússia utiliza-os para proteger portos, e o Irão comprou golfinhos em 2000, segundo a BBC. Estes golfinhos estariam provavelmente demasiado velhos para serem utilizados hoje em dia, e não há indicação de que o Irão tenha um programa ativo com golfinhos, embora o Wall Street Journal tenha noticiado no mês passado que o Irão estava a considerar a utilização de golfinhos para transportar minas como uma forma inovadora de combater os esforços dos EUA para abrir o Estreito.
A pergunta feita a Hegseth esta terça-feira surge na mesma altura em que aumentam as dúvidas sobre o cessar-fogo entre os EUA e o Irão, após disparos de ambos os lados com o aumento das tensões no Estreito de Ormuz. A CNN noticiou em março que o Irão tinha começado a instalar minas no estreito; Hegseth afirmou em abril que a colocação de minas violaria o acordo provisório de cessar-fogo e que os militares norte-americanos "lidariam com isso".
O programa de golfinhos da Marinha dos EUA existe desde 1959 e centra-se no treino de golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos da Califórnia para detetar e recuperar objetos subaquáticos. De acordo com a página do Programa de Mamíferos Marinhos, os golfinhos "possuem o sonar mais sofisticado conhecido pela ciência" e os drones subaquáticos "não são páreo para estes animais".
"Tanto os golfinhos como os leões-marinhos têm uma excelente visão a baixa luminosidade e audição direcional subaquática, o que lhes permite detetar e seguir alvos subaquáticos, mesmo em águas escuras ou turvas", refere o site. "Os golfinhos são treinados para procurar e marcar a localização de minas submarinas que possam ameaçar a segurança daqueles que estão a bordo de navios militares ou civis".
Durante uma missão de deteção, o golfinho viaja geralmente com dois a três tratadores num pequeno barco. Para indicar se encontrou algo, o animal bate com uma pá na proa do barco e bate com uma pá na popa para indicar que não encontrou nada, segundo o Museu Submarino da Marinha. Os golfinhos lançam "bóias de sinalização" perto das minas que localizaram para ajudar os mergulhadores a encontrá-las e a desativá-las.
Mas os golfinhos não são normalmente utilizados num ambiente de combate ativo como o que existe atualmente no Estreito de Ormuz. Em vez disso, os golfinhos têm sido utilizados para detetar minas após o fim dos combates, refere Savitz.
Savitz cita especificamente o caso de 2003, quando os golfinhos foram mobilizados para detetar minas que conduzissem ao porto iraquiano de Umm Qasr, depois de os EUA e os seus parceiros da coligação terem capturado o sul do Iraque.
"As hostilidades basicamente cessaram", lembra. "Não estamos a tentar entrar na guerra com golfinhos."
Um aspeto fundamental do programa, explicaSavitz, é que os golfinhos e os leões-marinhos têm a oportunidade de sair sempre que vão para o mar aberto para treino ou operações.
“Optam por voltar porque gostam dos peixes gratuitos; gostam da brincadeira de encontrar objetos no fundo do mar, de encontrar a pessoa a nadar perto dos cais; gostam da proteção contra os predadores”, completa Savitz. “Há sempre questões sobre o bem-estar animal, mas estes animais escolhem ativamente permanecer no programa quando poderiam simplesmente voltar à natureza”.
Zachary Cohen, da CNN, contribuiu para esta reportagem