Construída dentro das montanhas e quase impossível de destruir. Fordow, a central nuclear que pode arrastar os EUA para a guerra com o Irão

CNN , Vasco Cotovio e Brad Lendon
18 jun 2025, 08:00
Uma imagem de satélite tirada em 14 de junho de 2025 não mostra danos visíveis após os ataques de Israel na sexta-feira (Maxar Technologies via CNN Newsource)

É o que Israel quer fazer mas não consegue. A dezenas de metros de profundidade, esta central só poderá ser um alvo se e quando os Estados Unidos quiserem

Cinco túneis escavados num conjunto de montanhas, uma grande estrutura de apoio e um amplo perímetro de segurança: É tudo o que se pode ver da misteriosa central de enriquecimento de combustível de Fordow, no Irão, a partir de imagens de satélite recentes.

O complexo secreto e fortemente guardado, construído perto da cidade sagrada de Qom, tem alimentado especulações sobre a sua verdadeira natureza e dimensão desde que foi tornado público pela primeira vez em 2009.

Uma parte do que sabemos provém de um conjunto de documentos iranianos roubados há anos pelos serviços secretos israelitas.

Estima-se que os seus salões principais se situem entre 80 a 90 metros abaixo do solo - a salvo de qualquer bomba aérea que Israel possua, o que torna a destruição das instalações a partir do ar uma tarefa quase impossível.

Numa altura em que os dirigentes iranianos se ressentem de uma série de ataques israelitas devastadores, alguns analistas afirmam que é em Fordow que o Irão poderá apressar-se a converter as reservas de urânio enriquecido numa bomba nuclear.

Israel tem visado esta instalação nos últimos dias mas, segundo a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), até agora não quis - ou não conseguiu - danificá-la.

Há muito que Teerão afirma que os objetivos do seu programa nuclear são pacíficos, mas Fordow tem estado no centro das preocupações sobre as ambições do Irão.

“A dimensão e a configuração desta instalação são incompatíveis com um programa pacífico”, afirmou o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2009, quando, juntamente com o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, revelou ao mundo a existência de Fordow.

O então presidente dos EUA, Barack Obama, faz uma declaração sobre o Irão durante o G20 em Pittsburgh, Pensilvânia, a 25 de setembro de 2009. Atrás dele estão o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown (Jim Watson/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
O então presidente dos EUA, Barack Obama, faz uma declaração sobre o Irão durante o G20 em Pittsburgh, Pensilvânia, a 25 de setembro de 2009. Atrás dele estão o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown (Jim Watson/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Poucos dias antes do anúncio, os iranianos, aparentemente a par de que as agências ocidentais tinham tido conhecimento das instalações, informaram a AIEA do seu desejo de construir uma nova instalação de enriquecimento de combustível. Nessa altura, a construção em Fordow já estava em curso há anos.

Teerão negou as acusações, mas a condenação, mesmo por parte da aliada Rússia, e as preocupações da China deixaram-lhe pouca margem de manobra.

A construção começou no início da década de 2000

Os EUA e os seus aliados não forneceram muitos pormenores sobre a data de início da construção de Fordow, mas as imagens históricas de satélite disponíveis ao público mostram trabalhos no local já em 2004, com fotografias que revelam duas estruturas quadradas brancas onde se situam atualmente as entradas dos túneis. A AIEA diz ter imagens adicionais que mostram a construção já em 2002.

“Fordow é, na verdade, um projeto que começou durante aquilo a que chamamos de programa de armas nucleares do início da década de 2000”, explica David Albright, diretor do Instituto para a Ciência e Segurança Internacional (ISIS), sediado em Washington, DC, uma instituição apartidária dedicada a travar a disseminação de armas nucleares. “A ideia era que eles (os iranianos) produziriam urânio para armas nessa central e obteriam urânio pouco enriquecido do programa nuclear civil do Irão.”

Imagem de satélite da fábrica de enriquecimento de combustível de Fordow, no Irão, tal como era em 2004 (Maxar Technologies via CNN Newsource)
Imagem de satélite da fábrica de enriquecimento de combustível de Fordow, no Irão, tal como era em 2004 (Maxar Technologies via CNN Newsource)

Em 2009, uma grande estrutura de apoio exterior já estava totalmente construída e estava a ser escavada uma conduta de ventilação que os especialistas acreditam ser crucial para permitir a circulação de ar nas instalações. Esse poço foi posteriormente ocultado e camuflado, como mostram também as imagens mais recentes.

Teerão explicou à AIEA, numa carta datada de outubro de 2009, que a decisão de construir as instalações no subsolo resultou de “ameaças de ataques militares contra o Irão”, acrescentando que Fordow serviria de contingência para a central de Natanz, que, segundo o Irão, “estava entre os alvos ameaçados de ataques militares”.

O Irão disse à AIEA que a instalação poderia albergar até três mil centrifugadoras.

Uma imagem de satélite tirada em 14 de junho de 2025 não mostra danos visíveis após os ataques de Israel na sexta-feira (Maxar Technologies via CNN Newsource)
Uma imagem de satélite tirada em 14 de junho de 2025 não mostra danos visíveis após os ataques de Israel na sexta-feira (Maxar Technologies via CNN Newsource)

Acordo nuclear e acusações israelitas

Os perigos representados por Fordow foram em grande parte domados em resultado do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), o chamado “acordo nuclear com o Irão”, que exigia que o Irão removesse dois terços das centrifugadoras dentro da instalação, juntamente com todo o material nuclear, depois de a instalação ter sido proibida de realizar qualquer trabalho desse tipo.

Este processo foi lentamente invertido quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump abandonou o acordo em 2018.

Mais detalhes sobre a instalação foram tornados públicos pelo primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em 2018, depois de os serviços secretos do seu país terem apreendido mais de 55 mil documentos do que Israel disse ser o “arquivo atómico” do Irão.

Entre os documentos estavam plantas detalhadas de Fordow e informações sobre os seus objetivos: produzir urânio para armas, como parte do programa de armas nucleares do Irão, para pelo menos uma ou duas armas nucleares por ano.

“Nunca vimos qualquer incoerência”, refere Albright, que passou os documentos a pente fino, sobre o esforço do Irão para desenvolver armas nucleares. "São centenas de milhares de páginas. Não se pode inventar uma quantidade tão grande de coisas. Penso que ninguém o contesta, e é provavelmente por isso que existe uma resolução do Conselho de Governadores [da AIEA] contra o Irão."

Na altura, o então vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, considerou as revelações e os comentários de Netanyahu “infantis” e “risíveis”. O então secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse que os EUA tinham conhecimento do material “há algum tempo” e acreditavam que os documentos eram autênticos.

Protegido até das maiores bombas

Relatórios recentes da AIEA sugerem que o Irão aumentou a produção de urânio enriquecido para um nível de 60% nas instalações de Fordow, que, segundo os peritos e aquela agência, contém atualmente 2.700 centrifugadoras.

“O aumento significativo da produção e acumulação de urânio altamente enriquecido pelo Irão, o único Estado sem armas nucleares a produzir este tipo de material nuclear, é motivo de grande preocupação”, afirmou a AIEA num relatório de 31 de maio.

“Uma das coisas que elevou a tensão foi o facto de eles não terem qualquer razão para o fazer, a não ser poderem dar o passo seguinte e transformá-lo em urânio para armas”, aponta Albright.

"Foi interpretado como se estivessem a preparar-se para o fazer, se assim o decidirem. E se tiverem 60%, podem transformá-lo em urânio para armas muito rapidamente", acrescenta.

De acordo com o grupo de reflexão do ISIS, “o Irão pode converter o seu atual stock de urânio enriquecido a 60% em 233 quilos de urânio para armas em três semanas na fábrica de enriquecimento de combustível de Fordow”, o suficiente para nove armas nucleares.

É por isso que Fordow é um dos principais focos das tentativas de Israel para degradar e destruir o programa nuclear do Irão. Mas será isso exequível?

Os Estados Unidos são o único país que possui o tipo de bomba necessária para atacar a central nuclear iraniana de Fordow, confirmou o embaixador de Israel nos Estados Unidos, Yechiel Leiter, numa entrevista à Merit TV na segunda-feira.

"Para que Fordow seja destruído por uma bomba vinda do céu, o único país do mundo que tem essa bomba são os Estados Unidos. E essa é uma decisão que os Estados Unidos têm de tomar, quer optem ou não por seguir esse caminho", afirmou Leiter. Mas, acrescentou, essa não era a única opção: “Há outras formas de lidar com Fordow”.

Destruir Fordow a partir do ar seria quase impossível para Israel, de acordo com um relatório de março do grupo de reflexão do Royal United Services Institute (RUSI), com sede no Reino Unido, e exigiria um poder de fogo significativo e a assistência dos Estados Unidos.

Não seria sequer alcançável pelas bombas de penetração maciça GBU-57 dos EUA, que apenas atingem cerca de 60 metros de profundidade, de acordo com o relatório do RUSI. E as GBU-57 só podem ser entregues por bombardeiros furtivos B-2 da Força Aérea dos EUA, algo que Israel não tem - mesmo que os EUA lhe desse as bombas.

“Mesmo a GBU-57/B necessitaria provavelmente de múltiplos impactos no mesmo ponto de mira para ter uma boa hipótese de penetrar nas instalações”, diz o relatório.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Kazem Gharib Abadi (à direita), com o chefe da AIEA, Rafael Grossi (segundo à esquerda), em frente à central de enriquecimento nuclear de Fordow, em 15 de novembro de 2024 (Atomic Energy Organization of Iran/AFP/Getty Images/File via CNN Newsource)
O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Kazem Gharib Abadi (à direita), com o chefe da AIEA, Rafael Grossi (segundo à esquerda), em frente à central de enriquecimento nuclear de Fordow, em 15 de novembro de 2024 (Atomic Energy Organization of Iran/AFP/Getty Images/File via CNN Newsource)

Outros analistas concordam, dizendo que, se os EUA tentassem atingir Fordow, provavelmente não o conseguiriam com uma só bomba.

“Eu apostaria em ataques repetidos contra Fordow”, diz o analista militar da CNN Cedric Leighton, um antigo coronel da Força Aérea dos EUA.

Albright diz que pode haver outras formas de desativar Fordow.

“Israel poderia provavelmente destruir as entradas dos túneis bem atrás e certamente destruir o sistema de ventilação”, acrescenta. “Se destruíssem [os túneis] e o fornecimento de energia elétrica, passariam meses antes de poderem realmente funcionar.”

Apesar do seu papel crucial no programa nuclear do Irão, Albright acredita que Fordow é apenas mais uma peça do puzzle.

"Se a destruirmos, não é o fim da linha, porque passamos à ameaça seguinte, que é: quantas centrifugadoras fabricou o Irão que não instalou em Fordow e Natanz? E onde é que elas estão?", questiona.

“Penso que as pessoas dão demasiada importância à necessidade de destruir o Irão, derrubando os seus tetos, o que, provavelmente, só os EUA podem fazer”.

Frederik Pleitgen, Kayla Williams e Gianluca Mezzofiore, da CNN, contribuíram para esta reportagem

Médio Oriente

Mais Médio Oriente