A guerra já tem quatro meses e corre o risco de ter muitos mais. E há um "dilema" de Zelensky que poderá "beneficiar" a Rússia

24 jun, 07:00
Mariupol, Ucrânia (Associated Press/Alexei Alexandrov)

Se o Ocidente normalizar a guerra e os discursos do presidente ucraniano deixarem de ter efeito nos apoios que recebe, é Putin quem fica a ganhar. Especialistas ouvidos pela CNN Portugal analisam os efeitos da eventual normalização da guerra

Assinalam-se esta sexta-feira quatro meses de guerra na Ucrânia. Desde o início do conflito muita coisa mudou, nomeadamente a atenção do mundo para o que se passa no Leste da Europa. A 24 de fevereiro de 2022, os bombardeamentos em território ucraniano dominavam as conversas, mas, agora, começam a aparecer os primeiros sinais de fadiga emotiva da guerra.

Sendo este um conflito travado também no campo comunicacional, quem ganha e quem perde, afinal, com esta eventual "normalização" da guerra?

Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, defende que, do ponto de vista de opinião pública, há três opiniões diferentes a ter em conta: a opinião ocidental, a ucraniana e a russa.

O Ocidente

Para a especialista, este desinteresse, acoplado às questões económicas que a Europa começa a passar, podem criar, a prazo, não só uma indiferença da opinião pública no Ocidente, como uma certa revolta contra a guerra e contra a Ucrânia: "E isso, no meu ponto de vista, é o mais perigoso".

"Os avisos de que a guerra pode ser longa estão relacionados com uma estratégia para que as pessoas ocidentais pensem que esta é uma guerra que também é sua e que vai haver consequências", começa por explicar Diana Soller, acrescentando que este é um nexo cansaço de guerra - esforço de guerra - estratégia de comunicação, "que os governos vão ter que ter para que as pessoas compreendam que precisam de fazer sacrifícios, não só para apoiar a guerra, mas para reforçar os orçamentos de Defesa e a ligação à NATO".

"Para haver uma manutenção do interesse ocidental na guerra, os governos vão ter de fazer uma certa pedagogia: precisamente porque a comunicação emocional de Zelensky já não tem o mesmo poder sobre nós e que terá de ser substituído pelos governos, que têm de fazer um esforço de sensibilização".

A Ucrânia

Adelino Cunha, historiador e investigador da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Europeia, lembra, em entrevista à CNN Portugal, que esta é a primeira vez em que há guerra no território europeu com muita intervenção das redes sociais. O que significa que "entre o acontecimento e o público, a intermediação passou a ser feita pelas redes sociais". E, dando o exemplo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, "ele está a falar diretamente com cada um dos europeus" - o que permite uma mediatização social da guerra.

"O presidente Zelensky tem usado habilmente o fim do monopólio da recolha, edição e difusão dos jornalistas para falar diretamente com cada um dos membros da sua audiência", refere o investigador, numa referência às comunicações diárias do presidente ucraniano, publicadas através de vídeo no Facebook e Telegram. "É uma mobilização direta baseada, necessariamente, nas emoções e na falta de perspetiva e de contexto global".

Nesse sentido, estará Zelensky - que se tem apoiado na comunicação como pilar da estratégia ucraniana - a tornar-se repetitivo? Afinal de contas, o presidente ucraniano precisa da opinião pública para motivar doações de armamento por parte do Ocidente.

"A dificuldade de Zelensky está relacionada com o falar para um país que está em guerra - e nessa vertente esta a fazer um bom trabalho - e ao mesmo tempo mobilizar o Ocidente. E nesta vertente de discurso emocional, começa a haver um cansaço", começa por referir Diana Soller, que conclui: "No fundo ele precisa desesperadamente do apoio do Ocidente (senão perde a guerra), mas por outro lado não há mais nada que ele possa fazer relativamente à fadiga ocidental da guerra".

"O presidente ucraniano está perante um dilema: se ele continua a falar todos os dias, as pessoas desinteressam-se dos discursos deles, mas por outro não pode deixar de falar todos os dias, senão as pessoas esquecem-se do discurso dele", afirma Diana Soller. 

"Ainda não estamos numa fase em que há falta de apoio, mas se deixar de haver, a Rússia começa a beneficiar dessa falta de apoio". "E há uma possibilidade forte que isso aconteça", adverte a especialista.

A Rússia

A opinião pública ocidental e ucranianas "contrastam absolutamente" com o apoio da opinião pública russa, mais suscetível à propaganda de guerra, destaca Diana Soller.

"Nós sabemos que a esmagadora maioria da população russa não tem acesso aos média ocidentais e isso permite ao governo russo ter uma narrativa que vai de encontro aos anseios da população russa e do que precisa ouvir", refere a especialista, que acrescenta: "Em segundo lugar, há a ligação do povo russo aos seus líderes, que faz com que estes acreditem que o interesse nacional da Rússia é também o seu interesse pessoal: isso pode mudar com o tempo e com as baixas de guerra, mas por enquanto parece manter-se."

"A Rússia beneficia de uma normalização da guerra, precisamente por esse controlo que tem da opinião pública. As democracias têm essa dificuldade, precisamente porque não há o controlo da opinião pública", aponta ainda Diana Soller.

E, ainda sobre democracia, o investigador Adelino Cunha adverte: "Ao contrário da perceção geral, não creio que a internet tenha aumentado a qualidade da democracia. Pelo contrário: os conglomerados digitais reduziram o pluralismo e a divergência porque acantonaram as audiências em bolhas. Essas bolhas partilham e difundem a mesma interpretação da realidade e banem a divergência."

"Insistimos em abordar a guerra pela perspetiva ocidental e segundo a dimensão moral ocidental. Isso gera necessariamente confusão cognitiva porque nos retira a perspetiva “dos outros”. É fundamental entender todas as dimensões do conflito. Uma boa formulação do problema deve conter o caminho da solução e não o bloqueio. Insistir no mesmo erro de interpretação continuará a envenenar o poço e a adiar a construção do processo de paz", remata o investigador.

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