O que afasta Estados Unidos e Irão continua por resolver e não foi numa reunião de duas horas que tudo ficou sanado. Entre explosões e comunicados agressivos, a guerra continua
O presidente dos Estados Unidos anunciou com grandes certezas que ia entrar para uma reunião decisiva na sua “situation room”, a sala de crise onde se tomam quase todas as grandes decisões militares, prometendo uma decisão final sobre a guerra no Irão para esta sexta-feira.
Uma “determinação final”, para ser mais literal com o anúncio feito por Donald Trump, que terminou uma publicação na rede social em foram enumeradas uma série de condições impostas pela Casa Branca.
Acontece que esta reunião acabou sem qualquer decisão, algo que já parecia ser possível assim que o Irão reagiu à mensagem de Donald Trump, mas que acabou por se confirmar cerca de duas horas após a publicação.
Estamos mais perto da paz, porventura, mas não estamos lá ainda, já que há irritantes entre as partes que ainda não foram ultrapassados, com algumas dúvidas a subsistirem nos Estados Unidos relativamente ao que fazer com os fundos iranianos que estão congelados.
Esse é um dos quatro pontos-chave que ainda não têm entendimento total:
- a reabertura do Estreito de Ormuz;
- a entrega do urânio enriquecido do Irão;
- libertação dos bens iranianos congelados;
- fim total da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano.
De acordo com o jornal The New York Times, descongelar ou não descongelar esses fundos é uma das grandes dúvidas da administração Trump. Pelo contrário, do outro lado parecem existir poucas dúvidas. Na tal reação rápida à publicação feita na Truth Social, o Irão esclareceu logo que faltava uma promessa concreta dos Estados Unidos de que esses milhares de milhões congelados em bancos estrangeiros poderiam voltar para as mãos do regime dos aiatolas.
Na prática, o que está em cima da mesa é resumido por uma frase dita por um responsável da administração Trump ao The New York Times: “sem poeira, sem dólares”.
A tal “poeira”, refira-se, é uma clara menção àquilo que o presidente dos Estados Unidos tem apelidado de “poeira nuclear”, que se refere à pretensão do Irão de continuar a ter urânio enriquecido, um passo-chave na busca por uma arma nuclear.
Os dólares, claro, é o tal dinheiro que o Irão continua a ter congelado. Não se sabe ao certo quanto é e onde está todo este dinheiro, mas Donald Trump já tratou de deixar as coisas em pratos limpos: “temos controlo sobre o dinheiro que eles dizem ser deles. Vamos continuar a ter controlo sobre esse dinheiro. Quando eles se comportarem apropriadamente e fizerem a coisa certa, vamos deixá-los ter o dinheiro deles. Por agora, não o vamos fazer”.
Estas são palavras proferidas ainda esta quarta-feira, e que confirmaram que a questão financeira se tornou para o Irão aquilo que a questão nuclear é para os Estados Unidos.
De acordo com a agência Tasnim, o Irão pretende desbloquear pelo menos 12 mil milhões de dólares de um pacote de 24 mil milhões de dólares que está congelado. O Catar, onde estão alguns destes fundos, tem sido um parceiro relevante nas negociações, mas a decisão final é sempre dos Estados Unidos e, mais precisamente, de Donald Trump.
Se dúvidas existissem em relação à questão do dinheiro, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos tratou de as desfazer já depois da reunião. Scott Bessent começou por anunciar a apreensão de mil milhões de dólares em criptomoeda do Irão, para depois avisar que qualquer devolução de fundos, a acontecer, será feita de forma muito lenta.
E se o Irão fala no dinheiro, nos dólares, Donald Trump fala no que mais lhe interessa, na bomba, na tal “poeira”, e noutro tipo de dólares.
Através da publicação feita minutos antes da reunião decisiva que nada decidiu, o presidente dos Estados Unidos deixou claro que “o Irão tem de concordar em nunca ter uma arma ou bomba nuclear”.
Em paralelo a isso, o Estreito de Ormuz “tem de ser aberto imediatamente, sem portagens, sem restrições ao tráfego marítimo, em ambas as direções”. Donald Trump chegou mesmo a dizer que quem está preso na zona podia começar a preparar-se para “ir para casa”. “Digam OLÁ às vossas mulheres, maridos, familiares e parentes por mim, o vosso presidente favorito”, escreveu.
Esse olá poderá agora ter de ser adiado.
E depois Donald Trump voltou à “poeira nuclear”, sugerindo que todo o urânio enriquecido do Irão terá de ser destruído, o que até pode acontecer em colaboração com a China e a Agência Internacional de Energia. Até lá, “nenhum dinheiro será trocado”, garantiu.
Mentiras e verdades
Como tem sido hábito desde que o frágil cessar-fogo está em vigor, nada do que acontece, seja no terreno, seja na diplomacia, é como cada um dos lados dizem.
Não espantou, por isso, que o Irão tenha vindo prontamente criticar o comunicado de Donald Trump, falando em “verdades”, mas também “mentiras”.
Uma mistura das duas coisas, de acordo com uma fonte iraniana que falou à agência Fars para reagir à publicação do presidente dos Estados Unidos, que, na visão do Irão, distorcia os elementos-chave do tal princípio de acordo que até Teerão admitiu existir, mas apenas a nível político.
Na ótica da República Islâmica o problema está nas afirmações “fundamentalmente infundadas” de Donald Trump, nomeadamente as que se referem à abertura do Estreito de Ormuz sem quaisquer portagens. É que o Irão entende que naquela zona, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, só devem mandar dois países: Irão e Omã.
“Nenhuma parte ocidental, quando fala da República Islâmica do Irão, deve utilizar o termo ‘deve’”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que garantiu que o país só toma as suas decisões com base nos interesses do seu povo.
À parte disso, o Irão fez saber que a continuação da guerra no Líbano é outro grande entrave para qualquer processo de paz, o que coloca os Estados Unidos numa situação mais delicada, já que essa é uma guerra exclusiva de Israel, que dá sinais de tudo menos de querer abrandar a ofensiva contra o Hezbollah.
