Na noite de 21 de junho de 2025, Donald Trump dirigiu‑se ao país num tom quase ritual, convocando ao mesmo tempo fé e fervor patriótico para anunciar aquilo que classificou como um “sucesso militar espetacular”: a destruição de três infraestruturas nucleares no Irão, localizadas em Fordow, Natanz e Isfahan. Uma ofensiva executada sem consulta às Nações Unidas nem referência aos tradicionais aliados da NATO, que sinaliza uma rutura explícita com o multilateralismo e o ressurgimento de uma visão unipolar da ordem internacional.
A retórica do discurso foi inequívoca. O Irão foi caracterizado como o “país mais violento do Médio Oriente”, acusado de financiar o terrorismo global e alvo de uma operação que implicou “completa e total destruição”. Estas expressões não visam apenas enfatizar a eficácia militar, visam reconstruir o prestígio americano com clareza e contundência.
A menção à “bênção de Deus sobre o Médio Oriente” e o explícito “Amamos‑te, Deus” revelam o recurso a um discurso religioso pouco habitual na política externa americana. Ao recorrer a essa tonalidade, Trump procura apelar à sua base evangélica, aquela que o elegeu sob a promessa de evitar novos conflitos militares, e ao mesmo tempo legitimar o uso da força num registo sacralizado.
Quanto aos alvos escolhidos, eles assumem forte simbolismo. Fordow e Natanz compõem a espinha dorsal do programa nuclear iraniano. Isfahan, por sua vez, corresponde à aposta científica e ao orgulho nacional. A operação não se propôs apenas a destruir instalações físicas, visou atingir o capital simbólico do regime, desestabilizando a legitimidade existencial do poder em Teerão.
Na linha de um reality show, Trump não se cansa de exibir ameaças adicionais. Referiu a existência de “muitos outros alvos” e prometeu ataques “muito mais devastadores”. Esse tom teatral reforça a sua personalidade de “winner”, o comandante‑em‑chefe que atravessa crises internas nos Estados Unidos, apelando aos “grandes patriotas” e elogiando generais. Toda uma coreografia pensada para reforçar a sua autoridade moral e simbólica.
Curiosamente, a escolha por não declarar oficialmente um estado de guerra, limitando a ação a um “ataque pontual”, pretende fazer esquecer ao espectador que este foi o primeiro ataque direto ao Irão desde 1979. Uma decisão que equilibra poder militar e narrativa política.
E agora? A comunicação é uma aliada crucial da ação militar. Pelo que devemos estar atentos.
O regime iraniano reagirá com um discurso de invencibilidade, atribuindo as destruições a “conspirações ocidentais” e realçando a destruição de Israel como meta revolucionária.
Israel, por seu turno, poderá manter um silêncio estratégico, cedendo o protagonismo a Trump, que procura recuperar o centro de palco depois de semanas em que foi relegado para segundo plano.
Para os EUA, esta ofensiva, que rompe um tabu político e militar de quatro décadas, inaugura uma nova era na postura americana no Médio Oriente. A linguagem performativa de Trump ganha agora um papel central.
Há mais do que uma operação militar em curso, está em marcha a construção mediática de um discurso que mistura Deus, patriotismo e poderio bélico. As próximas semanas dirão se esse binómio retórico se mantém robusto ou se a retórica se estilhaça perante a realidade das sanções, da diplomacia e da retaliação iraniana.