A Europa que os EUA querem não existe. Rubio veio a Munique vender uma "ilusão" para tentar curar as "feridas"

16 fev, 22:00
Marco Rubio (Getty)

Se há um ano JD Vance foi "um grosseirão", nesta 62.ª Conferência de Segurança de Munique Marco Rubio foi "educado" e teve uma "forma muito mais afável". O problema é que "não veio dizer nada muito diferente do que tem dito Trump" e a "agenda está toda lá". Em suma, os EUA continuam a "contar com a Europa, mas com a Europa que a América gostaria que a Europa fosse"

O discurso de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, foi o pináculo da 62.ª Conferência de Segurança em Munique. Depois do discurso de JD Vance do ano passado, o mundo parou, mais uma vez, para ouvir as palavras que outro responsável da administração Trump ia dirigir à Europa. O discurso tem merecido elogios do lado dos norte-americanos, mas o que acharam os europeus? Esta é a visão da Europa sobre o que foi dito e cinco das citações que mais ecoaram no discurso de Rubio.

Para ler a tradução integral do discurso de Marco Rubio para português clique aqui.

GLOBALIZAÇÃO: "Nesta ilusão, abraçámos uma visão dogmática do comércio livre e sem restrições, mesmo quando algumas nações protegiam as suas economias e subsidiavam as suas empresas para sistematicamente prejudicar as nossas - fechando as nossas fábricas, resultando na desindustrialização de grande parte das nossas sociedades, transferindo milhões de empregos da classe trabalhadora e média para o estrangeiro e entregando o controlo das nossas cadeias de abastecimento críticas a adversários e rivais”, Marco Rubio, na 62.ª Conferência de Segurança de Munique.

Nos EUA, esta segunda-feira, a CNN Internacional escreve que "os estragos causados por Trump já estão feitos" e agora cabe ao partido Democrata e à Europa definir o que vem a seguir a 2028. Na Europa, as palavras de Rubio ecoaram menos como um confronto entre Republicanos e Democratas e mais como o futuro das relações transatlânticas, da união do Ocidente e viabilidade da NATO.

Depois do ralhete de JD Vance aos europeus há um ano, por Bruxelas não sucumbir aos caprichos de Trump; os analistas ouvidos pela CNN Portugal dizem que este foi o tempo para a educação e eloquência de Rubio, que é "muito melhor diplomata" do que Trump ou JD Vance. Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, reconhece a "forma muito mais afável" do secretário de Estado dos EUA, mas lembra que Marco Rubio "não veio dizer nada muito diferente do que tem dito Trump, que não gosta da UE e não quer a UE".

"Não há nenhum regresso à base [na relação transatlântica], há uma ilusão de um regresso à base", alerta Diana Soller.

O número três de Trump ressalvou que os elos entre europeus e norte-americanos foram a "aliança que salvou e mudou o mundo" na II Guerra Mundial e, mais tarde, que voltaram a poupar o globo "à beira da destruição nuclear" durante a crise dos mísseis de Cuba em plena Guerra Fria. "Juntos, a Europa e os EUA prevaleceram", exclamou Rubio, naquele que aos primeiros minutos parecia ser um novo tipo de narrativa norte-americana, mas depois vieram "os erros que cometemos juntos" - entenda-se Bruxelas e os Democratas - , porque "a ideia de um mundo sem fronteira, em que toda a gente é um cidadão do mundo, é uma ideia disparatada", porque "um futuro de soberanias orgulhosas é vital".

"Estamos preparados, se necessário, para fazer isto sozinhos, mas é a nossa preferência e é a nossa esperança que possamos fazer isto juntos com os parceiros europeus", verbalizou Rubio, enaltecendo que Europa e EUA são "parte de uma civilização, a civilização ocidental", e que "estamos ligados uns aos outros pelos laços mais profundos que Estados podem partilhar, forjados por séculos de história partilhada".

Na Europa, as primeiras medições de pulso às reações ao discurso do representante dos EUA em Munique surgiram na imprensa. A BBC, do Reino Unido, descreveu o discurso como uma amostra de que "as relações entre os EUA e a Europa estão feridas mas continuam amistosas"; em Espanha, o El Mundo escreve que "Marco Rubio estendeu a mão à Europa, mas deixou claro que os EUA redefinirão a ordem internacional"; e, em França, destaca-se que "Estados Unidos e Europa estão 'destinados a estar juntos'", além das diferenças para com o discurso de JD Vance.

Marco Rubio antes de abandonar solo alemão, no domingo (Getty)

PROTECIONISMO: "A desindustrialização não foi inevitável. Foi uma escolha política consciente, um empreendimento económico de décadas que despojou as nossas nações da sua riqueza, da sua capacidade produtiva e da sua independência.  E a perda da soberania da nossa cadeia de abastecimento não foi resultado de um sistema próspero e saudável de comércio global. Foi uma transformação tola, mas voluntária, da nossa economia, que nos deixou dependentes de outros para as nossas necessidades e perigosamente vulneráveis a crises”, Marco Rubio, na 62.ª Conferência de Segurança de Munique.

JD Vance, o "grosseirão". Marco Rubio, o "educado". A mensagem pode ter sido a mesma

Azeredo Lopes, especialista em Relações Internacionais, é rigoroso a descrever aquilo a que considera que o mundo assistiu: "JD Vance foi um grosseirão e Rubio foi educado, ou seja, exprimiu as suas ideias sem precisar de nos insultar". O comentador da CNN Portugal e antigo ministro português destaca, no entanto, que existem dois cenários possíveis perante o que ouvimos: ou os EUA "aprenderam a lição", ou é aqui que se findam as diferenças em os dois discursos.

"Há aqui uma clarificação que é muito interessante na intervenção de Rubio, porque já não se trata apenas de insistir nas questões ligadas ao investimento em Defesa, à ingratidão europeia para com os EUA, há aqui também uma definição agora daquilo que pode ser 'ir com os EUA' e para estarmos com os EUA, aquilo que nos é dito, de forma que não admite réplica, é que nós temos de mudar as nossas sociedades para sermos como o modelo de sociedade defendido, por exemplo, por Donald Trump, JD Vance e o senhor Rubio", detalha Azeredo Lopes.

O especialista detalha que este modelo de sociedade que os norte-americanos idealizam para a Europa já "está muito bem descrito" e pode ser visto em funcionamento porque é o "tipo de modelo de Órban e Fico". "Um modelo autoritário ou putativamente autoritário e é sobretudo um modelo - esta parte é que tem sido pouco destacada - em que o que é crucial para os EUA é não permitirem que a União Europeia se transforme numa realidade política consistente que depois possa funcionar como uma concorrente para os EUA e, por isso, os suspeitos do costume - ao contrário do filme em que ninguém soube até ao fim quem eram os suspeitos do costume - aqui sabemos desde o início quem são", diz, nomeando Georgia Meloni, que foi "claríssima a dizer que se afastava daquilo que tinha sido afirmado por Merz e assumiu uma visão muito próxima da defendida pelos EUA".

Especificando o caso Meloni, Azeredo Lopes realça que "nem de propósito", a primeira-ministra italiana está prestes a publicar um livro de memórias em inglês. Obra essa que se inicia com "uma citação logo de Rubio e com um prefácio escrito por JD Vance". Dito isto, Azeredo Lopes também escolhe culminar o seu ponto de vista na língua franca: "I rest my case".

Marco Rubio encontrou-se com Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia, no domingo, e com Viktor Órban, primeiro-ministro da Hungria, esta segunda-feira (Getty)

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: “Para apaziguar um culto climático, impusemos a nós próprios políticas energéticas que estão a empobrecer o nosso povo, mesmo enquanto os nossos concorrentes exploram petróleo, carvão, gás natural e tudo o mais — não apenas para alimentar as suas economias, mas para usar como vantagem contra a nossa”, Marco Rubio, na 62.ª Conferência de Segurança de Munique.

Manuel Serrano, especialista em Assuntos Europeus, concorda e tem a mesma visão de Azeredo Lopes: "Marco Rubio foi apenas mais educado do que JD Vance, mas a agenda está toda lá". Numa análise, mais detalhada o também comentador da CNN Portugal refere que, no quadro geoestratégico, os "EUA já decidiram o que é que querem e o que é que não querem". O problema é que "nós [europeus] sabemos o que é que somos e eles [norte-americanos] querem que sejamos outra coisa", explica Manuel Serrano, acrescentando que a ideia norte-americana para a Europa passa por criar uma "união de Eslováquias e Hungrias que responda à agenda dos EUA e sejamos basicamente vassalos".

"Importante é o que podemos fazer", explica o especialista, que se confessa desconfortável com uma aparente bipolaridade europeia que, por um lado, propagandeia através dos seus líderes uma mensagem de independência energética e capacidade de Defesa e, por outro, vai a Munique fazer ovações de pé. "Choca que, de repente, vamos acreditar nas palavras do presidente dos EUA, de Marco Rubio e de JD Vance". E para Manuel Serrano este é o principal ponto, porque "o problema é exatamente que queremos acreditar", mesmo que à partida tenhamos a suspeita ao que vamos.

"A cooperação reforçada para funcionar tem de ter uma base mínima para funcionar e se essa base começar a ser muito dividida corre o risco de não funcionar de todo. Temos muitas frentes abertas e para responder precisamos de tomar decisões. Arrisco-me a dizer, contrariando o que Friedrich Merz disse, que não foi a Europa que foi de férias, foram muitos líderes europeus que foram de férias", ironiza Manuel Serrano.

Marco Rubio encontrou-se com Friedrich Merz, chanceler alemão, na sexta-feira, véspera do discurso do Secretário de Estado dos EUA na 62.ª Conferência de Segurança da Munique (Getty)

IMIGRAÇÃO: “A migração em massa não é, não foi e não é uma preocupação marginal de pouca importância. Foi e continua a ser uma crise que está a transformar e a desestabilizar sociedades em todo o Ocidente. (...) E, na busca por um mundo sem fronteiras, abrimos as nossas portas a uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão das nossas sociedades, a continuidade da nossa cultura e o futuro do nosso povo", Marco Rubio, na 62.ª Conferência de Segurança de Munique.

A visão do major-general Agostinho também está de acordo com as anteriores: "A Conferência de Segurança de Munique peca por ser um conjunto de lugares comuns e por nos deixar completamente perplexos com um conjunto de declarações". O especialista militar da CNN Portugal entende que o discurso de Marco Rubio foi "um pouco diferente do ano passado". "Foi menos assertivo nas palavras do que JD Vance que insultou a audiência como nos recordamos, mas insultou a audiências nos atos", explica Agostinho Costa, destacando que o secretário de Estado dos EUA "faltou a uma reunião" com a liderança europeia.

"Irritou bastante os europeus, a pretexto da sua agenda pessoal", diz Agostinho Costa, lembrando que, ao fim de um ano, Kaja Kallas ainda não conseguiu ter uma reunião com o congénere norte-americano. O major-general, que conta com missões da NATO no currículo, olha para tudo o que se passou no passado sábado como "mais do mesmo": "Estes senhores e estas senhoras odeiam-se mutuamente e querem nos impor uma narrativa que sinceramente os cidadãos europeus não compram".

Para Sónia Sénica, a decisão de enviar Marco Rubio a Munique foi uma "forma ardilosa da diplomacia norte-americana" escolhida por Washington para, através "do seu mais mais alto representante da pasta", tentar "acalmar aquilo que é uma tensão que claramente está a minar o eixo Euro-Atlântico". 

A especialista em Relações Internacionais acredita que a geopolítica está hoje muito perto do ponto que a Rússia sempre ambicionou: "O Ocidente versus o Ocidente". Sónia Sénica crê ainda que só aqui chegámos porque "a posição clara de que os EUA são fiéis apoiantes, aliados e ainda parceiros tradicionalmente e historicamente dos europeus" é algo que lentamente "está a ser destruído". E para quem pense que esta é uma teoria sem fundamento, Sónia Sénica pede que se repare num detalhe da Conferência de Segurança deste ano: "Tivemos muitas mensagens a ser vertidas por parte de lideranças europeias e, desta vez, não foram direcionadas para Moscovo e para Putin, mas para Washington e para Trump".

Marco Rubio nunca usou a expressão "União Europeia" para se referir aos aliados europeus (Gettty)

A GRANDE CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL: “Só se não pedirmos desculpa pela nossa herança e nos orgulharmos dessa herança comum é que poderemos, juntos, começar o trabalho de imaginar e moldar o nosso futuro económico e político. (...) “E é por isso que não queremos que os nossos aliados sejam fracos, porque isso nos torna mais fracos. Queremos aliados que possam defender-se, para que nenhum adversário se sinta tentado a testar a nossa força coletiva. É por isso que não queremos que os nossos aliados sejam acorrentados pela culpa e pela vergonha.  Queremos aliados que tenham orgulho da sua cultura e do seu património, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização e que, juntamente connosco, estejam dispostos e sejam capazes de a defender”, Marco Rubio, na 62.ª Conferência de Segurança de Munique.

Dos cinco especialistas ouvidos pela CNN Portugal, há apenas uma voz contrastante. O tenente-general Rafael Martins considera demasiado redutor interpretar-se as palavras de Marco Rubio somente como "um puxão de orelhas à Europa". O especialista militar acredita que o mundo assistiu a um "emendar de mão". "Rubio disse várias vezes que a ligação transatlântica é para fortalecer e manter" e isso, por si só, trouxe "conforto à maior parte da audiência que estava presente na conferência e traz conforto à Europa enquanto não se robustece em termos militares", destaca.

Rafael Martins define, no entanto, que esta janela temporal que poderá permitir o rearmamento europeu também não deve ser vista como um "colinho para a Europa". "Temos de de ir atrás e interpretar o discurso de Merz, Macron e Von der Leyen, neste momento, a Europa de forma muito mais afirmativa e comprometida está com a sua própria Defesa apesar de poder contar com os EUA", destaca o tenente-general, recordando que essa foi uma das primeiras exigências de Trump a Bruxelas. Para o tenente-general, esta foi "uma conferência riquíssima naquilo que são os diagnósticos não só da Europa, não só dos EUA, mas da situação mundial e para onde iremos nos próximos anos ou décadas".

Contudo, há mais um detalhe que pode não ter saltado à vista e que pode ter um significar maior. "Rubio não disse uma única vez a expressão 'União Europeia', disse sempre Europa, civilização ocidental, países europeus", identifica Diana Soller. O facto exposto pela comentadora da CNN Portugal pode ser comprovado com uma pesquisa rápida pela transcrição na íntegra do discurso (que pode ler aqui).

Deste facto, Diana Soller retira uma conclusão: "A ideia de civilização ocidental dos EUA conta com a Europa que a América gostaria que a Europa fosse". "Marco Rubio veio fazer à Europa foi dizer que os EUA querem uma nova relação transatlântica, querem um século de prosperidade e querem que a Europa faça parte, no entanto, a Europa que querem que faça parte não é a Europa que temos hoje; é uma Europa da soberania, das nações, da fé cristã, e da civilização; não é uma Europa democrática nem liberal", culmina a especialista em Relações Internacionais.

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