Trump fez ironia sobre Espanha e depois ameaçou-a. Espanha não se encolheu mas Sánchez acabou gozado

25 jun, 18:51
Trump Pedro Sanchez

Há polémica na NATO: numa cimeira que era para ser de unidade, foi a quase marginalização de Espanha que tomou conta da agenda. De tal forma que em países europeus já se goza com Espanha

Não se sabe o que aconteceu lá dentro, mas cá fora é mais fácil de explicar: há celeuma valente entre Donald Trump e Espanha, o país da NATO que menos investe em Defesa e que conseguiu um acordo bilateral para não ter de cumprir os 5% que a Aliança Atlântica quer impor a todos os membros, numa quase ordem vinda da Casa Branca.

Depois de ter afirmado que Espanha era um “problema” dentro da organização, Donald Trump foi esta quarta-feira mais longe: “Espanha é terrível. Quer ficar-se pelos 2%. Creio que é terrível". E depois fez esta ironia: "Como sabem, está a correr-lhes muito bem. A economia está muito bem”.

Depois fez uma ameaça em forma de tarifas: “Essa economia pode afundar-se por completo se algo de errado acontecer. Estamos a negociar um acordo comercial com Espanha e vou fazê-los pagar o dobro”, reiterou o presidente norte-americano, depois de questionado sobre a posição de Pedro Sánchez, que já deixou claro que Espanha não vai passar dos 2,1% - um valor “suficiente, realista e compatível”, segundo o primeiro-ministro espanhol.

Trump de novo: “Digo-o a sério. Gosto de Espanha. Conheço muita gente em Espanha. É um grande lugar e são grandes pessoas. Mas Espanha é o único país que se nega a pagar”, concluiu, vendo uma “injustiça” para os outros Estados-membros que se comprometeram a fazer o esforço.

E se havia dúvidas sobre se aquilo a que muitos já estão a chamar “irritante” numa cimeira que era suposto ser de unidade, um dos secretários de Estado norte-americanos veio esclarecer que são os Estados Unidos como um todo a ver este “problema”.

“É um grande problema. Eles alegam que podem fazê-lo com menos, mas Espanha enfrenta profundos desafios políticos internos”, referiu Marco Rubio ao Politico, lembrando a eterna instabilidade do governo de Pedro Sánchez, que, de quando em vez, tem de fazer um pino parlamentar para se manter vivo.

“Têm um governo de centro-esquerda que basicamente quer gastar muito pouco ou nada em Defesa”, acrescentou o líder da diplomacia norte-americana, deixando no ar uma crítica ideológica à liderança do Palácio da Moncloa.

Mas que não se pense que é apenas do lado de lá que vêm as críticas. Por cá, Luís Montenegro não tem sido muito pressionado sobre o assunto, mas há quem na Europa se preocupe e até ironize com a posição espanhola.

Depois de ter conseguido aprovar uma perspetiva de orçamento militar que coloca a Bélgica no mesmo caminho de Portugal - atingir os 3,5% em 10 anos -, o primeiro-ministro belga veio a público disparar contra Espanha.

Bart De Wever quer garantir que “não há tratamento especial” na NATO, pelo que todos, mas mesmo todos, devem ir a caminho dos 5%, já que os 2,1% apontados por Pedro Sánchez não chegam.

“Os estrategas da NATO calcularam os gastos e consideram que, com os preços atuais, precisamos de 3,5% para conseguir [o objetivo]. Suponho que esta gente não é tonta, sabem o que custa e consideram que é preciso 3,5%. Seria genial fazê-lo com 2,1% - se Pedro Sánchez puder fazê-lo, seria um génio e a genialidade inspira-nos”, ironizou o primeiro-ministro belga.

Sem usar tanto da ironia, o vice-presidente do governo de Itália quis deixar claro que "Espanha tem de respeitar as normas" que vão sair de Haia. E isso significa chegar aos 5% aprovados na cimeira. "Todos devem respeitar as normas, mas foram apresentados critérios de flexibilidade razoáveis", disse Antonio Tajani, abrindo um pouco a porta à razão espanhola.

No meio do furacão está o secretário-geral da NATO, que até já foi apelidado “vassalo” de Donald Trump por um jornalista espanhol durante esta mesma cimeira.

Tentando sempre agradar aos Estados Unidos, Mark Rutte garantiu que existe um plano concreto a sair de Haia para que os aliados se comprometam com o que ficou acordado.

“Podemos concordar em discordar, que eles acreditam que podem chegar aos objetivos com 2,1% da despesa. A NATO disse que tem de ser 3,5% para todos os aliados”, frisou na sua conferência de imprensa final.

A guerra interna segue dentro de momentos.

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