Porque a Ucrânia "capitulará" se perder "as simples antenas" de Elon Musk (que fez "uma jogada genial, tipo Twitter")

18 out, 18:00
Elon Musk é pai novamente (John Raoux/ AP)

Primeiro disponibilizou o Starlink, depois ameaçou retirar a gratuitidade e, logo de seguida, voltou atrás: o multimilionário Elon Musk sabe a influência que tem na Ucrânia e "fez uma jogada genial". Que é uma jogada muito sensível tratando-se de guerra - sobretudo desta guerra em que o Starlink de Musk faz mesmo (mas mesmo) a diferença no campo de batalha

A União Europeia está a considerar se deve contribuir com financiamento para garantir que os ucranianos mantenham o acesso ao serviço vital da Starlink, atualmente disponibilizado por Elon Musk. Apesar da proposta ainda estar numa fase inicial, a discussão surge numa altura em que o magnata da tecnologia avisou que a sua agência espacial - a SpaceX - não pode continuar a pagar indefinidamente para os ucranianos terem acesso ao serviço de internet Starlink - e, segundo o site Politico, Elon Musk terá mesmo sugerido que seja o governo norte-americano a pagar a conta. 

Aquele que é também o homem mais rico do mundo acabou por mudar de ideias e garantiu que continuará a financiar o serviço. Mas o susto levantou preocupações sobre a segurança do acesso contínuo da Ucrânia a um sistema de telecomunicações crucial que desempenhou um papel vital nas suas contraofensivas. Afinal de contas, esta rede de internet gratuita que a Ucrânia tem espalhada por todo o território é o que tem permitido que a população consiga continuar a relatar e a mostrar imagens ao mundo e ao exército sobre o que se passa no terreno. E foi assim, aliás, que os ucranianos conseguiram "combater a maior parte das colunas de blindados russos" nos primeiros seis meses de guerra.

Ao Politico, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Gabrielius Landsbergis, sugeriu que o acesso à internet da Ucrânia não deveria ser deixado nas mãos de uma única pessoa "superpoderosa" que poderia "acordar um dia e dizer 'isto não é mais o que eu quero fazer e pronto' e no dia seguinte os ucranianos podem ficar sem internet".

Sem Starlink, capitulação

 

Mas e se Elon Musk decidir mudar de ideias? Ora, no fundo, "tirar a internet à Ucrânia vai enviá-la para o nível da Rússia e, automaticamente, anulá-la", afirma o especialista em cibersegurança e telecomunicações Nuno Mateus-Coelho. Isto porque, afirma, a Ucrânia é altamente dependente deste recurso e não lhe restam alternativas. "Neste momento, a grande vantagem que existe dos ucranianos sobre os russos é que são um ciberexército", sublinha Nuno Mateus-Coelho, numa posição também partilhada pelo major-general Agostinho Costa, que acrescenta que "o Starlink tem uma utilização operacional que permite à Ucrânia digitalizar a guerra".

Imaginemos um cenário de guerra em que as tropas ucranianas estão no meio do campo e querem ativar um drone para atacar um carro armado e poder comunicar com recurso à informática - nomeadamente uma transmissão ao vivo das imagens. "Sem o Starlink isto não é possível", explica o Nuno Mateus-Coelho, justificando que a maior parte do território ucraniano perdeu infraestrutura de rede 4G. "Quando as forças ucranianas se dirigem ao Donbass, não havendo rede móvel, não conseguem teleguiar esse equipamento. Paralelamente, também não conseguem fazer telechamadas nem ter sigilo nas comunicações."

Placa recetora da Starlink instalada em Odessa (Getty Images)

O Starlink vem possibilitar rede segura em todo o território. E, em cima desse recurso, está assente toda a estrutura de guerra da Ucrânia - "até a forma como o governo ucraniano comunica", explica Nuno-Mateus Coelho, que deixa uma reflexão: "Como é que uma simples antena consegue controlar a luz, a água, e os exércitos... Tirar o Starlink à Ucrânia é capitulação. Não há alternativa."

E é aqui que entra o Ocidente. Deve a UE suportar os custos do Starlink? Na verdade, trata-se de uma empresa norte-americana, da qual um cidadão norte-americano é proprietário. "O sistema de comunicações Starlink permite sobretudo uma superioridade no plano informacional à Ucrânia que representa um game changer de que não pode prescindir - nem o Ocidente permitirá que deixe de ter acesso", afirma o major-general Agostinho Costa. 

O major-general relembra que os Estados Unidos estão a apoiar a Ucrânia não só com a rede de satélites Starlink mas também com o sistema JSTARS - que permite vigiar o campo de batalha e ter uma correta perceção do teatro de operações. "Isso vai desde o comando operacional ao tático. Sabem como, quando e onde atacar." De tal forma que, aquando da contraofensiva em Kharkiv, foram vistos um conjunto de raios laser apontados para o céu.

"Quando foi a conquista de Lyman houve indicações de um certo mal-estar no exército ucraniano, que reportou falhas no sistema Starlink", refere o major-general, apontando que, "no meio disto, Elon Musk surge como uma espécie de príncipe da paz e sugeriu que houvesse eleições no Donbass". 

Primeiro disponibilizou o Starlink, depois ameaçou retirar a gratuitidade e, logo de seguida, voltou atrás. "Elon Musk faz uma jogada genial, estilo Twitter", considera Nuno Mateus-Coelho, "mas na verdade quer é que lhe paguem". E estamos a falar de múltiplos milhões de dólares.

Já o major-general Agostinho Costa frisa que "temos de perceber o que vai além da mensagem": a SpaceX investiu cerca de 80 milhões de dólares para assegurar comunicações de banda larga às forças armadas da Ucrânia - custos que, segundo Elon Musk, podem ascender aos 400 milhões até ao final do próximo ano. "Isto é uma pressão sobre o governo norte-americano. O problema de Elon Musk é que, sendo o sistema alvo de ataques russos, quem paga o prejuízo?"

 

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