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"Os robôs não sangram": Ucrânia explica como obrigou russos a renderem-se e travou um avanço durante 45 dias sem a presença de qualquer humano

CNN , Ivana Kottasová​​​​​​​, Daria Tarasova-Markina e Victoria Butenko
20 abr, 10:41
Um soldado ucraniano observa operações de teste de drones terrestres num campo de treino a 10 de abril de 2026 (Dmytro Smolienko/Ukrinform/NurPhoto/Getty Images)

A Rússia tem mais soldados e a Ucrânia sabe-o, pelo que a chave da guerra terá sempre de passar por algo mais. E é isso mesmo que está a acontecer

A cena é tão antiga como a própria guerra. Dois soldados, mãos no ar, rendem-se e seguem cuidadosamente as ordens gritadas pelo inimigo.

Só que, neste caso, não havia nenhum capturador humano à vista. Em vez disso, os dois russos estavam a render-se a robôs terrestres e drones ucranianos controlados por um piloto a partir da segurança de uma posição a quilómetros de distância da linha da frente.

Este é o futuro da guerra - e está a acontecer agora.

“A posição foi tomada sem que um único tiro fosse disparado”, garante Mykola “Makar” Zinkevych, comandante da unidade ucraniana que realizou a missão, à CNN.

Zinkevych, que serve na unidade “NC13” da Terceira Brigada de Assalto Separada da Ucrânia, responsável pelos sistemas de ataque robótico terrestre, afirma que a operação do verão passado foi a primeira vez na história que uma posição inimiga foi invadida e prisioneiros foram capturados por robôs terrestres e drones sem o envolvimento da infantaria. É uma afirmação difícil de corroborar, mas que sublinha o orgulho de Kiev na sua tecnologia.

Desde então, as missões em que os robôs substituem os soldados humanos tornaram-se a rotina diária da unidade.

Os céus acima das linhas da frente na Ucrânia estão repletos de drones há anos, representando uma séria ameaça para a infantaria. Como resultado, os ucranianos começaram a fazer experiências com drones terrestres - veículos controlados remotamente que se deslocam sobre rodas ou lagartas - e sistemas robóticos terrestres. Inicialmente, eram utilizados ​​principalmente para retirar feridos e reabastecer as tropas, mas, cada vez mais, também para realizar missões de assalto em combate.

Os drones terrestres são muito mais difíceis de detetar e intercetar do que os veículos militares de maiores dimensões. Comparativamente com os seus equivalentes aéreos, podem operar em todas as condições meteorológicas e transportar cargas muito maiores.

São também mais resistentes e têm uma vida útil de bateria muito maior. No final do ano passado, o Terceiro Corpo de Exército, do qual faz parte a Terceira Brigada de Assalto Separada, afirmou que um único robô terrestre equipado com uma metralhadora conseguiu conter um avanço russo durante 45 dias, necessitando apenas de manutenção ligeira e recarga da bateria a cada dois dias.

“Precisamos de compreender que nunca teremos mais pessoal e nunca teremos uma vantagem numérica sobre o inimigo”, explica Zinkevych, destacando a força militar muito maior da Rússia. “Portanto, precisamos de alcançar essa vantagem através da tecnologia.”

O objetivo atual, segundo o próprio, é substituir um terço da infantaria por drones e robôs ainda este ano.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que os drones e os robôs realizaram mais de 22 mil missões só nos últimos três meses. “Mais de 22 mil vidas foram salvas quando um robô entrou nas áreas mais perigosas em vez de um soldado”, disse Zelensky num discurso que destacou os sucessos da indústria de tecnologia militar da Ucrânia.

Robert Tollast, especialista em guerra terrestre do Royal United Services Institute, um think tank britânico de defesa e segurança, afirma que os novos avanços na Ucrânia “alimentarão um debate aceso sobre se estes robôs são ou não o futuro da guerra”.

Acrescenta que é provável que os drones terrestres tenham dificuldades em manter território, comparando-os com o uso de tanques sem apoio de infantaria. Mas agora estão “regularmente a salvar vidas de soldados na retirada de feridos, missões perigosas de reabastecimento, desminagem e, cada vez mais, em combate”, aponta.

“Isto é crucial numa guerra onde a observação aérea por drones tornou o movimento perto da linha da frente quase fatal… Mesmo imaginando um futuro onde a NATO não combata exatamente como a Ucrânia, é quase certo que estes sistemas encontrarão muitas aplicações noutras forças”, reforça Robert Tollast.

Superioridade dos drones

Mais de quatro anos de guerra forçaram a Ucrânia a tornar-se líder global em drones e sistemas robotizados para o campo de batalha. Mas a procura pela supremacia nesta área foi impulsionada com a nomeação de Mykhailo Fedorov como ministro da Defesa da Ucrânia, em janeiro.

Fedorov foi anteriormente ministro da Transformação Digital, cargo no qual supervisionou o bem-sucedido projeto ucraniano de guerra com drones. Depois de assumir a pasta da Defesa, Fedorov apresentou aquilo a que o ministério chamou um plano de guerra, um projeto de como a Ucrânia pretende "forçar a Rússia à paz".

A estratégia está fortemente focada na tecnologia e nos dados, com centenas de empresas a participar em dezenas de iniciativas governamentais de desenvolvimento e produção de drones.

Fedorov afirmou já este domingo que deseja que os sistemas robóticos terrestres acabem por lidar com a logística na linha da frente na sua totalidade.

O plano de guerra centra-se tanto na defesa como no ataque. O objetivo é utilizar dados e tecnologia para identificar todas as ameaças aéreas em tempo real e intercetar pelo menos 95% dos mísseis e drones, além de criar uma “zona de destruição” de 15 a 20 quilómetros de profundidade ao longo da linha da frente, onde drones e robôs operam ininterruptamente. O Ministério da Defesa afirmou na semana passada que cerca de mil equipas já estavam a operar no âmbito deste novo programa unificado.

Zinkevych, comandante ucraniano de robótica terrestre, diz que a capacidade de expansão é fundamental. A Rússia está atrás na corrida, mas também está a avançar, garante. “No campo de batalha, o fator decisivo não é quem inventou a tecnologia e descobriu como aplicá-la, mas sim quem conseguiu expandi-la a longo prazo.”

Os mais recentes avanços tecnológicos deram à Ucrânia uma clara vantagem nos drones no campo de batalha, dizem os analistas. O Instituto para o Estudo da Guerra, um monitor de conflitos sediado nos EUA, avaliou recentemente que esta superioridade nos drones “está provavelmente a contribuir para a estagnação dos avanços russos e dos recentes contra-ataques ucranianos”.

“Embora nenhum dos lados tenha conseguido obter uma vantagem decisiva, a campanha de ataques de médio alcance da Ucrânia permitiu a Kiev recuperar a vantagem”, escreveram os analistas numa nota, acrescentando que “o desafio agora para a Ucrânia será manter-se um passo à frente enquanto a Rússia responde”.

Conhecimento por mísseis

Embora a vantagem no campo de batalha baseada em drones possa não ser decisiva para a guerra, a clara liderança de Kiev na guerra com drones está agora a receber mais atenção fora da Europa.

Exemplo disso é o Médio Oriente, onde vários países que investiram grandes somas de dinheiro no desenvolvimento das suas capacidades militares convencionais se viram, inesperadamente, a utilizar mísseis de quatro milhões de dólares para abater um drone que custou 50 mil dólares a fabricar, desde o início do conflito com o Irão.

Os próprios recursos limitados da Ucrânia obrigaram-na a desenvolver formas mais baratas e muito mais eficientes de combater os drones. Aliados antes relutantes estão agora a ouvir.

Zelensky viajou pessoalmente para o Médio Oriente, visitando a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos, antes de seguir para a Turquia e a Síria, oferecendo-se para partilhar parte da experiência conquistada com muito esforço pela Ucrânia em troca de apoio. Kiev tem muito para oferecer aos países do Golfo, que, por sua vez, possuem recursos de que a Ucrânia necessita desesperadamente - como mísseis para defesa antiaérea. Zelensky assinou ainda uma série de novos acordos com vários países europeus.

A próxima grande novidade para a Ucrânia - e para qualquer força militar no mundo - é, sem dúvida, a IA (Inteligência Artificial). A Ucrânia está a avançar no desenvolvimento e treino de modelos de IA para sistemas não tripulados, utilizando dados reais do campo de batalha.

Mas muitos ainda se mostram cautelosos quanto à utilização de IA em drones terrestres. Zinkevych afirma que, embora veja alguns processos a serem automatizados, não tem a certeza se as tecnologias totalmente autónomas têm lugar no campo de batalha.

“A decisão final deve ser sempre tomada por um ser humano”, frisa. “Confiaria armas à Inteligência Artificial? Como podemos ter a certeza de que será capaz de distinguir um amigo de um inimigo? Como podemos ter a certeza de que não haverá avarias ou que nada correrá mal?”

Ainda assim, enquanto ex-membro da infantaria e comandante de grupos de assalto, agora responsável pelos robôs, Zinkevych fica constantemente impressionado com os avanços tecnológicos que testemunhou nos últimos quatro anos.

“Se me ouvisse a falar assim em 2022, diria que era um louco... Era tudo ficção científica”, completa.

Mas agora está totalmente convencido. “A vida humana não tem preço, enquanto os robôs não sangram. Com base nisto, defendo que os sistemas robóticos terrestres precisam de ser desenvolvidos muito mais rapidamente, a uma escala muito maior e implementados como um sistema global para utilização no campo de batalha”.

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