Lavrov diz que "Rússia não atacará outros países, tal como não atacou a Ucrânia": quão ameaçado deve o Ocidente sentir-se com esta declaração?

11 mar, 08:00
Sergey Lavrov (Associated Press)

Declaração do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, pode ser entendida como "desinformação para justificar o que é injustificável". Mas também pode significar algo mais - e mais perigoso. Embaixadores e um ex-ministro da Defesa de Portugal ouvidos pela CNN fazem a análise

Foi o primeiro encontro entre ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e da Rússia desde o início da guerra: decorreu esta quinta-feira na Turquia e não resultou em qualquer desenvolvimento diplomático, mas uma frase dita pelo ministro russo Serguei Lavrov no final da cimeira ficou a pairar: “Não estamos a planear atacar outros países. Também não atacámos a Ucrânia”. Mas como olham os países vizinhos da Federação Russa para estas palavras?

“É óbvio que os países vizinhos interpretam essas declarações como uma ameaça”, considera o embaixador Martins da Cruz, que reforça que as palavras de Lavrov vão no sentido de reforçar a narrativa do Kremlin de que nunca houve um ataque à Ucrânia, apenas “a defesa dos dois pseudo-Estados que proclamaram a independência. No entanto, o embaixador divide os países vizinhos da Rússia em dois: os que pertencem à NATO e os que não pertencem, como a Moldova ou a Geórgia. “Os que são da NATO sentem-se, apesar de tudo, protegidos. Já os países que não são da NATO pensarão que, se um dia virem entrar as tropas russas, Moscovo vai dizer que não se trata de um ataque, mas sim de uma operação de defesa de minorias”.

Para o embaixador António Monteiro, estas declarações não constituem uma ameaça ao Ocidente, mas sim uma continuação da narrativa de Moscovo desde o início da invasão da Ucrânia – de que isto não é um ataque. “Não creio que seja uma ameaça. O que me parece que está a dizer é que não se trata de uma invasão, mas de uma entrada militar para proteger os interesses russos na Ucrânia. É desinformação para justificar o que é injustificável”, explicou. Estas declarações podem ser interpretadas também como “uma maneira de tranquilizar” os restantes países, sobretudo a ONU, acrescenta o também antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. Ou seja, “estão a dizer que esta ação é limitada à Ucrânia e que não atacarão mais nada”. Mas, para o diplomata, estas declarações não passam de “manobras para disfarçar uma guerra, uma invasão absolutamente injustificada”.

Para o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, a questão trata-se de “um finca-pé da Rússia” acerca da “denominação jurídica desta invasão” que o Kremlin insiste não se tratar de uma guerra. Azeredo Lopes aponta mesmo que o discurso de Lavrov foi muito voltado para defesa dos povos da região do Donbass, que a Rússia diz “serem vítima de genocídio”. “O problema da Rússia é que isto faria algum sentido se fosse rápido e resolvido em dois ou três dias. Quantos mais dias passam, mais a Rússia fica enfiada na lama e mais agressiva fica.”

E, segundo o ex-ministro da Defesa, é neste momento em que o processo se torna mais perigoso. “Estas declarações têm de ser vistas com muito cuidado e nenhum triunfalismo. Zelensky tem dado mais provas de sabedoria do que algumas pessoas neste aspeto. Este é um momento muito delicado: há um país que sabe que está condenado, aí é que é preciso ter algum cuidado e pode tornar-se mais imprevisível.”

Diplomacia de consumo interno

A mensagem de Lavrov no final do encontro com Kuleba foi “seguramente feita para consumo interno”, defende Martins da Cruz, que não exclui que algumas das perguntas feitas por jornalistas russos na conferência de imprensa tenham sido combinadas. No entanto, o embaixador relembra que “os discursos para dentro” não são exclusivos da política russa e que muitos dos principais atores ocidentais estão a preparar-se para ir a eleições.

“Aliás, se nós virmos bem, muitas das intervenções, não só dos russos mas também de americanos e até de europeus, são para dentro, para as opiniões públicas internas. Não se esqueça que na América há eleições intercalares para o congresso e para o senado em novembro. Em França estamos em plena campanha eleitoral e o senhor Macron quer ser eleito já em abril. Na Alemanha, o chanceler Scholz sucedeu a 16 anos de Merkel e tem de se afirmar perante a opinião pública dele. O senhor Boris Johnson tem de fazer esquecer as festas em Downing Street, que quase provocaram a sua queda. Todos estão a fazer discursos para dentro.”

O embaixador acrescenta ainda que a Rússia foi à Turquia com uma intenção clara em mente: “Fazer com que estas negociações não resultassem”. O objetivo da delegação russa, argumenta, era mostrar abertura para a negociação, mas impondo condições de tal forma exigentes que o outro lado não pudesse aceitar. 

Por outro lado, Martins da Cruz acredita que “nós assistimos a alguma predisposição para cedências da Ucrânia” quando disse estar disposta a considerar a situação dos cidadãos ucranianos nas repúblicas do Donbass e da Crimeia. “A Ucrânia está a dar sinais mais fortes do que a Rússia de que está disposta a negociar. O nível de destruição e o número de refugiados da Ucrânia já é de tal maneira grande que o senhor Zelensky tem de pensar muito bem quando é que vai içar a bandeira branca porque senão no futuro pode vir a ser acusado de ser intransigente e de ser um dos que estão a provocar o genocídio do seu povo”, refere. “É óbvio que a última fase deste processo diplomático será feito entre a Rússia e os Estados Unidos. Aliás, acredito que, nesta fase, exista já uma linha direta de diálogo entre russos e americanos.”

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