ENTREVISTA || O pior inimigo da Europa neste momento são os Estados Unidos, e não é apenas pelas alianças com Vladimir Putin. Por isso mesmo, Francisco Louçã pede que se olhe mais para o que fazem países como Espanha
Do lado do Governo já ouvimos interpretações diferentes sobre a dimensão da crise ou a proximidade da crise energética. A ministra da Energia diz que está perto, o ministro da Presidência diz que está longe - disse-o pelo menos no dia de ontem - no seu entender já deveríamos ou não ter decretado, implementado as medidas adicionais?
Há dois discursos no Governo, um discurso que tenta gerir as expectativas políticas e reduzir a pressão, sendo que a realidade é que segunda-feira haverá um novo aumento dos preços dos combustíveis, que vai chegar no gás óleo a cerca de 25% em duas semanas. E, sobretudo, há uma incerteza que promete que pode continuar com a extensão do conflito, sobretudo se o Irão continuar a retaliar sobre estruturas energéticas dos países vizinhos depois de ter sido atacado a sua principal reserva de gás natural. Se isso assim continuar com esta extensão da guerra, então inevitavelmente o preço dos combustíveis continuará a subir.
Mas no dia de hoje os portugueses deviam ou não já ter ouvido as mesmas medidas ou outras semelhantes às que os espanhóis ouviram?
O governo espanhol tem feito sempre muito mais do que o Governo português na resposta à crise da habitação, a anteriores problemas nos mercados internacionais e em particular no mercado energético. Claro que com isso abdica de uma receita fiscal muito significativa, aliás Pedro Sánchez acabou de o dizer, e o Governo português até viu uma nesga de oportunidade em que como os preços sobem, o IVA naturalmente cobra mais com uma percentagem maior sobre a base dos preços.
Está o Governo a ser oportunista em relação a esta crise?
Absolutamente. Aceitou uma pequenina redução sabendo que o total do efeito fiscal ficará aproximadamente igual. O Governo espanhol aceita uma perda muito significativa de receitas fiscais. Mas repare, em qualquer das circunstâncias, haja medidas que possam baixar em 40% como em Espanha, ou em alguns cêntimos como no caso português, depois de ter subido quase 50 cêntimos no caso do gasóleo, essas medidas são parar o vento com as mãos, porque a condição estrutural da crise dos preços energéticos é uma guerra, e continuando a guerra - aliás a guerra da Europa com grande significado desse ponto de vista -, e a guerra no Médio Oriente, no Golfo, haverá sempre um arrastamento destes preços.
Mas de qualquer das formas, porventura em Espanha as famílias sentirão menos do que em Portugal… Pelo menos até agora, porque ainda não foram decretadas medidas adicionais
A diferença é muito significativa, entre oito cêntimos e 40% do preço da energia. Agora, a estratégia que seria necessária, há estratégias estruturais: diminuir a dependência do petróleo, permitir que a eletricidade seja essencialmente fornecida a partir do hidroelétrico, ou a partir do solar, a partir do solar descentralizado, enfim, há muitas medidas que poderiam ter sido implementadas. Um país como Portugal, que tem tanto sol, não deveria ter em todos os edifícios que são construídos uma capacidade de captação de energia solar? É natural, é barato, seria muitíssimo eficiente. Isso são medidas estruturais. Agora, há medidas da conjuntura, e desse ponto de vista Portugal pode ter um papel, deveria ter um papel, como a União Europeia, no contexto da União Europeia, para conseguir resolver dois problemas essenciais, que era ter uma fonte energética mais barata, ou seja, terminar a guerra da Ucrânia, com uma paz honrosa que permita satisfazer as condições aceitáveis por ambas as partes, e, portanto, voltar a ter petróleo russo, que é mais barato e gás, que o fornecimento tem vindo a ser interrompido.
Mas, por exemplo, Donald Trump já admitiu, já durante esta guerra no Médio Oriente, permitir a compra de petróleo russo para salvaguardar as próprias famílias. A União Europeia devia feito o mesmo, no seu entender?
Trump tem uma relação muito especial com Putin, tem uma relação de vantagens múltiplas e de grande proximidade. O facto é que, havendo a guerra na Ucrânia, é preciso terminá-la e terminá-la em condições que permitam uma situação de paz estável na Europa.
Ou seja, devíamos estar com uma urgência ainda maior em terminar essa guerra?
Absolutamente. Bom, há muitos anos, há vários anos que devíamos ter feito um sinal por isso, especialmente agora. Especialmente agora.
Vladimir Putin diz que as negociações estão completamente suspensas, precisamente por causa da Médio Oriente…
E aparentemente estão. Claro que para Putin é uma enorme vantagem o subido do preço do petróleo, porque está a obter, em vendas em mercados internacionais a que tem acesso, um valor muito superior àquele que tinha, os 110 ou 120 dólares por barril. Mas há uma outra pressão, ao mesmo tempo, os próprios Estados Unidos têm uma economia cujas empresas beneficiam deste aumento do preço, e aqui há um efeito dúplice. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo, produzem 13 milhões de barris por dia e exportam 11 milhões, depois importam 8 milhões também. Ou seja, as empresas produtoras beneficiam do preço dos mercados internacionais porque lhes vendem 11 milhões de barris por dia e têm uma enorme vantagem desse ponto de vista. Claro que o grande problema é que, aumentando o preço do combustível, isso significa que os norte-americanos, que vão ter eleições em novembro, sentem que a promessa de Trump de que não haveria inflação, ou que domesticaria a inflação, é falsa, e é falsa porque ele próprio está a promover, com Netanyahu, esta guerra no Médio Oriente. Há um efeito político, porque os consumidores sofrem e as empresas beneficiam enormemente, e têm uma importância grande junto da Casa Branca. O que quer dizer que há interesses opostos do ponto de vista da gestão política desta guerra, que parece não se saber como termina, e que pode provocar, aliás, uma extensão de ataques a fontes de reservas energéticas que só terão um efeito tremendo sobre os preços.
Não parecendo que haja qualquer negociação em relação à Ucrânia, que o senhor diz que seria urgente terminar já com esta guerra para darmos ao mercado um fornecimento de petróleo bastante maior, restam-nos estas medidas paliativas?
Isto são tudo medidas de correr atrás do prejuízo, não é, de tentar evitar…
Mas independentemente daquelas que apareçam?
Sim, o que se pode fazer agora é ter medidas inteligentes que permitam promover, enfim, não fazer pesar sobre as populações este custo.
Devia haver ou não, por exemplo, uma intervenção fiscal?
Devia haver uma enérgica intervenção fiscal. O exemplo espanhol é significativo a esse respeito. O que quero sublinhar é que isso são medidas de curto prazo, que não resolvem o custo que a guerra nos impõe. E o custo de uma guerra não é só o custo tremendo em vidas humanas, em estabilidade de regiões inteiras, em riscos para o futuro, em caudais de ódio, em políticas genocidas e destruidoras, mas é também o custo sobre uma economia. Repare, o Banco Central Europeu está a anunciar a possibilidade de aumentar a taxa de juro. Se aumenta a taxa de juro, e a Euribor já se ressentiu disso, significará que o preço do pagamento ao banco das prestações da habitação vai subir, e bem nos lembramos do que aconteceu há poucos anos.
Mas é inevitável que isso aconteça ou não, essa decisão ser tomada pelo Banco Central Europeu?
Os bancos centrais têm uma tradição e uma doutrina, que eu acho errada, mas que é muito sólida entre eles. É que se há um pequeno aumento da inflação, ou o risco de um aumento maior, que seria impulsionado pelos preços dos combustíveis, então sobem as taxas de juro. Procuram reduzir o consumo e até impor políticas recessivas na economia para curar a inflação. Ora, esta inflação não é um problema do consumo, não é porque aumentou o consumo, é só porque há uma guerra. E os bancos centrais que fazem parte do sistema institucional só poderiam ter uma atitude inteligente se colaborassem, e se a União Europeia em particular pudesse colaborar nesse sentido, para pressionar o fim desta guerra. Esta guerra é uma tragédia do ponto de vista económico e é uma tragédia do ponto de vista geoestratégico.
Nós esta semana já tivemos uma reunião do Banco Central Europeu, que decidiu manter as taxas inalteradas, mas todos os analistas apontam que as taxas irão subir pelo menos duas vezes este ano, muito provavelmente a partir do verão. No seu entender, deveria manter-se a taxa exatamente igual?
Pela razão que lhe disse, subir a taxa é dizer às pessoas que estão a comprar casa, ou que querem comprar casa, que não o devem fazer, e é fazer um efeito de arrastamento de aumento dos custos diretos para as famílias. Ora, não é nenhuma alteração no modo de consumo da vida económica das famílias portuguesas ou europeias que determina esta política, elas estão a ser punidas pelo facto de haver uma guerra, de que evidentemente não são responsáveis. E o Banco Central Europeu devia ter políticas que respondam aos problemas e não que os agravem. Estrategicamente os bancos centrais europeus têm sempre tido esta orientação: se alguma coisa acontece, pune-se a população, e isso acho que é profundamente errado.
E por ser mais simplista, por ser mais simples, fazê-lo assim?
Porque é o poder que têm, porque é a doutrina que criaram para si próprios e porque acham que a população deve ser um instrumento de ajustamento macroeconómico porque não querem ter ou não têm capacidade de agir na causa dos problemas. E a causa, Ana Sofia, é guerra, é destruição dos postos petrolíferos na Arábia Saudita, no Dubai, no Catar e, naturalmente, o bombardeamento sobre o Irão.
Mas estamos a falar de uma guerra que atingiu essas plataformas petrolíferas, não estamos apenas a falar de armazenamento que é destruído, mas a própria capacidade produtiva está destruída. Mesmo que a guerra acabe, os próximos anos provavelmente serão muito dolorosos. A Goldman Sachs disse também que o petróleo deverá manter-se acima dos 100 euros por ano. Como é que vamos sobreviver?
O ataque israelita à produção de gás natural ao grande campo do Irão, que é partilhado com o Catar, significa que para o Catar há 16% da produção que desaparece e desaparece provavelmente durante muito tempo, para o Irão mais ainda. E esse efeito, como diz, vai-se prolongar ao longo do tempo. Agora, se a guerra se estender, e não sabemos se se vai estender ainda mais, mas pode acontecer e tudo indica que caminhamos nesse sentido, então os riscos são cada vez maiores. Olhar para o futuro é parar a guerra no presente, é uma urgência do ponto de vista da paz mundial, da segurança das populações, mas diretamente também do ponto de vista do futuro económico de Portugal.
Para si também vê uma recessão como inevitável?
Eu creio que estamos muito próximo de uma recessão por uma combinação de fatores que é muito perigosa, que é esta pressão inflacionista e a redistribuição de rendimento que ela implica, mas também por uma outra, que uma bolha especulativa numa parte do sistema financeiro norte-americano, na Inteligência Artificial, que são empresas que têm valores de capitalização gigantescos, investimentos monumentais e que não produzem lucros, embora esperem que com a guerra possam ter bons contratos, e têm, mas não à escala dos investimentos têm, portanto pode haver uma queda bolsista na sequência desta dupla tensão e isso significa uma recessão, isso significa uma recessão com o perigo que ela arrasta porque uma recessão é mais uma vez desemprego, empobrecimento. A guerra é uma espécie de alavanca que está a destruir o Médio Oriente e que está a pôr em causa a economia e, portanto, a vida de pessoas, porque a economia é isso, são pessoas.
O Presidente da República, quando tomou posse, prometeu estar muito atento à forma como o Governo iria gerindo as mais variadas crises. Esta que estamos a ver é uma crise que é também económica, é uma crise energética, mas também económica. No seu entender deve fazer o quê, por exemplo?
Bem, o Presidente tem uma função de orientação e de presença na política internacional, mas não decide a política portuguesa. Agora, o Governo tem tido uma atitude, a primeira atitude do ministro Paulo Rangel sobre a utilização da base das Lajes nesta operação militar foi escondê-la e fingir que não era nada com ele, que os aviões iam passear para fazer turismo em Creta, enfim, não tem rigorosamente sentido nenhum a não ser.
Fez Portugal mal?
A Base das Lajes nunca deveria ter sido parte desta operação, nunca deveria ter sido permitido e um Governo com dignidade soberana e com vontade de contribuir para a Europa nunca teria podido aceitar que uma base instalada num território português fosse parte desta operação militar. Os ingleses, que são os mais fiéis apoiantes de Donald Trump, não o permitiram. O Governo português aceitou esta condição de subserviência que tem um custo para Portugal e, sobretudo, coloca-nos como um país irrelevante do ponto de vista de um consenso europeu que deve ser formado para evitar a guerra.
Que tipo de custo julga o Francisco Louçã que acarretou este uso contínuo da Base das Lajes?
Significa que Portugal não tem uma voz, significa que Portugal não existe, é um pequeno barco de papel numa tempestade, porque a capacidade que Portugal tem é condicionar o seu próprio território, ter uma voz política e a utilização da base das Lajes para esta operação é uma mancha suja na política portuguesa. Já aconteceu isso na guerra do Iraque, quando a base das Lajes serviu para aquela cimeira em que uma mentira foi constituída e o primeiro-ministro português - aliás recompensado logo a seguir por isso com a presidência da Comissão Europeia - aceitou fazer parte dessa operação que se traduziu na destruição do Iraque e também nesta guerra pelo petróleo. Repetir o mesmo erro duas vezes parece demais e o que está a acontecer agora é exatamente o mesmo, uma mentira que provoca uma guerra, a guerra estende-se, não se sabe como acaba, vai-se desenvolvendo, só que o Irão não é o Iraque e tem muito mais capacidade de resposta e muito mais capacidade de contra-ofensiva.
Não devíamos ter ficado ao lado daquele que é o mais forte, que são os Estados Unidos?
Nunca, os Estados Unidos são o pior inimigo da Europa, neste momento são o pior inimigo da Europa, não é só pelas suas alianças com Putin, é porque ameaça permanentemente a Europa, ameaça aliás repetidamente. Os Estados Unidos, não, a Casa Branca, Donald Trump, dentro da sua instabilidade e dentro daquele caráter bufónico, de quem faz as afirmações mais espampanantes para impressionar, é alguém cuja única estratégia é atingir a Europa e atingir uma parte significativa da paz no mundo para impor vantagens muito mesquinhas de empresas americanas, nomeadamente como lhe disse, as empresas que exportam petróleo, das empresas que têm contratos de defesa, estão a ganhar imenso.
