Palestina teme que este seja um novo passo na ambição israelita de impedir um Estado autónomo
O gabinete de segurança israelita aprovou secretamente a legalização de mais de 30 novos colonatos e explorações agrícolas na Cisjordânia ocupada no mês passado, segundo três fontes israelitas familiarizadas com a decisão.
Ao contrário de decisões semelhantes no passado, a aprovação não foi anunciada publicamente pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, e pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que não responderam ao pedido de comentário da CNN. Duas das fontes disseram à CNN que a aprovação foi mantida em segredo para evitar críticas internacionais, no meio do aumento da violência dos colonos contra os palestinianos na Cisjordânia desde o início da guerra com o Irão.
A autorização faz parte de uma iniciativa contínua do governo israelita de direita, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, para expandir os colonatos e consolidar o controlo de Israel sobre o território, com o objetivo de eliminar a possibilidade de um futuro Estado palestiniano.
Os palestinianos reivindicam um Estado nos territórios conquistados por Israel na guerra de 1967, incluindo a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.
A iniciativa para legalizar os postos avançados foi levada a cabo em desafio ao Direito Internacional, que considera ilegais todos os colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada. Os postos avançados são considerados ilegais tanto pela lei israelita como pela lei internacional, mas os colonos conseguiram estabelecer dezenas de postos avançados não autorizados nos últimos anos e, eventualmente, obtiveram a aprovação do governo israelita.
Os meios de comunicação israelitas noticiaram que a decisão inclui também a construção de infraestruturas de eletricidade e água para os postos avançados.
De acordo com o Observatório de Assentamentos da organização israelita Peace Now, em 2025, foi estabelecidos um número recorde de 86 novos postos avançados. Nos últimos anos, alguns dos colonos destes postos avançados forçaram a expulsão e a deslocação das comunidades palestinianas após atos de violência e assédio por parte dos colonos.
A Autoridade Palestiniana condenou a medida, classificando-a como “uma escalada perigosa e uma violação flagrante do Direito Internacional e das resoluções da ONU”. Um comunicado do gabinete do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, afirmou que a decisão “representa mais um passo israelita para implementar planos de anexação, expansionismo e deslocação”, apelando à comunidade internacional, especialmente aos EUA, para que intervenham imediatamente. A decisão de legalizar os postos avançados, tomada numa reunião do gabinete de segurança a 25 de março, surge numa altura em que tem aumentado a violência dos colonos contra os palestinianos, sobretudo desde o início da guerra com o Irão.
De acordo com a ONG israelita de direitos humanos Yesh Din, ocorreram 305 incidentes de violência de colonos entre 28 de Fevereiro e 29 de Março, com uma média de mais de 10 incidentes por dia, incluindo agressões, danos à propriedade e apropriações de terras.
Forças Armadas sob forte pressão
As Forças de Defesa de Israel (IDF) desviaram, no mês passado, um batalhão de combate da fronteira norte com o Líbano para a Cisjordânia, no meio do aumento da violência dos colonos durante a guerra. Durante a reunião do gabinete que discutiu os novos postos avançados, o chefe do Estado-Maior das IDF, Eyal Zamir, alertou os ministros do governo de que as Forças Armadas estão sob forte pressão devido à escassez de pessoal e às exigências operacionais alargadas, incluindo na Cisjordânia, de acordo com duas fontes israelitas que foram informadas sobre os detalhes da reunião.
Na mesma reunião, o gabinete de segurança de Netanyahu apoiou também uma diretiva que visa os “crimes nacionalistas” judaicos na Cisjordânia, disseram dois responsáveis israelitas à CNN. A medida, inicialmente divulgada pela Euronews, instrui as Forças de Defesa de Israel (IDF) e a polícia a reprimir a violência dos colonos, reforça a presença militar em zonas de conflito e estabelece uma unidade dedicada dentro do Ministério da Defesa para combater o fenómeno da “Juventude das Colinas” - um termo que descreve os jovens judeus extremistas de direita, religiosos e nacionalistas, que operam na Cisjordânia. Um funcionário afirmou que a diretiva foi “emitida pelo primeiro-ministro após uma série de discussões internas iniciais e depois ratificada pelo gabinete”. O gabinete do primeiro-ministro israelita não respondeu a um pedido de comentário.
O movimento Paz Agora denunciou a decisão do governo.
“É agora claro para todos - e as IDF continuam a sublinhar isto - que o estabelecimento de colonatos prejudica a segurança, impõe um fardo intolerável ao exército e mina a possibilidade de resolver o conflito e alcançar qualquer forma de segurança ou paz futura.”
A questão da violência dos colonos e da expansão dos colonatos na Cisjordânia gerou uma considerável atenção e debate nos meios de comunicação israelitas no final de março, após uma reportagem da CNN na qual os soldados israelitas fizeram eco da ideologia dos colonos, falaram em vingança após atacarem palestinianos e detiveram e agrediram uma equipa da CNN na Cisjordânia. O general de mais alta patente do exército israelita agiu rapidamente, suspendendo todas as atividades operacionais de um batalhão da reserva envolvido na detenção da equipa da CNN na Cisjordânia - incluindo a expulsão de um soldado do serviço militar.
Ibrahim Dahman, da CNN, contribuiu para esta reportagem