De um lado 15 pontos e do outro 10: as exigências de EUA e Irão e o ponto de situação do cessar-fogo

CNN , Jessie Yeung
8 abr, 15:39
Os iranianos saíram à rua após o anúncio do cessar-fogo na Praça Enqelab, em Teerão, a 8 de abril de 2026 (Stringer/AFP/Getty Images)

Há confusões sobre vários pontos, incluindo um essencial: pode o Irão enriquecer urânio? As duas partes dizem coisas diferentes e a presença de Israel no Líbano também não está a ajudar

Após um mês e meio de conflito crescente no Médio Oriente, os Estados Unidos e o Irão acordaram um cessar-fogo de duas semanas esta terça-feira - menos de duas horas antes do prazo estipulado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, após o qual prometeu aniquilar “toda uma civilização”.

Esta ameaça, que os críticos alertaram que poderia ser um crime de guerra se concretizada, parece ter sido adiada, pelo menos por enquanto, à última hora. Mas ainda persiste um abismo entre os dois países, que apresentaram a trégua temporária como uma vitória para as suas nações.

O cessar-fogo é um ponto de partida para novas negociações, e resta saber quais serão os termos finais de uma proposta para pôr fim definitivo a uma guerra que devastou o Médio Oriente e provocou uma interrupção histórica no fornecimento global de petróleo.

Eis o que sabemos.

O que disseram os EUA e Israel?

O presidente dos EUA, Donald Trump, a falar sobre a guerra com o Irão na Casa Branca, a 6 de abril de 2026 (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)
O presidente dos EUA, Donald Trump, a falar sobre a guerra com o Irão na Casa Branca, a 6 de abril de 2026 (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)

Trump anunciou o cessar-fogo numa publicação na sua Truth Social, afirmando que foi assinado sob a condição de o Irão aceitar reabrir o crucial Estreito de Ormuz, por onde flui um quinto do petróleo mundial.

O cessar-fogo foi mediado pelo primeiro-ministro e pelo chefe militar do Paquistão, disse. O Irão apresentou uma proposta de 10 pontos, que os EUA consideram "uma base viável para a negociação", acrescentou Trump.

As próximas duas semanas permitirão a elaboração de um acordo final, afirmou.

Com a entrada em vigor do cessar-fogo esta quarta-feira, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, descreveu-o como uma "trégua frágil" que lhe ensinou muito sobre o Irão.

Em entrevista à agência de notícias AFP, Trump descreveu o acordo como uma "vitória total e completa". Mas não quis dizer se cumpriria as suas ameaças anteriores de destruir a infraestrutura civil do Irão caso Teerão não cumprisse o acordo, dizendo apenas: "Terão de esperar para ver".

E numa publicação posterior na Truth Social, já de madrugada, disse que os EUA "ajudariam a reconstruir o tráfego no Estreito de Ormuz", acrescentando: "Vai-se fazer muito dinheiro".

Fontes norte-americanas disseram à CNN que a administração Trump está a preparar-se para possíveis negociações presenciais, provavelmente em Islamabad - onde o primeiro-ministro do Paquistão convidou ambos os lados a enviarem delegações.

Israel faz parte do cessar-fogo e vai também suspender os bombardeamentos contra o Irão, afirmou o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Mas também afirmou que o Líbano não faz parte do cessar-fogo - contradizendo o primeiro-ministro do Paquistão, que disse que sim. Trump não mencionou o Líbano na sua declaração.

O que disse o Irão?

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, à margem da 51-ª sessão do Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da Organização de Cooperação Islâmica (OCI), em Istambul, Turquia, a 22 de junho de 2025 (Ozan Kose/AFP/Getty Images)
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, à margem da 51-ª sessão do Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da Organização de Cooperação Islâmica (OCI), em Istambul, Turquia, a 22 de junho de 2025 (Ozan Kose/AFP/Getty Images)

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, afirmou que, se os ataques contra o Irão cessarem, as operações iranianas também cessarão.

Numa publicação na rede social X, acrescentou que as Forças Armadas do país vão coordenar a passagem segura pelo Estreito de Ormuz durante o cessar-fogo.

A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim noticiou que o Irão e o Omã planeiam cobrar taxas de trânsito às embarcações que passem pelo estreito durante o cessar-fogo, sendo os fundos destinados à reconstrução. A CNN solicitou uma posição do ministério dos Negócios Estrangeiros de Omã.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, o principal órgão de segurança do país, fez uma declaração mais incisiva, afirmando ter forçado os EUA a aceitar o seu plano de 10 pontos como base para negociações e descrevendo o cessar-fogo como uma "derrota definitiva" para Washington.

O conselho mencionou ainda possíveis negociações em Islamabad, alertando que "caso o inimigo cometa o mais pequeno erro, será punido com toda a força".

Quais são os termos do cessar-fogo?

Araghchi afirmou no seu comunicado que, embora Washington tenha aceitado a “estrutura geral” da proposta de 10 pontos do Irão como “base para as negociações”, o Irão, por sua vez, estava a considerar uma proposta de 15 pontos dos EUA.

Os detalhes completos do plano americano de 15 pontos não foram divulgados, mas acredita-se que incluam: o compromisso do Irão de não possuir armas nucleares, a entrega do seu urânio altamente enriquecido, limites às capacidades de defesa de Teerão, o fim dos grupos paramilitares regionais e a reabertura do Estreito de Ormuz. Outros pontos em discussão incluem o reconhecimento do direito de Israel à existência, disseram as duas fontes regionais.

O Irão tinha rejeitado anteriormente o plano de 15 pontos, com um responsável a descrever as exigências como “em grande parte excessivas, irrealistas e irracionais” nest segunda-feira - apesar de Trump ter afirmado no final de março que Teerão tinha concordado com “a maioria” dos pontos.

Embora a Casa Branca não tenha detalhado a proposta de 10 pontos do Irão, o Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano apresentou partes essenciais do plano.

A CNN obteve a declaração das autoridades iranianas. Foi também noticiada por diversos veículos da comunicação social estatal iraniana.

A proposta inclui a regulamentação da passagem pelo Estreito de Ormuz; o fim dos ataques contra o Irão e as suas forças aliadas na região; a retirada das forças americanas da região; indemnização ao Irão; o levantamento das sanções internacionais e o desbloqueio de ativos; e uma resolução vinculativa da ONU para garantir um acordo de paz definitivo.

Algumas versões da declaração do Conselho de Segurança, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação social estatais iranianos, tanto em farsi como em inglês, incluem também a reivindicação do Irão de um direito ao enriquecimento de urânio.

A embaixada do Irão na Índia também publicou um detalhe dos 10 pontos na sua conta verificada no X, que incluía a “aceitação do enriquecimento”.

A CNN contactou as autoridades americanas e o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão para obter mais comentários.

Em entrevista à AFP, Trump afirmou que o urânio do Irão seria "perfeitamente resolvido, ou não teria chegado a um acordo".

Para esta reportagem contribuíram Jeremy Diamond, Lex Harvey, Lauren Izso, Alayna Treene, Kristen Holmes, Zachary Cohen, Kit Maher, Matthew Chance, Todd Symons, Kevin Liptak e Sophia Saifi, da CNN.

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