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"Claramente não estão a tirar lições de 2022". FMI avisa Europa de que pode estar a "encurralar-se" com cortes nos impostos

CNN Portugal , MFP
3 mai, 12:01
Alfred Kammer (Associated Press)

Chefe do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional considera que os governos europeus estão a falhar em direcionar os apoios aos mais vulneráveis, dando espaço a medidas generalizadas que podem sair caras às finanças de cada país

A guerra no Irão parece estar longe de dar tréguas aos orçamentos das famílias na Europa, cada vez mais pressionados pelo aumento do custo de vida. E as subidas generalizadas dos preços, nomeadamente no setor dos combustíveis, têm sido motivo de alarme para vários governos europeus, que responderam com cortes nos impostos.

O problema com estas medidas, diz Alfred Kammer, chefe do departamento europeu do FMI, “é que a crise energética pode ser mais persistente do que esperamos, e os custos começam a aumentar”. “Vão encurralar-se”, acrescenta

Em entrevista ao Financial Times, Kammer reconhece que as populações estão sob esforço financeiro, mas denuncia a falta de cuidado de muitos países na gestão do seu espaço fiscal.

“Há países que não podem, de facto, permitir certas medidas se não compensarem com ajustamentos orçamentais. Estão com o espaço fiscal muito apertado. E precisam de ter cuidado para que os mercados não reajam”, alerta o responsável.

Mas a maior falha da Europa é mesmo a falta de foco das suas medidas, aponta o especialista, sublinhando que a maioria dos países não está a direcionar os apoios económicos aos consumidores mais vulneráveis, apesar dos avisos de Bruxelas. O bloco comunitário já alertou para uma reação negativa do mercado, caso os governos europeus continuem a implementar medidas generalizadas e dispendiosas.

De acordo com a investigação do Fundo Monetário Internacional, dois terços dos subsídios e reduções nos impostos do governo da União Europeia destinados a atenuar a crise energética não são direcionados a esta parte da população.

“Precisamos de ter esta conversa com as pessoas. Dizer-lhes que gastar em medidas universais é uma forma muito cara de usar a receita fiscal, especialmente quando há outras necessidades de gasto,” afirmou Kammer.

Isto numa altura em que os custos de financiamento para alguns países da Zona Euro já atingiram máximos plurianuais desde o início do conflito no Médio Oriente. O FMI relembra ainda que, numa grande parte da Europa, as finanças públicas continuam fragilizadas na sequência da pandemia de covid-19 e da crise energética anteriormente desencadeada pela invasão russa da Ucrânia.

“Claramente não estão a tirar lições de 2022”, diz Kammer, referindo-se ao período após a invasão russa da Ucrânia, quando muitos países introduziram medidas caras para apoiar as pessoas face ao aumento dos preços do gás.

Ainda segundo uma estimativa do FMI os governos da UE terão gastado 2,5% do PIB em intervenções energéticas após o início da guerra na Ucrânia. Traçada a comparação, os apoios anunciados pelos países europeus até agora parecem modestos, sendo que representam apenas 0,18% do PIB em média.

Mas Alfred Kammer avisa que, mesmo assim, é provável que sejam difíceis de reverter politicamente, produzindo um aumento dos encargos fiscais ao longo do tempo.

Além de tudo isto, o chefe do departamento europeu do FMI chama a atenção para outros danos colaterais destas decisões: uma procura elevada em mercados com oferta limitada e a redução do incentivo a recorrer a diferentes fontes de energia.

“Quando há estes aumentos de preços, isso sugeriria uma mudança para energias alternativas”, argumenta. Ao reduzir os preços, “está a retirar-se esse incentivo e motivação”.

A pressão, no entanto, aumenta em toda a Europa, com os agregados familiares e as empresas a exigir mais apoios, numa altura em que o bloqueio no Estreito de Ormuz permanece firme e as negociações para alcançar a paz num impasse.

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