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A desafiante mensagem que o Irão está a enviar aos EUA através de um funeral

CNN , Mostafa Salem e Aida Karimi
3 jul, 06:14
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Tudo foi construído para enviar um recado aos inimigos da República Islâmica

Quatro meses após a sua morte no início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, o Líder Supremo Ali Khamenei está a ser homenageado num funeral de uma semana que se estende por cinco cidades de dois países, com a expectativa de milhões de pessoas em luto.

Apesar de uma guerra custosa contra duas das Forças Armadas mais poderosas do mundo e de décadas de dificuldades económicas devastadoras, Teerão não está a poupar esforços para se despedir de Khamenei numa grande cerimónia envolta em simbolismo religioso, que coincide com as comemorações do 250.º aniversário da Independência dos Estados Unidos.

As autoridades anunciaram um dos maiores esforços logísticos da história da República Islâmica, mobilizando funcionários do governo, universidades, sindicatos, bombeiros, soldados, trabalhadores humanitários e até grupos religiosos de luto para organizar o funeral e lidar com os milhões de peregrinos que têm de viajar para cidades e locais sagrados no Irão e no Iraque para se despedirem do aiatola. As autoridades do vizinho Iraque, onde os muçulmanos xiitas são a maioria, afirmam que se espera que milhões de pessoas prestem a sua homenagem.

Durante mais de dez dias, a intensa cobertura mediática iraniana culminou neste momento, com canções em tributo e documentários sobre a vida de Khamenei a suplantar as notícias sobre as negociações com os EUA, que outrora dominavam as manchetes. A magnitude do espectáculo visa enviar uma mensagem ao mundo e aos inimigos da República Islâmica: o regime não só sobreviveu a uma guerra existencial, como também imortalizará obstinadamente o seu líder assassinado como símbolo da sua resiliência.

"Devemos levantar-nos e clamar ao mundo pelo sangue derramado pela nação, para que o mundo saiba que a honrada e nobre nação do Irão não se cala perante a opressão... e não deixará escapar o sangue do seu Imã [Khamenei]", escreveu Mohammad Bagher Ghalibaf, o influente presidente do parlamento que lidera as negociações do Irão com os EUA, numa mensagem publicada pelos meios de comunicação estatais esta quinta-feira.

"Um feito épico que demonstrará ao mundo a grandeza do espírito de uma nação."

Pode também marcar o momento em que o novo Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, fará a sua estreia pública depois de ter permanecido na clandestinidade desde o assassinato do seu pai e familiares.

Um espetáculo repleto de simbolismo

Não se deve perder de vista, na cerimónia, o simbolismo aparentemente deliberado das datas escolhidas. O corpo de Khamenei será velado no 250.º Dia da Independência dos Estados Unidos, enquanto outro dia importante na procissão coincide com uma grande comemoração xiita da morte de uma figura religiosa histórica.

Todo o espetáculo se desenrola durante o mês islâmico de Muharram, um período profundamente associado no Islão xiita ao luto, à traição e ao martírio - especificamente ao martírio, no século VII, do imã Hussein, um dos santos xiitas aos quais Khamenei traça a sua linhagem.

Muçulmanos xiitas que seguram retratos do Líder Supremo do Irão, Mujtaba Khamenei, e do falecido líder Ali Khamenei participam numa procissão no nono dia do mês sagrado islâmico de Muharram, em Karachi, a 25 de junho de 2026 (Asif Hassan/AFP/Getty Images)
Muçulmanos xiitas que seguram retratos do Líder Supremo do Irão, Mujtaba Khamenei, e do falecido líder Ali Khamenei participam numa procissão no nono dia do mês sagrado islâmico de Muharram, em Karachi, a 25 de junho de 2026 (Asif Hassan/AFP/Getty Images)

Khamenei, cujo governo de 37 anos foi marcado por uma obstinada resistência e profundo ceticismo em relação ao Ocidente, foi morto no primeiro dia da guerra entre os Estados Unidos e Israel, a 28 de fevereiro. Contudo, o seu funeral está a ser organizado como um desfile triunfal por três cidades iranianas e dois locais sagrados no vizinho Iraque, demonstrando aos seus apoiantes que o clérigo ainda não perdeu, nem mesmo na morte.

O líder, cujo assassínio pelos EUA e por Israel elevou o seu estatuto, presidiu a alguns dos maiores protestos contra o regime na história do Irão, reprimindo brutalmente os manifestantes que frequentemente clamavam pela sua morte. Neste processo, fortaleceu a base de linha dura do regime, apesar da intensa oposição interna e internacional.

"O assassínio tornou Khamenei muito mais poderoso simbolicamente na morte do que em vida", explica Sina Toossi, investigador sénior não residente do Centro de Política Internacional, à CNN. "Khamenei está agora a ser retratado como uma autoridade religiosa mártir, semelhante a venerados santos xiitas que foram martirizados, cuja visão do mundo foi vindicada pela forma como morreu."

Cinquenta milhões de pães

As únicas experiências anteriores do Irão com funerais desta magnitude foram as do fundador da República Islâmica, o aiatola Ruhollah Khomeini, em 1989, e do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, em 2020. Ambas as procissões degeneraram em caos e terminaram em tumultos mortais.

O corpo de Khomeini, exposto no mesmo local onde o seu sucessor, Khamenei, vai estar em câmara ardente durante dois dias, teve de ser retirado de helicóptero depois de os enlutados, em frenesim, terem rasgado as mortalhas do caixão.

Garantir a segurança do corpo do líder, gerir os milhões de enlutados, receber dignitários estrangeiros e orquestrar grandes eventos em cinco cidades de dois países é uma tarefa colossal. Exigirá uma operação de segurança sem precedentes para um país que acaba de sair de uma crise interna e da guerra com os EUA.

Pessoas em luto tocam no caixão de Zahra Haddad Adel, mulher do Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, durante o seu funeral em Teerão, a 2 de julho de 2026 (Agência de Notícias Fars/AFP/Getty Images)
Pessoas em luto tocam no caixão de Zahra Haddad Adel, mulher do Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, durante o seu funeral em Teerão, a 2 de julho de 2026 (Agência de Notícias Fars/AFP/Getty Images)

O primeiro evento em que o caixão será exposto começa às 06:00, hora local, de sábado, quando o corpo de Khamenei será colocado num palco elevado erguido no interior da Mesquita Imã Khomeini, em Teerão, um enorme complexo de mesquitas. Os bombeiros instalaram mais de seis mil aspersores de água suspensos na praça para refrescar a multidão sob o sol escaldante de julho.

Os aeroportos internacionais e domésticos da capital estarão encerrados durante os dias do funeral, tendo sido decretados feriados nacionais em todas as cidades por onde passará o corpo de Khamenei. Teerão, uma cidade de 17 milhões de habitantes, vai passar pela maior operação de trânsito da sua história, proibindo a circulação de veículos particulares perto do cortejo e abrindo mais de 700 parques de estacionamento para libertar espaço para os milhões de pessoas que deverão chegar à cidade em simultâneo.

Cinquenta milhões de pães serão cozidos para alimentar os enlutados, com 16 padarias móveis mobilizadas na capital, informou a força paramilitar voluntária Basij, segundo os meios de comunicação iranianos.

Teerão e outras grandes cidades foram preparadas para receber os enlutados, segundo o Crescente Vermelho. As autoridades mobilizaram 2.500 ambulâncias, 21 helicópteros, 100 drones e milhares de equipas de resgate, enquanto mais de duas dezenas de hospitais, 500 mil litros de soro e 20 mil salas de aula estão prontos, segundo os meios de comunicação iranianos.

O governo lançou uma campanha nacional pedindo que as pessoas ofereçam as suas casas para acolher os enlutados que visitam Teerão, Mashhad e Qom, enquanto mesquitas, ginásios, parques e centros culturais na capital também foram preparados para acomodar os milhões esperados para a cerimónia fúnebre.

Projetar poder para o mundo

No terceiro dia, prevê-se que um cortejo fúnebre percorra o trajeto do leste da capital até à sua periferia oeste. O corpo de Khamenei será depois levado para mais cerimónias na cidade sagrada de Qom, antes de ser transportado para os locais sagrados xiitas em Najaf e Karbala, no Iraque.

De seguida, o corpo será transportado para o seu local de enterro final no santuário do Imã Reza em Mashhad - cidade natal de Khamenei.

O transporte do corpo do antigo Líder Supremo para o Iraque serve como um símbolo da auto-imagem da República Islâmica como uma força revolucionária sem fronteiras, uma mensagem que o país está ansioso por amplificar após anos a projetar o seu poder na região.

"Os seus seguidores religiosos estendiam-se ao Iraque, Paquistão, Bahrein e outras comunidades xiitas, e é por isso que as procissões planeadas em Najaf e Karbala são tão significativas", refere Toossi. "Reforçam a sensação de que este não é apenas um funeral de Estado iraniano, mas um momento transnacional."

Um muçulmano xiita segura um cartaz com retratos do Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, e do falecido líder, o aiatola Ali Khamenei (à esquerda), enquanto os fiéis participam numa procissão no nono dia do mês sagrado islâmico de Muharram, em Islamabad, a 25 de junho de 2026 (Aamir Qureshi/AFP/Getty Images)
Um muçulmano xiita segura um cartaz com retratos do Líder Supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, e do falecido líder, o aiatola Ali Khamenei (à esquerda), enquanto os fiéis participam numa procissão no nono dia do mês sagrado islâmico de Muharram, em Islamabad, a 25 de junho de 2026 (Aamir Qureshi/AFP/Getty Images)
Uma mulher segura um telemóvel com a imagem do falecido Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, durante rituais de luto no Santuário do Imam Hussein, na cidade sagrada de Karbala, no Iraque, a 25 de junho de 2026, no auge do Ashura, um período de 10 dias que comemora o assassinato, no século VII, do neto do profeta Maomé, o Imã Hussein (Ahmad Al-Rubaye/AFP/Getty Images)
Uma mulher segura um telemóvel com a imagem do falecido Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, durante rituais de luto no Santuário do Imam Hussein, na cidade sagrada de Karbala, no Iraque, a 25 de junho de 2026, no auge do Ashura, um período de 10 dias que comemora o assassinato, no século VII, do neto do profeta Maomé, o Imã Hussein (Ahmad Al-Rubaye/AFP/Getty Images)

As autoridades iranianas divulgaram ambiciosas estimativas de público, que variam entre 4 milhões e 15 milhões de pessoas - o que poderá torná-lo o maior funeral da história moderna - e vangloriaram-se de que 14 mil jornalistas, incluindo 900 repórteres estrangeiros, cobrirão o evento.

Os meios de comunicação estatais passaram a última semana a divulgar a lista de dignitários estrangeiros esperados. Mas, para além do presidente da Geórgia, Mikheil Kavelashvili, do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e do vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, poucos líderes mundiais deverão comparecer. As autoridades iranianas afirmam que estarão presentes oito chefes de Estado e 12 presidentes de parlamento; autoridades ocidentais foram excluídas da lista de convidados.

O vice-presidente do Irão descreveu a procissão como um dos acontecimentos mais importantes do século, e o ministro do Interior afirmou que o objetivo é criar a maior "cerimónia de despedida" da história iraniana. Ali Akbar Pourjamshidian, comandante da Guarda Revolucionária destacado para liderar o comité que supervisiona os acontecimentos, disse que o funeral procurará projetar o "poder da República Islâmica para a comunidade internacional".

Mojtaba vai aparecer?

Uma questão central que paira sobre o funeral é se Mojtaba Khamenei, o novo Líder Supremo e filho do aiatola assassinado, irá comparecer no cortejo em honra do seu pai, mãe e mulher, todos mortos no mesmo ataque conjunto entre os EUA e Israel.

Ferido neste ataque, Mojtaba permanece escondido desde o início da guerra, no final de fevereiro, comunicando com os seus apoiantes apenas através de comunicados escritos, sem nunca mostrar o rosto ou usar a voz. As autoridades iranianas têm-se esforçado por projetar uma imagem de plena recuperação, alegando que está a conduzir as negociações de Teerão com Washington.

Questionado esta semana sobre a sua presença, o organizador do funeral desconversou, dizendo que "o assunto não está na nossa alçada e a decisão cabe inteiramente ao gabinete do Líder".

A aparição de Mojtaba seria um momento histórico, marcando a sua primeira aparição pública e ajudando a estabelecer a sua legitimidade. A sua ausência irá provavelmente alimentar dúvidas, tanto internas como externas, sobre o seu bem-estar, bem como questões sobre quem está a governar o país. Esta semana, o líder não compareceu a uma cerimónia privada de despedida da sua mulher.

Caso ele esteja ausente do funeral, a República Islâmica irá provavelmente justificar isso como uma medida de segurança necessária.

Os militares iranianos alertaram contra qualquer "erro de cálculo" durante os cortejos fúnebres, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou esta quarta-feira que Teerão daria uma resposta imediata e contundente a qualquer ameaça contra a sua liderança, depois de o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ter declarado que Mojtaba Khamenei estava "marcado para morrer".

Mas, apesar dos esforços do regime para transformar o funeral numa grande demonstração de poder e apoio popular, alguns iranianos continuam indiferentes.

"Nem consigo abastecer o carro há dois dias porque as filas são enormes", desabafou um residente de Teerão à CNN. "E sejamos realistas, a maioria das pessoas não vai ao funeral, vão viajar."

"Metade delas fez as malas e foi embora ontem", acrescentou.

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