"Khamenei foi para o inferno": ataques não param mas grande parte do Irão foi para a rua dançar e cantar

1 mar, 03:07
Iranianos celebram morte de Ali Khamenei em Los Angeles (Caroline Brehman/AP)

Morreu o líder, mas não o regime. Ainda assim, os iranianos veem nesta a melhor oportunidade para mudar tudo

Já havia iranianos na rua e a celebrar nas redes sociais, mas a confirmação estatal de que o aiatola Ali Khamenei estava mesmo morto desencadeou uma reação de euforia em várias cidades do país, sobretudo entre a população mais jovem.

Vários vídeos partilhados nas redes sociais mostram grandes ajuntamentos, sobretudo nas cidades que não estão na mira de Estados Unidos e Israel, que continuam a realizar ataques, o que pode explicar um maior recato em Teerão, por exemplo, que é um dos grandes alvos.

Foi lá que, no coração da cidade, no escritório da sua própria casa, o Líder Supremo do Irão morreu, algo que os meios estatais só confirmaram várias horas depois de garantirem repetidamente que o aiatola estava vivo e a trabalhar na resposta.

Essa ideia desvaneceu-se quando responsáveis israelitas colocaram na imprensa a informação de que Ali Khamenei estava mesmo morto e que até havia uma fotografia para o comprovar. O Irão ainda rebateu essa afirmação, mas depois foi Donald Trump a afirmar para todo o mundo: “Khamenei está morto”.

Logo aí soltaram-se os primeiros laivos de comemoração entre aqueles que estão fartos de viver num regime teocrata e altamente repressivo, sobretudo para as mulheres, que no Irão são cidadãos de segunda em muitos aspetos. Fora do Irão, e como se pode ver na imagem de capa deste artigo, que chega diretamente de Los Angeles, essas celebrações já tinham começado antes.

De resto, muitos dos que saíram às ruas são jovens que não conhecem outra realidade - o regime dos aiatolas perdura desde 1979 -, o que também ajuda a explicar que tenham tanta esperança em Reza Pahlavi, herdeiro natural do xá do Irão deposto naquele mesmo ano. Esses mesmos jovens não saberão, provavelmente, os efeitos de uma outra ditadura, a monárquica, que era igualmente repressiva, mas de outras formas.

Seja como for, na ótica das milhões de pessoas que querem antes de tudo uma mudança de regime, este é um dia para celebrar. O regime não caiu, isso é claro, mas se há forma de iniciar essa decapitação é a morte do líder.

De acordo com os meios independentes do Irão, as linhas telefónicas continuam com problemas, pelo que não é ainda possível perceber com clareza a dimensão dos festejos.

Ainda assim, e de acordo com vídeos verificados pelo The New York Times, é impossível negar cenários de festa por todo o país. É assim em Teerão, curiosamente, onde três residentes decidiram mostrar as celebrações numa zona mais afastada do centro e, consequentemente, dos ataques.

Há carros a passar e a apitarem enquanto homens e mulheres se juntam na rua para dançar e gritar de alegria. Há mesmo fogo de artifício e música persa a inundar as ruas, enquanto se ouvem ecos de “liberdade”.

Sara, uma mulher de 53 anos que vive na capital e falou ao jornal norte-americano, conta que assim que ouviu que Ali Khamenei tinha morrido foi a correr para a rua gritar de alegria, mas não sei antes abraçar o marido.

“Fomos lá para fora e gritámos do fundo dos nossos pulmões e rimos e dançámos com os nossos vizinhos”, refere, explicando que estava também com a filha.

Por outro lado, e com o regime a anunciar 40 dias de luto nacional, há quem lamente a morte de Ali Khamenei nas redes sociais.

“Khamenei foi para o inferno”, pode ouvir-se um homem gritar do telhado de um edifício num vídeo publicado pelo serviço iraniano da BBC.

Muitas destas pessoas tinham ido para a rua semanas antes, quando uma crise económica espoletou os protestos mais graves de quase meio século de regime. O resultado foi a morte de milhares - ainda estamos para saber ao certo quantos - populares.

Com Donald Trump a prometer a continuação dos ataques até que o regime ceda, estes populares têm a oportunidade única de, como lhes pediu Benjamin Netanyahu, acabarem o trabalho.

Resta saber se têm capacidade e o apoio que lhes foi prometido.

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