Imagens das ruas do país são contrastantes: ora se celebra, ora se chora
Os iranianos acordaram este domingo pela primeira vez em décadas sem o aiatola Ali Khamenei como seu Líder Supremo, após a sua morte em ataques conjuntos entre os EUA e Israel, uma mudança profunda na história do país.
Enquanto Israel continua os seus ataques ao Irão, no meio da promessa de Teerão de vingar a morte de Khamenei, as pessoas na capital e noutras regiões lidam com sentimentos contraditórios.
Embora a morte de Khamenei - um símbolo, para muitos, de décadas de brutal repressão e má gestão económica - tenha provocado celebrações isoladas na noite de sábado, outros iranianos expressam preocupação com o que virá a seguir, as implicações da intervenção dos EUA e a ansiedade em relação a uma guerra regional crescente.
“Estamos seguros por enquanto. Não houve muitas explosões fortes na zona oeste da cidade, por isso vamos tentar ficar em Teerão por enquanto”, diz um residente de Teerão à CNN, acrescentando: “As pessoas estão felizes com a morte de Khamenei”.
Mas essa alegria é atenuada.
“Estou feliz por ele ter ido embora, mas quase não consigo acreditar que isto tenha acontecido. Muitos de nós estamos incrédulos, acho que ainda nem consigo celebrar”, confessa uma pessoa à CNN, sublinhando os receios de que um conflito com apenas um dia de duração possa agravar-se rapidamente.
Os ataques israelitas atingiram alvos em todo o Irão, com um deles a matar mais de 150 raparigas numa escola primária perto de uma base militar na cidade de Minab, no sul do país, segundo os meios de comunicação estatais iranianos.
Em resposta ao ataque dos EUA e de Israel, o Irão lançou ataques de retaliação contra bases militares israelitas e americanas em diversos países. Foram relatadas explosões em toda a região, desde Doha até às praias do Dubai, com três soldados norte-americanos mortos, pelo menos nove mortos em Israel e dezenas de outras vítimas.
No distrito de Tajrish, no norte de Teerão, um residente refere que as ruas estavam “praticamente vazias” no domingo.
“Algumas pessoas estão a circular, mas ninguém está a celebrar ou a protestar por aqui”, conta à CNN.
“Ontem à noite, as pessoas estavam a celebrar perto de Tajrish. Ouvia-se, mas também alguns tiros. Estou apreensivo sobre o que significa a morte de Khamenei. Não acho que isso vá levar a mudanças tão cedo. Mas consola-me saber que ele se foi embora”, afirma esta pessoa.
Vídeos partilhados por contas de ativistas anti-regime e geolocalizados pela CNN mostram vários carros a buzinar rodeados de pessoas nas ruas da cidade de Isfahan, no centro do Irão, a agitar roupas em celebração.
Noutro vídeo da cidade de Abdanan, no oeste do Irão, as pessoas festejavam de dentro dos seus carros numa rotunda congestionada. Outro vídeo mostrava pessoas na cidade iraniana de Galleh Dar a derrubar um monumento dedicado ao antecessor de Khamenei e fundador da República Islâmica, o falecido aiatola Ruhollah Khomeini, enquanto as chamas subiam da rotunda e os espectadores aplaudiam.
Este clima de celebração, no entanto, está longe de ser universal.
Na manhã deste domingo, grandes multidões de iranianos pró-governo reuniram-se em praças públicas e mesquitas por todo o país, numa demonstração de apoio ao regime que Israel e o presidente norte-americano, Donald Trump, prometeram derrubar.
“Alguns podem estar felizes com a morte de Khamenei, mas a maioria está preocupada com as consequências e os desenvolvimentos futuros no país, particularmente em relação ao conflito e à provável instabilidade”, diz um residente à CNN.
“Pessoalmente, espero uma escalada nas tensões entre os EUA e Israel”, acrescenta o residente.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou este domingo que os ataques contra o Irão vão aumentar nos próximos dias.
A morte de uma figura que dominou a política, a religião e a política externa iranianas durante mais de três décadas (e que nunca nomeou formalmente um sucessor) criou uma profunda incerteza sobre a sucessão e a estabilidade no topo da República Islâmica.
Espera-se que a poderosa Guarda Revolucionária do Irão e outros órgãos estatais desempenhem papéis centrais na gestão de qualquer transição. E no domingo, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, na sua primeira aparição televisiva desde os ataques, disse que um conselho interino iniciou os seus trabalhos. Mais tarde, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou que um novo Líder Supremo poderia ser escolhido dentro de dias.
O que está em causa não é simplesmente quem irá substituir Khamenei, mas se os poderes que há muito mantêm o regime unido conseguirão continuar a fazê-lo. Israel afirmou que a “maioria” dos altos comandantes militares iranianos foi morta na onda inicial de ataques. As Forças de Defesa de Israel (IDF) disseram ter matado 40 comandantes de alta patente.
Como admite um residente à CNN: “[Estou] feliz com a morte de um ditador e preocupado com o caos ou com a ascensão de outra ditadura”.
Para alguns iranianos, o facto de Khamenei ter morrido através de uma ação militar israelo-americana deixa um sabor amargo, servindo como um lembrete de que mesmo momentos de mudança, desejados por muitos, foram impostos por atores externos.
O analista iraniano Arash Azizi explica à CNN que os iranianos não queriam uma mudança interna no regime, “mas sim a queda de todo o regime”.
“Querem democracia e uma transformação fundamental. Mas estes objetivos continuam a ser muito difíceis de alcançar, dada a falta de organização adequada na oposição”, frisa Azizi.
Fora do Irão, em cidades que vão de Los Angeles a Londres, segmentos da diáspora iraniana reuniram-se em celebrações espontâneas, com a morte de Khamenei a marcar um fim feliz para uma era à qual se opuseram durante muito tempo.
Entretanto, à medida que o país entra num novo capítulo imprevisível, os iranianos no Irão ainda procuram um caminho para a liberdade.
Nota do editor: os iranianos citados neste artigo falaram à CNN sob anonimato, alegando preocupações de segurança.
Tim Lister, da CNN, contribuiu para esta reportagem