Guerra que durou 20 anos e que começou depois dos ataques do 11 de Setembro fez milhares de baixas entre Estados Unidos e aliados
O soldado paraquedista Sérgio Pedrosa e o sargento João Pereira estão entre os cerca de 3.500 soldados de países da NATO que morreram em serviço no Afeganistão a defender uma guerra iniciada pelos Estados Unidos.
São as duas baixas que ficarão para sempre na memória de 4.500 efetivos portugueses que combateram naquele país na chamada guerra contra o terrorismo, lançada pelos Estados Unidos depois dos ataques do 11 de Setembro.
Foi também a única vez que o artigo 5.º da NATO - aquele de que tanto se fala desde que a Rússia invadiu a Ucrânia - foi ativado, levando vários países a juntarem-se à intenção norte-americana de combater no Afeganistão, país governado pelos talibãs que era um berço de terroristas.
Foi lá, em particular na cidade de Kandahar, que Osama bin Laden montou grande parte da operação da Al-Qaeda entre 1998 e 2001. Foi também lá que o saudita se escondeu no meio das montanhas, no complexo de cavernas de Tora Bora, de onde conseguiu sair com vida após um intenso combate com as forças ocidentais.
Mas voltemos ao início. Sérgio Pedrosa e João Pereira, mortos em 2007 e 2005, respetivamente, foram apenas duas unidades nas dezenas de milhares de soldados enviados por países como Portugal, Reino Unido, Dinamarca, França ou Alemanha. Juntaram-se todos a um esforço de guerra que chegou a ter, em 2011, cerca de 130 mil militares no terreno em simultâneo.
É por isso de estranhar que o atual presidente dos Estados Unidos pareça ter esquecido o contributo dos aliados para uma guerra promovida por Washington DC. Donald Trump afirmou, numa entrevista à Fox News, que os aliados “ficaram um pouco afastados da linha da frente”, sugerindo até que as forças norte-americanas “nunca precisaram deles”.
Factualmente, não é verdade. Sim, os Estados Unidos foram quem perdeu mais tropas, com 2.442 baixas entre as Forças Armadas, excluindo civis e outro tipo de pessoal. Mas os aliados também tiveram de chorar os seus mortos: as últimas contas apontam para 1.144. Menos que os Estados Unidos, certo, mas ainda assim um número de relevo que a Europa e países de outros continentes não esquecem.
Ao todo, mais de 20 países perderam soldados no Afeganistão, com o Reino Unido a liderar as baixas que não são norte-americanas - foram 457 soldados mortos.
Quanto a Portugal, recordará sempre duas vítimas mortais. Sérgio Pedrosa morreu no capotamento da viatura em que viajava durante uma patrulha noturna nos arredores de Cabul em novembro de 2007.
Uma descrição recolhida pela agência Lusa na altura dava conta de que o blindado Humvee em que Sérgio Pedrosa seguia “foi à berma e capotou”, não tendo havido mais feridos neste acidente.
Dois anos antes, também em novembro, mas de 2005, João Pereira morreu também durante uma patrulha em Cabul, depois de uma bomba ter atingido a viatura em que seguia com outros militares.
Olhando de forma mais abrangente, o país que sofreu mais baixas per capita até é a Dinamarca. Morreram 43 soldados, muitos menos que os norte-americanos, mas a baixa população do país nórdico faz com que fique na liderança desta lista negra. O gráfico seguinte detalha pormenorizadamente as vítimas por nacionalidade.
Reações na Europa
As reações em toda a Europa não demoraram a aparecer depois das palavras de Donald Trump. Nem mesmo a primeira-ministra de Itália, talvez a maior aliada do presidente norte-americano por estes lados, quis poupar nas críticas.
“Foi com surpresa que o governo italiano ouviu as palavras do presidente Trump sobre os aliados da NATO terem ‘ficado para trás’ durante as operações no Afeganistão”, escreveu Giorgia Meloni numa longa mensagem publicada nas redes sociais.
Il Governo italiano ha appreso con stupore le dichiarazioni del Presidente Trump secondo cui gli alleati della NATO sarebbero “rimasti indietro” durante le operazioni in Afghanistan.
Dopo gli attacchi terroristici dell’11 settembre 2001, la NATO ha attivato l’Articolo 5 per la…
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) January 24, 2026
Antes dela, Alemanha, França, Reino ou Dinamarca também não quiseram ficar calados.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em uníssono com toda a classe política do Reino Unido, indignou-se na sexta-feira com as declarações "insultuosas" e "francamente chocantes" de Donald Trump.
E até o príncipe britânico Harry, que serviu por duas vezes no Afeganistão, pediu que se reconheça “com respeito” o sacrifício dos soldados da NATO na guerra no Afeganistão.
"É insuportável que o presidente americano esteja a questionar o compromisso dos soldados aliados no Afeganistão”, escreveu a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, na rede social Facebook.
Os comentários da chefe do governo dinamarquês surgiram depois de a Associação Dinamarquesa de Veteranos ter manifestado indignação com as declarações de Trump.
"Estamos sem palavras. A Dinamarca sempre apoiou os Estados Unidos e estivemos presentes em zonas de crise em todo o mundo quando os Estados Unidos nos pediram para o fazer", escreveu a associação num comunicado.
O presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou a "gratidão" às famílias dos soldados franceses mortos no Afeganistão, após as declarações "inaceitáveis" feitas por Donald Trump, anunciou fonte da presidência francesa.
"Estas declarações inaceitáveis não exigem comentários. É às famílias dos soldados caídos que o Chefe de Estado deseja oferecer conforto e reiterar a gratidão e a respeitosa recordação da nação", afirmou fonte da presidência francesa, citada pela agência France-Presse (AFP).
Também o governo alemão quis recordar o "preço alto" para a Alemanha do conflito no Afeganistão, repudiando a alegação do presidente dos Estados Unidos.
Numa declaração no WhatsApp, o ministro alemão da Defesa lembrou que as Forças Armadas germânicas "estavam prontas quando os aliados americanos solicitaram apoio" depois do ataque terrorista islamita de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, tendo pago "um preço alto por esse compromisso".
"Cinquenta e nove soldados e três polícias perderam a vida em combate, atentados ou acidentes", enquanto "inúmeros outros sofrem ainda hoje com as sequelas físicas e psicológicas desse período", precisou Boris Pistorius, citado pela agência de notícias France-Presse.
"Prometo-vos: honraremos o compromisso e a coragem dos nossos soldados no Afeganistão, independentemente das críticas", acrescentou.