A Rússia nomeou um novo general para a Ucrânia: um comandante com um histórico de brutalidade na Síria e na Chechénia

CNN , Análise por Nathan Hodge, CNN
12 abr, 19:37
O presidente russo Vladimir Putin, à esquerda, posa com o coronel-general Alexander Dvornikov durante uma cerimónia no Kremlin, a 17 de março de 2016. Dvornikov foi nomeado o novo comandante militar para a campanha na Ucrânia. (Alexei Nikolsky/Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP)

Especialistas militares e autoridades ocidentais têm especulado que os generais de Putin estão a sentir a pressão de terem de apresentar algum tipo de resultados antes de 9 de maio, dia em que a Rússia assinala o Dia da Vitória, a derrota da Alemanha nazi em 1945

O presidente russo Vladimir Putin tem um novo general a supervisionar a sua guerra na Ucrânia, e os seus comandantes militares estão a prenunciar uma nova fase na guerra: uma investida total para tomar e manter as zonas da região ucraniana de Donbas ainda sob controlo ucraniano.

Os ucranianos parecem estar a levar esta ameaça a sério. Nas regiões orientais de Donetsk e Lugansk, as autoridades locais têm apelado a muitas comunidades para que deixem a região, abrindo corredores humanitários para que os civis saiam para partes mais seguras da Ucrânia.

No nordeste da região de Kharkiv, as autoridades estão a evacuar as cidades de Barvinkove e Lozova. Em Dnipro, capital regional do centro-leste da Ucrânia, o presidente da câmara, Borys Filatov, pediu a saída de mulheres, crianças e idosos.

“A situação está a aquecer gradualmente em Donbas, e julgamos que abril será bastante quente”, disse Filatov recentemente. “Por isso, faço um pedido importante: Todos os que tiverem a oportunidade (como já disse várias vezes) de sair - em primeiro lugar, isto aplica-se a mulheres, crianças e idosos que não estejam envolvidos no funcionamento das infraestruturas essenciais.”

Uma imagem de satélite da Maxar Technologies mostra o que parece ser uma coluna militar russa com 13 km de comprimento a leste de Kharkiv. (Maxar Technologies)

Pode a Rússia organizar uma nova ofensiva aterrorizante a Leste? As últimas imagens de satélite recolhidas e analisadas pela Maxar Technologies mostram uma coluna militar russa com 13 km de comprimento a atravessar a vila ucraniana de Velkyi Burluk, a leste da cidade de Kharkiv.

Em declarações na televisão nacional no último sábado, Vadym Denysenko, um conselheiro do Ministro do Interior da Ucrânia, disse que Kharkiv estava a “ser bombardeada praticamente todo o dia” e que era esperada uma ofensiva russa na região de Kharkiv, vinda de Izium.

Especialistas militares e autoridades ocidentais também têm especulado que os generais de Putin estão a sentir a pressão de terem de apresentar algum tipo de resultados antes de 9 de maio, dia em que a Rússia assinala o Dia da Vitória, a derrota da Alemanha nazi em 1945. Mas uma análise recente do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), um grupo de reflexão sedeado nos EUA, lança algumas dúvidas sobre a capacidade da Rússia em concentrar as forças necessárias para avançar sobre Donbas. “Avaliámos que os militares russos irão ter dificuldades em reunir uma força de unidades mecanizadas numerosa e capaz de combater em Donbas nos próximos meses”, relata a análise. “A Rússia provavelmente irá continuar a enviar gradualmente unidades bastante danificadas e parcialmente reconstituídas para operações ofensivas que obterão pequenas vitórias a um alto preço.”

Os analistas e observadores militares dizem que a Rússia irá ter dificuldades em reorganizar as forças que foram desgastadas pelos militares ucranianos, particularmente na defesa de Kiev e do norte da Ucrânia.

Antes da invasão, a Rússia tinham cerca de 120 batalhões táticos organizados à volta da Ucrânia. De acordo com um representante europeu, cerca de um quarto dessas forças estão “efetivamente inoperantes” após sofrerem pesadas baixas e destruição de material. Um agente da defesa dos EUA, em 8 de abril, avançou com uma estimativa ligeiramente diferente, dizendo que as forças russas estavam neste momento “tinham 85% das forças de combate disponíveis” das que tinham sido reunidas antes da invasão de 24 de fevereiro.

As estimativas da defesa dos EUA, segundo o ISW, “exageram involuntariamente as atuais capacidades de combate das forças armadas.”

De acordo com o ISW, “as dezenas de batalhões táticos russos que se retiraram de Kiev provavelmente possuem um poder de combate que é uma fração daquilo que sugere o número de unidades ou de militares. As unidades russas que lutaram na Ucrânia sofreram danos terríveis.”

Um comandante com um histórico de brutalidade

O General do Exército Alexander Dvornikov, comandante do Distrito Militar do Sul da Rússia, foi nomeado comandante operacional da campanha militar russa na Ucrânia, de acordo com um oficial dos EUA e um oficial europeu.

Dvornikov, de 60 anos, foi o primeiro comandante das operações militares da Rússia na Síria, após Putin ter enviado tropas para o país em setembro de 2015 para apoiar o governo do presidente sírio Bashar al-Assad.

Durante a gestão de Dvornikov na Síria, entre setembro de 2015 e junho de 2016, a força aérea russa apoiou o regime de Assad e seus aliados no cerco à zona leste de Alepo controlada por rebeldes, bombardeando bairros densamente povoados e causando inúmeras vítimas civis. A cidade caiu nas mãos das forças do governo sírio em dezembro de 2016.

De 2000 a 2003, Dvornikov serviu na longa campanha de pacificação da Rússia no norte do Cáucaso, incluindo a Segunda Guerra da Chechénia, que deixou a capital regional da Chechénia, Grozny, em ruínas.

As forças russas usaram a mesma abordagem agressiva em certas partes da Ucrânia, atingindo edifícios residenciais nas principais cidades e demolindo grande parte da cidade portuária ucraniana de Mariupol.

Dvornikov recebeu o título de “Herói da Federação Russa” por parte do Kremlin em março de 2016 pelos seus serviços. A nomeação de um novo comandante geral para liderar a guerra da Rússia na Ucrânia parece ser um esforço para resolver outro problema que tem prejudicado as forças russas: a falta de coordenação.

“Aparentemente, os russos estão a tentar resolver um dos problemas com que se debateram na sua invasão inicial ao fazer do Comandante do Distrito Militar do Sul, o General Alexander Dvornikov, o único comandante geral para as operações na Ucrânia”, declarou o ISW.

“Contudo, esta simplificação da estrutura de comando russa pode não resolver todos os problemas de comando da Rússia. As forças russas irão provavelmente continuar a ter dificuldades em estabelecer mecanismos de comando e controlo coerentes e eficientes nos próximos tempos.”

Isso não significa que as próximas semanas serão fáceis para as forças ucranianas que lutam no Leste. O ISW disse que os militares russos “irão provavelmente obter resultados, apesar de tudo, e poderão encurralar ou desgastar as forças ucranianas o suficiente para garantir a maior parte dos oblasts de Donetsk e Luhansk, mas é pelo menos igualmente provável que estas ofensivas russas terminem antes de atingirem os objetivos, como aconteceu com operações semelhantes.”

Em declarações no domingo, o conselheiro presidencial ucraniano Mykhailo Podolyak disse que a Ucrânia estava preparada para intensos combates.

“A Ucrânia está pronta para grandes batalhas”, disse Podolyak. “A Ucrânia tem de vencê-las, particularmente em Donbas. E depois disso, a Ucrânia terá uma melhor posição negocial, a partir da qual poderá impor certas condições. Em seguida, os presidentes [da Ucrânia e da Rússia] irão reunir-se. Isso poderá levar duas ou três semanas.”

As próximas semanas deverão revelar se esse cenário é excessivamente otimista. Mas apresenta o que parece ser uma posição de negociação, tanto quanto uma avaliação militar: Putin pode falar agora, ou correr o risco de ficar significativamente mais enfraquecido no futuro.

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