EUA capturam petroleiro na costa da Venezuela

CNN , Adam Cancryn​​​​​​​ e Kevin Liptak
11 dez 2025, 07:59

Donald Trump sugeriu que o petróleo transportado pelo navio vai ficar em mãos norte-americanas, com os EUA a justificarem a apreensão pela ligação a "organizações terroristas estrangeiras"

Os Estados Unidos apreenderam um petroleiro ao largo da costa da Venezuela esta quarta-feira, anunciou o presidente Donald Trump, aumentando a pressão norte-americana sobre o regime do presidente Nicolas Maduro.

“Como provavelmente sabem, acabámos de apreender um petroleiro na costa da Venezuela”, disse Trump. “Um grande petroleiro, muito grande, o maior já apreendido, na verdade”.

A procuradora-geral Pam Bondi acrescentou que se trata de um petroleiro sancionado pelos EUA durante vários anos “devido ao seu envolvimento numa rede ilícita de transporte de petróleo que apoia organizações terroristas estrangeiras”, incluindo a Venezuela e o Irão.

Bondi publicou um vídeo na rede social X que mostra pessoal armado a fazer rapel em direção ao navio a partir de um helicóptero e depois a entrar no convés com as armas apontadas. A responsável acrescentou que o FBI, as Investigações de Segurança Interna e a Guarda Costeira dos EUA conduziram a apreensão “com o apoio do Departamento de Guerra”.

A apreensão ocorre no momento em que a líder da oposição venezuelana e Prémio Nobel María Corina Machado aterrou em Oslo, depois de ter desafiado a proibição de viajar e fugido do país.

Esta captura de ecrã retirada de um vídeo publicado pela procuradora-geral Pam Bondi a 10 de dezembro mostra as forças norte-americanas a apreenderem um petroleiro ao largo da costa da Venezuela (Pam Bondi/X)
Esta captura de ecrã retirada de um vídeo publicado pela procuradora-geral Pam Bondi a 10 de dezembro mostra as forças norte-americanas a apreenderem um petroleiro ao largo da costa da Venezuela (Pam Bondi/X)

Donald Trump não deu qualquer explicação detalhada para a ação, dizendo apenas que o navio foi apreendido “por uma razão muito boa”. Questionado sobre o que aconteceria ao petróleo que o petroleiro transportava, Trump foi taxativo: “Ficamos com ele, acho eu”.

A apreensão ocorreu em águas internacionais, segundo um alto funcionário dos EUA, e decorreu sem incidentes ou baixas, quer entre o pessoal dos EUA quer entre a tripulação do petroleiro.

O navio, que se dirigia a Cuba, tinha como destino final a Ásia, depois de ter sido intermediado por vendedores cubanos, confirmou o alto funcionário, acrescentando que outras apreensões são possíveis nas próximas semanas, à medida que os EUA pressionam Maduro.

O navio, chamado Skipper, transportava petróleo bruto venezuelano, disse o funcionário.

O Skipper, anteriormente designado Adisa, foi sancionado pelos EUA em 2022 por facilitar o comércio de petróleo para o Hezbollah e para a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão - Força Quds.

Em resposta a perguntas da CNN, Trump disse que não tinha falado com Maduro recentemente e recusou-se a dizer quem é o proprietário do petroleiro apreendido.

O governo venezuelano veio “denunciar veementemente” a apreensão e descreveu o movimento como um “ato de pirataria internacional” numa declaração desta quarta-feira.

“Nestas circunstâncias, as verdadeiras razões para a prolongada agressão contra a Venezuela foram finalmente reveladas”, indica o comunicado. "Não se trata de migração. Não é o tráfico de drogas. Não é a democracia. Não se trata de direitos humanos. Sempre se tratou da nossa riqueza natural, do nosso petróleo, da nossa energia, dos os recursos que pertencem exclusivamente ao povo venezuelano."

A Venezuela prometeu recorrer da apreensão a “todos os organismos internacionais existentes”.

Os Estados Unidos estão há meses em campanha de pressão sobre a Venezuela, que incluiu o envio de milhares de tropas e um grupo de ataque de porta-aviões para as Caraíbas, ataques a barcos suspeitos de tráfico de droga e repetidas ameaças contra Maduro. Até agora, as Forças Armadas americanas mataram 87 pessoas em ataques que destruíram 23 alegados barcos de droga, e Trump tem sugerido repetidamente que a ação em terra poderá estar para breve.

A CNN informou que a administração Trump está a trabalhar em planos para o dia seguinte, caso Maduro seja deposto do poder, de acordo com dois altos funcionários da administração e outra fonte familiarizada com as discussões.

Maduro não se referiu ao petroleiro apreendido num discurso esta quarta-feira, que estava a ocorrer enquanto circulavam notícias sobre a ação dos EUA.

O petroleiro escondeu a sua localização, segundo imagens de satélite

De acordo com imagens de satélite e dados de navegação analisados pela CNN, o Skipper escondeu a sua verdadeira localização enquanto esteve atracado num terminal petrolífero venezuelano no mês passado.

Em 18 de novembro, o Skipper foi visto em imagens de satélite ancorado a cerca de 11 quilómetros da cidade costeira venezuelana de Barcelona, de acordo com uma imagem de satélite fornecida pela Planet Labs. Mas, ao mesmo tempo, o transponder do Sistema de Identificação Automática (AIS) do navio indicava que ele estava localizado a cerca de 900 quilómetros de distância, ao largo da costa de Georgetown, na Guiana.

Os analistas dizem que os petroleiros por vezes “falsificam” a sua localização AIS numa tentativa de esconder atividades questionáveis ou ilegais.

O petroleiro arvorava a bandeira da Guiana, apesar de não estar registado na Guiana, sublinhou o Departamento de Administração Marítima do país numa declaração publicada no Facebook.

Antes de chegar à Venezuela, o Skipper atracou no Egito, nos Emirados Árabes Unidos e em Hong Kong, de acordo com dados de navegação. No início de julho, o navio pareceu vaguear a menos de 24 quilómetros da costa do Irão durante vários dias.

Esta captura de ecrã retirada de um vídeo publicado pela procuradora-geral Pam Bondi a 10 de dezembro mostra as forças norte-americanas a apreenderem um petroleiro ao largo da costa da Venezuela (Pam Bondi/X)
Esta captura de ecrã retirada de um vídeo publicado pela procuradora-geral Pam Bondi a 10 de dezembro mostra as forças norte-americanas a apreenderem um petroleiro ao largo da costa da Venezuela (Pam Bondi/X)

Cuba, o próximo destino do petroleiro, já está a braços com alguns dos piores cortes de energia das últimas décadas, com apagões que se prolongam por horas, por vezes dias.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba apelidou a apreensão de uma “escalada agressiva” numa publicação no X.

A infraestrutura energética envelhecida da ilha comunista depende da importação de petróleo, muitas vezes sob a forma de doações de aliados como a Venezuela, a Rússia e o México.

Patrick Oppmann, Stefano Pozzebon, Michael Rios, Isaac Yee, Thomas Bordeaux, Sandi Sidhu e Lex Harvey da CNN contribuíram para esta reportagem

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