Sem cessar-fogo, não há referendo, e sem referendo não há concessões territoriais por parte da Ucrânia e, em última análise, não há acordo. Portanto, estamos de volta ao carrossel diplomático, dando cada vez mais tempo à Rússia para atacar
O encontro entre os presidentes Donald Trump e Volodymyr Zelensky, o sexto num ano em que as relações entre os dois países se desgastaram até ao ponto de rutura e exigiram reparos regulares e minuciosos, pareceu, pelo menos superficialmente, ter sido um dos melhores encontros cara a cara.
O ambiente, quando saíram da sala de jantar de Mar-a-Lago, era conciliador. Zelensky vestiu um fato - o mesmo preto austero que tinha usado na Casa Branca em outubro - numa declaração de compromisso. Trump classificou a reunião de “fantástica” e perguntou se Zelensky e o seu general, que “parece saído de um filme”, tinham gostado da comida. Estranho, sim, mas muito longe da humilhação pública do líder ucraniano que aconteceu na Sala Oval em fevereiro.
E, no entanto, sob o véu da polidez, a retórica do presidente dos EUA sugere que a sua posição padrão nas negociações continua a ser pressionar Kiev, ao mesmo tempo que tenta apaziguar Moscovo.
Relativamente à questão mais difícil de todas - o território - Trump sugeriu, a certa altura, que este poderia ser “tomado” nos próximos meses, perguntando se “não seria melhor fazer um acordo agora?”. Foi uma frase assustadoramente semelhante à do assessor do Kremlin Yuri Ushakov, quando resumiu uma chamada telefónica entre o presidente Vladimir Putin e Trump no domingo: “Dada a situação na linha da frente, faria sentido que o regime ucraniano adotasse esta decisão em relação ao Donbass sem demora”.
Esta repercussão não passou despercebida no Kremlin. O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, observou num telefonema a jornalistas que Trump “aparentemente lembrou-lhes [aos ucranianos] que a Ucrânia está a perder terreno e vai continuar a perdê-lo”. Enquanto as forças russas continuam a avançar na região oriental do Donbass, Putin exige que a Ucrânia ceda terras que a Rússia ainda não conquistou.
O Kremlin já estaria confiante no seu poder de influenciar o presidente dos EUA. Na preparação da cimeira do Alasca entre Trump e Putin, em agosto, os líderes europeus trabalharam arduamente para convencer Trump da necessidade de um cessar-fogo antes das negociações de paz, algo que Moscovo sempre rejeitou. No final, foi Putin que ganhou a discussão e, mais de quatro meses depois, Trump parece continuar a apoiar a sua posição.
"Ele [Putin] sente que estão a lutar para parar e, depois, se tiverem de recomeçar, o que é uma possibilidade, ele não quer estar nessa posição. Eu compreendo isso", disse Trump no domingo.
A aparente retirada de um cessar-fogo da mesa de negociações criou agora um novo impasse. Embora a Ucrânia pareça cada vez mais aberta à discussão de concessões territoriais, Zelensky deixou claro que desistir ou alterar o estatuto do território ucraniano exigirá um referendo, algo que, segundo ele, não pode acontecer sem um cessar-fogo de pelo menos 60 dias.
Sem cessar-fogo, não há referendo, e sem referendo não há concessões territoriais por parte da Ucrânia e, em última análise, não há acordo. Portanto, estamos de volta ao carrossel diplomático, dando cada vez mais tempo à Rússia para atacar.
"A Rússia quer continuar a exercer pressão sobre nós. E como será essa pressão? Guerra, mísseis, artilharia", afirmou Zelensky em declarações aos jornalistas esta manhã. Enquanto Zelensky falava, a maioria das regiões ucranianas iniciou uma nova semana com apagões frequentes e mais de 9.000 casas na região de Kiev acordaram sem eletricidade.
Não é de estranhar, portanto, que o presidente ucraniano se tenha mexido desconfortavelmente de um pé para o outro enquanto ouvia Trump descrever Putin como “muito bom” na questão da central nuclear de Zaporizhzhia, que a Rússia tomou à força em março de 2022 e que ocupa desde então.
"O presidente Putin está, de facto, a trabalhar com a Ucrânia para a abrir. É um grande passo quando ele não está a bombardear a central", disse o presidente dos EUA.
De acordo com a Agência Internacional de Energia Atómica, a central de Zaporizhzhia está atualmente a ser alvo de reparações nas linhas elétricas próximas para evitar um acidente nuclear. Desde a ocupação russa, o fornecimento externo de energia da central foi cortado 12 vezes e, no início deste mês, o organismo de vigilância nuclear da ONU alertou para o facto de os constantes ataques de Moscovo às infraestruturas energéticas ucranianas constituírem também uma ameaça à sua segurança. “A instabilidade persistente na rede elétrica da Ucrânia continua a comprometer a segurança nuclear”, alertou o diretor-geral Rafael Grossi.
Numa questão crítica para a Ucrânia, houve um pequeno passo em frente: as garantias de segurança. Até agora, Kiev só tinha garantias verbais de que os EUA participariam nas garantias de segurança pós-guerra, depois de Trump ter mudado de posição em agosto. Agora, essas garantias estão por escrito, embora com uma data de expiração de 15 anos - que Zelensky quer que seja alargada - e ainda a precisar de aprovação do Congresso. As garantias não significariam tropas americanas no terreno, mas pelo menos haveria apoio à Europa se esta decidisse enviar as suas. “Vamos ajudar a Europa a 100%, tal como eles nos ajudariam a nós”, garantiu Trump.
No entanto, até que a Rússia e a Ucrânia se reúnam para conversações diretas, o que Zelensky espera que possa acontecer em janeiro, após mais uma ronda de discussões com os aliados, tudo isto é hipotético. Essa perspetiva pareceu ainda mais remota esta segunda-feira, depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, ter acusado Kiev de atacar uma das residências de Putin, prometendo que Moscovo iria “rever” a sua posição negocial como consequência. Zelensky rejeitou a acusação, classificando-a como “mais uma mentira” da Rússia.
Peskov, porta-voz do Kremlin, reiterou esta segunda-feira que a Rússia quer “a retirada das forças armadas do regime do Donbass para além das suas fronteiras administrativas”. Isto, claro, inclui território que a Rússia não conseguiu ocupar em quase quatro anos de guerra. E, em troca, Moscovo continua a receber elogios e aberturas diplomáticas da Casa Branca, com Trump a falar com Putin antes e depois do seu encontro com Zelensky.
O carrossel diplomático volta a acelerar até 2026, com reuniões a nível de conselheiros, seguidas de uma reunião da “Coligação dos Dispostos” em Paris, no início de janeiro, e depois uma potencial cimeira em Washington com Trump, indicou Zelensky esta segunda-feira. Entretanto, a administração Trump propôs que as discussões continuassem em vários grupos de trabalho, uma ideia apoiada por Moscovo.
No entanto, neste ciclo agora largamente previsível, não se pode excluir uma mudança repentina. Em outubro, um Trump frustrado impôs sanções aos gigantes russos do petróleo, uma medida que fez com que os preços do petróleo russo caíssem para o seu nível mais baixo desde a invasão em fevereiro de 2022.
"Talvez o cabo de guerra para Trump ainda não esteja perdido para a Ucrânia. Os líderes estão a reunir-se e as conversas continuam", escreveu Orysia Lutsevych, chefe do Fórum da Ucrânia no think tank Chatham House, com sede em Londres, numa publicação no X. O ex-diplomata russo Boris Bondarev adotou um tom menos otimista. “Se querem adiar alguma coisa por tempo indefinido, criem alguns grupos de trabalho”, observou.
*Kevin Liptak, Victoria Butenko, Darya Tarasova, Issy Ronald, Svitlana Vlasova, Mitchell McCluskey e Aditi Sangal contribuíram para este artigo