opinião
Gaspar Ferreira, , Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Ivan, o ginasta e o poder do prestígio

10 mar, 16:56

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

A Taça do Mundo de Ginástica Artística, que decorreu em Doha, no Qatar, ficou marcada pelo episódio em que o ginasta russo Ivan Kuliak se apresentou no pódio para receber a medalha de bronze de barras paralelas com uma letra Z inscrita no seu fato desportivo. O símbolo “Z“, do russo “Za pobedy” (Pela vitória),  aparece desenhado nos tanques e veículos militares russos que participam na invasão da Ucrânia, e esta associação gerou uma forte contestação à atitude do jovem atleta russo, que estava proibido de usar a bandeira da Rússia na sua indumentária.  

Não podemos ter a certeza, num momento tão sensível, de que Ivan Kuliak não tenha sido pressionado para usar este símbolo. Também é possível que o tenha feito por convicção patriótica e por um forte e genuíno sentimento de identidade ou de pertença, até porque o jovem atleta de 20 anos representa uma seleção nacional e recebeu formação militar no exército russo há apenas um ano. 

Contudo, nem sempre nos identificamos com o contexto em que vivemos. No conhecido filme animado "Antz", uma frágil formiga chamada Z, debate-se ativamente contra um sistema autoritário. Num primeiro momento, em conflito interno, tenta afirmar a sua individualidade e autodeterminação, mas não conseguindo superar as normas vigentes do formigueiro, acaba por fugir para procurar, sem sucesso, um lugar idílico: Insectopia. Quando regressa, é reconhecido como um herói, ainda que nada o justificasse senão o interesse político de promover a imagem de um "soldado" sobrevivente e legitimar o governo militar. No desfecho, Z, assustado com o projeto do General Mandíbula de afogar todo o formigueiro para criar uma sociedade de formigas perfeitas, consegue incentivar uma reação coletiva da colónia, impedindo "in extremis" a sua extinção.  

 Ivan, para se tornar herói, vive e emula os símbolos e os valores militares e nacionalistas de disciplina e de conquista, enquanto a formiga Z acaba, de forma mais ou menos acidental, por ganhar o prestígio suficiente para, num arremedo de altruísmo, conseguir alertar e mobilizar toda a comunidade, salvando-a de um holocausto cinicamente planeado. A psicologia, através dos estudos de Lorge, há muito que mostrou que o prestígio do autor afeta a perceção do valor das palavras e das ações. As afirmações assumem maior valor quando o protagonista tem maior prestígio. O formigueiro é salvo porque um ator prestigiado usa a força da sua palavra.   
 
Num conflito armado, o efeito psicológico de conformidade pode levar a que indivíduos normais inseridos em organizações burocráticas complexas, perpetrem atos desumanos. Em ambientes fortemente polarizados, os indivíduos são tentados, às vezes forçados mesmo, a tomar partido, a formar convicções, a desenvolver sentimentos e a envolver-se em grupos de pensamento ou de ação.  

  
Devido à invasão da Ucrânia, os ginastas da Rússia foram proibidos de participar nos eventos da Federação Internacional de Ginástica desde o dia 7 de março. A ética, a aplicação da ética no desporto pelos seus reguladores, pode despertar uma comunidade. E deve fazê-lo, sempre que for preciso, com coragem, em defesa dos indivíduos e da humanidade.  
 
Embora decorra a milhares de quilómetros, esta guerra pode afetar profundamente adultos, crianças e jovens, e a forma como pensam e sentem. A OPP disponibilizou um documento para ajudar pais e cuidadores a comunicar com as crianças e jovens, de forma a dar-lhes informação apropriada à sua idade, capacidade de compreensão e experiências, e a assegurar-lhes que se podem sentir seguras e protegidas (https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/doc_perguntas_respostas_guerra.pdf). 

 

 

 

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