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Há um "alto comandante" da Guarda Revolucionária do Irão disfarçado de "político" que pode deixar Trump numa "posição delicada"

20 abr, 23:13
Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf (à esquerda) ao lado do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, em Islamabad (AP)

O impasse nas negociações entre os EUA e o Irão está a levantar dúvidas quanto à liderança iraniana, havendo quem atribua este impasse à existência de um vazio de poder no comando do Irão. Mas há uma figura que, no entender dos especialistas, está a assumir o controlo da situação e pode deixar Donald Trump numa "posição delicada"

Afinal, com que Irão é que os EUA estão a negociar? A dúvida instalou-se assim que arrancaram as negociações em Islamabad, no Paquistão, com a composição da delegação iraniana a levantar suspeitas de uma eventual “conflituosidade de poder” dentro do regime, considera José Tomaz Castello Branco, especialista em relações internacionais.

Por um lado, há quem identifique na delegação iraniana “uma linha mais dura, encabeçada pelo general Ahmad Vahidi, comandante supremo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC)”, e, por outro, “uma linha mais diplomática, protagonizada por Mohammed Ghalibaf, presidente do parlamento, e pelo próprio Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão”.

“Eu, pessoalmente, não alinho muito na distinção entre linhas duras e linhas moderadas”, diz José Tomaz Castello Branco, sustentando que “qualquer destes dois grupos é muito pouco moderado”. “São ambos linhas duras e a ligação ao IRGC também é grande em ambos os lados.”

Exemplo disso é a figura de Ghalibaf: “Nós vemo-lo como presidente do Parlamento [iraniano], por isso achamos que ele é um político, mas Ghalibaf é um alto comandante da Guarda Revolucionária.”

Tiago André Lopes, também especialista em relações internacionais, caracteriza o regime do Irão como uma “estrutura tripartida”, composta pelo líder supremo - no caso, Mojtaba Khamenei, que representa a “estrutura formal eclesiástica” -, pelo governo, representado pelo presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, e pela Guarda Revolucionária.

É precisamente esta estrutura que está representada na delegação iraniana, segundo Tiago André Lopes, com o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, a representar o governo, e o presidente do parlamento, Mohammed Ghalibaf, a representar a Guarda Revolucionária - e, naturalmente, pelas suas ligações históricas, o próprio líder supremo do Irão.

Nos últimos dias, alguns analistas identificaram “mensagens contraditórias” na posição do Irão, nomeadamente em relação à reabertura do Estreito de Ormuz, anunciada pelo presidente dos EUA e logo confirmada por Abbas Araghchi. No dia seguinte, um porta-voz da Guarda Revolucionária anunciou que o Estreito de Ormuz tinha sido novamente encerrado e que só seria reaberto quando os EUA levantassem o seu bloqueio aos portos iranianos.

Segundo a revista The Economist, estas “mensagens contraditórias” por parte do Irão revelam que “está em curso uma luta pelo poder na República Islâmica”, comparando a atual situação política no Irão com “os primeiros meses caóticos da revolução iraniana de 1979”.

Embora admita que as declarações públicas do Irão nos últimos dias possam ser o “reflexo de dissidências internas”, José Tomaz Castello Branco não vai tão longe a comparar a atual situação com a revolução de 1979. “A seguir a essa revolução havia mais do que um partido a disputar o poder e, por isso, a tentar capturar e a tentar tomar conta do aparelho de Estado. Neste momento, a situação é um pouco diferente, porque o partido é todo ele o mesmo.”

“Agora, o que se pode estar a notar é uma disputa entre fações”, destaca José Castello Branco, que admite, ao mesmo tempo, que estas aparentes contradições possam ser uma resposta deliberada do Irão “ao estilo trumpista dos EUA”, lembrando que “Donald Trump vai dizendo coisas diferentes todos os dias, por vezes até no próprio dia”, e esta pode ser uma forma de o Irão manter também “algum suspense” nas negociações, como “moeda de troca”.

Tiago André Lopes considera que esta ideia de uma luta pelo poder interno no Irão não passa de uma “idiotice” criada pela imprensa israelita, depois de Israel ter “falhado o argumento da sublevação curda, que não aconteceu, e o argumento da unidade pan-árabe contra os persas, que também não aconteceu”.

“Essa é uma visão simplista e de quem não compreende o Irão”, critica Tiago André Lopes, apontando que o regime iraniano “sempre foi complexo” e composto por “várias alas”, argumentando que, “ao contrário do que se ouve muitas vezes, existe, de facto, uma ala moderada, uma ala mais legalista e mais processualista, e existe uma ala mais conservadora e até mais clerical”.

Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf (à esquerda), cumprimenta o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, em Islamabad, Paquistão, 11 de abril de 2026 foto AP

“As várias alas têm visões diferentes do processo político e do processo diplomático”, observa Tiago André Lopes, sublinhando que, apesar das diferentes perspectivas, “as declarações [do Irão] são todas muito coerentes” ao afirmarem que “o que está em causa é o interesse nacional iraniano”.

“A diferença é que, para Ghalibaf, as negociações têm de ser vistas como um processo de soma zero, ou seja, ou o Irão ganha ou o Irão perde - que é a visão da Guarda Revolucionária”, explica Tiago André Lopes. Do lado do governo, acrescenta, a ideia é “manter o contacto diplomático para que o Irão não se torne num Estado pária”. 

Perante estas duas perspetivas, “e em teoria, o desempate está nas mãos do líder supremo”, Mojtaba Khamenei, aponta Tiago André Lopes. “Todavia, uma vez que Khamenei também está ligado à Guarda Revolucionária, tal como Ghalibaf, é óbvio que neste momento quem define o ritmo da vida política do Irão é a Guarda Revolucionária.”

“Portanto, é a Guarda Revolucionária - que tem uma visão bastante mais conservadora deste processo - que está a determinar o ritmo das negociações”, reforça Tiago André Lopes.

Prova disso, segundo o especialista em relações internacionais, foi o facto de o Irão ter rejeitado participar em negociações com os EUA, depois de Trump ter anunciado a captura de um navio de carga com bandeira iraniana que tentou romper o bloqueio norte-americano do estreito de Ormuz.

“Se o Irão fosse um regime teocrático, a apreensão de uma embarcação em alto mar não era razão suficiente para suspender as negociações. (...) Mas num regime que, dentro do teocrático, também é militarista, a dimensão militar acabou por se sobrepor. E por isso é que se suspende a diplomacia, por causa de um crime de guerra”, argumenta Tiago André Lopes.

"Se Trump cumprir a sua promessa, será uma desgraça", afirma José Tomaz Castello Branco foto AP

Não havendo uma nova ronda negocial com o Irão, os EUA ficam “numa posição muito delicada”, diz José Tomaz Castello Branco, que acredita que Donald Trump, confrontado com esta posição iraniana, vai ser obrigado a “cumprir as suas promessas de voltar a bombardear o Irão”. 

“Não sei se é isso que ele [Trump] irá fazer, mas, se o fizer, será uma desgraça, até porque isso não o vai deixar em muito boa posição - não apenas do ponto de vista da opinião pública ocidental, mas também do ponto de vista interno do Irão”, assume José Tomaz Castello Branco.

Sem perspetivas de uma ronda negocial entre EUA e Irão para breve, mesmo com os esforços do Paquistão nesse sentido, mantendo o diálogo quer com um lado, quer com o outro, Tiago André Lopes deixa uma interrogação no ar: “O que é que acontece se o Paquistão desistir de mediar este conflito?”

Apontando que “Omã já desistiu” de participar na mediaçãoe admitindo que o Paquistão possa ir pelo mesmo caminho, e tendo ainda em conta a intransigência das partes beligerantes, Tiago André Lopes questiona que outro país pode vir a “oferecer-se para um processo que parece permanentemente contaminado”. Para o especialista, não será a Turquia a assumir esse papel, tendo em conta que Ancara “também tem uma relação complexa com estes Estados”.

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