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É mais um dia negro em Gaza: dezenas ou morrem à fome ou morrem a tiro quando procuram comida

3 ago 2025, 13:16
Fome em Gaza (Foto de Hamza Z. H. Qraiqea/Anadolu via Getty Images)
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São novos, mas velhos, episódios de desespero, disparos e subnutrição

Foram pelo menos os 23 palestinianos que foram mortos este domingo por tiros disparados por forças israelitas em vários pontos da Faixa de Gaza, quando tentavam aceder a locais de distribuição de ajuda humanitária. Os números são avançados por hospitais locais e confirmados por testemunhos recolhidos pela Associated Press.

“Não consegui parar para os ajudar por causa das balas”, conta Yousef Abed, que se encontrava a caminho de um centro de distribuição em Teina, a cerca de três quilómetros do posto de ajuda da Gaza Humanitarian Foundation (GHF), perto de Khan Younis. “Olhei em volta e vi pelo menos três pessoas no chão, a sangrar.”

O relato repete-se. Os tiros, dizem várias testemunhas, foram disparados enquanto multidões esfomeadas se aproximavam dos postos de entrega — muitos deles localizados em zonas militares controladas por tropas israelitas. “Estávamos a avançar. Eles dispararam. Fugimos. Algumas pessoas foram atingidas”, diz Hamza Matter, outro sobrevivente, este na zona de Netzarim, no centro da Faixa de Gaza.

Naquele ponto mais a norte, o Hospital Al-Awda recebeu cinco mortos e pelo menos 27 feridos. No extremo sul, em Rafah, o Hospital Nasser confirmou também a receção de corpos oriundos de Shakoush, zona a escassas centenas de metros de outro ponto da GHF. Mais a oeste, perto do corredor de Morag, outros nove palestinianos morreram enquanto aguardavam por camiões de ajuda que deveriam entrar por uma passagem fronteiriça israelita.

A GHF — uma fundação privada com financiamento norte-americano e israelita — opera desde há mais de dois meses como principal responsável pela logística da ajuda internacional. O acesso aos seus pontos de distribuição tem sido marcado por sucessivos episódios de violência, muitos dos quais com implicações letais. As autoridades hospitalares afirmam que os ataques se deram em trajetos para os centros, e não nas imediações diretas das estruturas.

O exército israelita (IDF) não confirmou os acontecimentos específicos deste domingo, mas tem admitido em ocasiões anteriores que os seus militares disparam para travar “movimentos caóticos de multidões” que se aproximam de posições estratégicas. Alega, no entanto, o exército, que os números avançados por fontes locais estão muitas vezes “inflacionados” — pelo Hamas —, embora não forneça contagens próprias.

Ao lado das mortes por bala, vão-se somando os óbitos silenciosos da fome. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, este controlado pelo Hamas, mais seis pessoas morreram nas últimas 24 horas devido a desnutrição severa. O número total de vítimas mortais da fome e subnutrição ascende agora a 175 desde o início da guerra, incluindo 93 crianças.

As Nações Unidas e várias agências humanitárias internacionais classificam a situação alimentar em Gaza como “crítica” e alertam para o risco de uma fome em larga escala. A Organização Mundial da Saúde descreve um “colapso total” dos sistemas de saúde e abastecimento, enquanto a UNICEF sublinha que as crianças enfrentam “níveis extremos de privação alimentar”, especialmente no norte do enclave.

De acordo com o Programa Alimentar Mundial, mais de meio milhão de pessoas vivem atualmente em condições de fome severa na Faixa de Gaza, sem acesso regular a água potável ou alimentos básicos. O número de mortes por desnutrição tem vindo a aumentar, sobretudo entre crianças e idosos, e os pontos de distribuição — poucos e sobrelotados — tornaram-se locais de risco, com registo frequente de incidentes violentos durante as entregas de ajuda.

Mesmo perante as imagens de corpos caídos junto aos camiões de ajuda — alguns cobertos com lençóis improvisados, outros simplesmente deixados no chão de terra batida — milhares continuam a arriscar o percurso. O risco de serem atingidos já não pesa mais do que a certeza de não comer. 

Em filas que começam de madrugada, há quem traga crianças pela mão, quem avance com passos trémulos que mal obedecem ao corpo — não é uma narrativa, é a crueza das imagens que o mundo vê —, quem repita a tentativa pela quarta ou quinta vez (quase todas sem gorar comer) na mesma semana. A fome parece mais resistente do que o medo.

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