Os EUA ponderam bloquear os portos do Irão e controlar o tráfego no Estreito de Ormuz para cortar receitas energéticas, numa operação complexa e de alto risco militar. A desminagem do estreito, essencial para a navegação global, é difícil e limitada pelos meios disponíveis, podendo exigir apoio de aliados devido à sofisticação das minas iranianas
Seis semanas após o início da guerra com o Irão, o presidente Donald Trump está a atribuir à Marinha dos Estados Unidos as tarefas mais difíceis do conflito: bloquear os portos do Irão e limpar o estratégico Estreito de Ormuz de quaisquer minas iranianas.
A ordem de bloqueio aplicar-se-ia a todos os portos iranianos, tanto dentro como fora do estreito, a partir das 10h (hora da costa leste dos EUA) de segunda-feira, segundo o Comando Central dos EUA (CENTCOM). O Irão tem mantido um controlo apertado sobre o estreito - uma passagem crítica para o comércio global de energia - desde o início da guerra.
Trump indicou que a missão teria um alcance ainda mais amplo, possivelmente bem para além do Golfo Pérsico.
“Também instruí a nossa Marinha a procurar e intercetar qualquer embarcação em águas internacionais que tenha pago uma taxa ao Irão. Ninguém que pague uma taxa ilegal terá passagem segura em alto-mar”, afirmou no domingo, referindo-se à decisão de Teerão de cobrar pela passagem segura.
O objetivo da missão é maximizar a pressão sobre o Irão, estrangulando o fluxo de receitas provenientes do comércio energético. Mas resolver a crise energética global resultante desta guerra exigirá outra tarefa difícil: limpar quaisquer minas marítimas que o Irão tenha colocado.
No sábado, Trump afirmou que a Marinha já tinha iniciado operações de desminagem no estreito. O CENTCOM confirmou, dizendo que dois contratorpedeiros com mísseis guiados entraram no estreito para começar a “criar condições para a remoção de minas”.
Estas missões marcam uma mudança neste conflito, do ar para o mar. Até agora, a guerra tem sido conduzida sobretudo por via aérea, embora um submarino dos EUA tenha afundado uma fragata da marinha iraniana ao largo do Sri Lanka nos primeiros dias do conflito.
Aeronaves navais a operar a partir de porta-aviões também têm estado envolvidas.
Mas essas missões não são tão complexas, nem tão arriscadas, como aquelas que Trump está agora a exigir à Marinha.
Aqui está o que está em causa.
O que é um bloqueio?
Um bloqueio é tanto uma ferramenta de guerra económica como de guerra cinética.
O Manual de Newport sobre o Direito da Guerra Naval define um bloqueio como “a captura de contrabando e a captura ou destruição de bens inimigos encontrados no mar”.
“Estes métodos negam ao inimigo a possibilidade de obter receitas económicas das suas exportações e os benefícios das importações que sustentam o seu esforço de guerra”, lê-se no manual.
Para ser legal, a imposição de um bloqueio deve cumprir certas regras, incluindo:
• Deve ser declarado e notificado, ou seja, devem ser emitidos avisos aos navios que possam ser afetados.
• Deve ser eficaz, o que significa que os EUA devem ter navios e aeronaves suficientes para o impor.
• Deve ser imparcial, afetando embarcações de qualquer nação.
• Não pode visar exclusivamente populações civis, embora danos colaterais sejam aceitáveis.
• Não deve bloquear o acesso a portos neutros e não pode bloquear um estreito, como o de Ormuz, que Trump disse manter aberto à navegação internacional não relacionada com o Irão.
Conseguem os EUA fazê-lo de forma eficaz?
Bloquear os portos do Irão - quase todos situados no Golfo Pérsico a partir do Estreito de Ormuz - a petroleiros e outras embarcações comerciais seria “procedimentalmente difícil, mas possível se os EUA tiverem superioridade marítima”, afirma o analista Carl Schuster, antigo capitão da Marinha dos EUA.
E isso pode não ser o caso.
O Irão mantém capacidade de resposta com minas, um número desconhecido de pequenas embarcações com mísseis, drones de superfície e aéreos, mísseis de cruzeiro baseados em terra e mísseis antiaéreos portáteis que podem atingir helicópteros e caças que protegem os navios, segundo analistas.
Yu Jihoon, investigador do Instituto Coreano de Análises de Defesa e antigo oficial de submarinos sul-coreano, classifica o bloqueio como “de alto risco” devido a essas capacidades.
“Se o Irão considerar isto uma violação da sua soberania ou uma expansão de facto da guerra marítima, a probabilidade de um conflito militar local pode aumentar”, afirma.
James Stavridis, almirante reformado da Marinha dos EUA, refere que o Pentágono precisaria de dois grupos de ataque de porta-aviões e cerca de uma dúzia de navios de superfície fora do Golfo para patrulhar a entrada do Estreito de Ormuz.
Dentro do Golfo, seriam necessários pelo menos seis contratorpedeiros, além do apoio de marinhas aliadas como as dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita.
“Quer-se tentar fechá-lo dos dois lados”, afirma.
Schuster explica que a Marinha dos EUA treina equipas de abordagem com cerca de 10 a 14 elementos para assumir o controlo de navios mercantes. Cada equipa inclui um “oficial de convés”, que atua essencialmente como capitão do navio após a tomada de controlo e o conduz para um porto ou fundeadouro para detenção.
Mas tudo isto leva tempo.
De seis contratorpedeiros no estreito, dois seriam usados para abordagens e quatro para proteção contra tentativas iranianas de interferência.
Esses dois navios poderiam apreender até seis embarcações por dia.
Antes da guerra, cerca de 130 navios por dia atravessavam o estreito, por onde passava cerca de um quinto do petróleo e gás mundiais.
O que é o "Direito de Presa"?
Jennifer Parker, do Lowy Institute e antiga oficial da Marinha australiana, afirma que a abordagem de apreensão seletiva é mais provável do que um bloqueio total.
Este método enquadra-se no chamado “direito de presa”.
Segundo o Manual de Newport, os “beligerantes” podem capturar navios mercantes inimigos e bens fora de águas neutras. Também podem inspecionar, desviar ou capturar navios “neutros” se transportarem contrabando”.
Navios neutros podem ainda ser atacados se “contribuírem efetivamente para o esforço de guerra do inimigo”.
“Assim, em vez de um bloqueio (como foi referido), o mais provável é vermos uma interferência seletiva no tráfego marítimo ao abrigo do direito de presa, para influenciar as rotas de navegação, reduzir o controlo iraniano e gerar alavancagem económica”, escreveu Parker na rede social X.
Historicamente, os bloqueios eram implementados perto das costas de um país, mas os meios modernos de inteligência, busca e reconhecimento tornam possíveis operações a maior distância, explica Alessio Patalano, professor de guerra e estratégia no King’s College London.
Também é possível iniciar as operações mais longe do Irão e depois aproximar-se gradualmente, conforme as condições o permitam, acrescenta.
Isto impediria o Irão de recorrer imediatamente às suas vantagens em embarcações pequenas e armamento de curto alcance, afirma ainda.
Minas e desminagem
Pouco depois do início da guerra, duas fontes familiarizadas com os serviços de informações dos EUA disseram à CNN que o Irão tinha começado a colocar um pequeno número de minas no Estreito de Ormuz.
Dois contratorpedeiros norte-americanos - o USS Michael Murphy e o USS Frank E. Peterson - atravessaram o estreito durante o fim de semana, mas Schuster considera que é improvável que estivessem a realizar qualquer operação real de desminagem, não sendo essas as plataformas mais adequadas para esse trabalho.
O mais provável, afirma, é que tenham atravessado o estreito para demonstrar que a navegação era possível e que não existiam minas naquela zona.
O trabalho efetivo de desminagem deverá ser realizado por drones subaquáticos, navios de combate litoral equipados com sistemas de contramedidas contra minas e helicópteros, explica Schuster.
As minas existem em muitas formas diferentes, acrescenta, e algumas podem não ter sido detetadas nem ativadas pelos navios de guerra norte-americanos.
Entre as que o Irão poderá utilizar no estreito estão:
• Minas de contacto com espigões, como as que aparecem em filmes da Segunda Guerra Mundial.
• Minas de influência ativadas pela eletricidade estática gerada pelos navios ao moverem-se na água salgada.
• Minas magnéticas que reagem a alterações na “assinatura magnética” da água quando os navios passam.
• Minas acústicas que reagem ao ruído produzido pelos navios.
• Minas de pressão que detonam quando a pressão da água atinge níveis que correspondem ao tipo de navio que pretendem destruir.
Algumas minas mais complexas combinam vários destes mecanismos, tornando-as particularmente difíceis de neutralizar, segundo Schuster.
E algumas minas avançadas têm ainda contadores que permitem a passagem de um determinado número de navios antes de detonarem.
“Estas minas tornam muito difícil determinar se todas as minas de um campo minado foram detonadas ou neutralizadas”, afirma.
As minas são combatidas de duas formas principais: varredura e caça, conforme explica Schuster.
No caso de minas ancoradas, a varredura utiliza mecanismos que cortam os cabos que as ligam ao fundo do mar. As minas sobem então à superfície, onde podem ser destruídas.
Para minas de fundo, os navios de desminagem rebocam equipamentos que imitam as assinaturas acústicas, elétricas ou magnéticas dos navios, fazendo-as detonar em segurança.
No entanto, as técnicas de varredura não funcionam contra minas complexas e minas de pressão, segundo Schuster.
Estas podem ser detetadas por sonar em drones subaquáticos ou por lasers instalados nesses drones ou até em helicópteros, sendo depois destruídas em segurança.
Analistas sublinham também que a capacidade de desminagem dos EUA, por si só, é limitada.
A Marinha dos EUA desativou no ano passado os seus quatro navios especializados em desminagem que estavam baseados no Bahrein, no Golfo Pérsico.
As tarefas de desminagem passaram para três navios de combate litoral equipados com sistemas de contramedidas contra minas, mas a localização dessas embarcações não foi divulgada. Dois deles foram vistos em Singapura no mês passado.
Os analistas afirmam que Washington poderá ter de recorrer a aliados para garantir uma limpeza eficaz de minas no Estreito de Ormuz.
“Esta é uma área em que a Marinha dos EUA provavelmente dependerá mais de aliados e parceiros do que se imagina”, conclui Patalano.