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"A Europa vai ter de negociar com a Rússia. Não há outro caminho"

4 jun, 09:00
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Numa altura marcada por múltiplas frentes de tensão internacional - da guerra na Ucrânia ao conflito no Médio Oriente, passando pelo debate sobre o futuro da NATO e da defesa europeia -, Henrique Gouveia e Melo estreia o seu novo espaço de comentário semanal no "Prime Time" da CNN Portugal, "Entre Dois Mundos", onde analisa os riscos de escalada global, o papel dos Estados Unidos e da Europa e os equilíbrios cada vez mais frágeis da ordem internacional. O almirante defende que a dissuasão é hoje mais decisiva do que nunca, e deixa o alerta que a estabilidade global depende de decisões políticas capazes de evitar ruturas irreversíveis nas principais potências envolvidas

A guerra na Ucrânia sobe agora a outro patamar de atenção se tivermos em conta este último alerta do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Numa audiência no Congresso, Rubio acaba de avisar que o risco de escalada na Ucrânia é hoje maior do que nos últimos dois anos. Por outras palavras, está a falar de risco nuclear?

Pode estar a falar de risco nuclear, mas não me parece que seja um risco verdadeiramente provável. O que acontece é que a Rússia está, neste momento, num atoleiro na Ucrânia. Não consegue ganhar terreno, também não está a perder terreno, mas está numa situação militar difícil de ser sustentada, em termos logísticos e até em termos económicos.

Ainda hoje há notícias de que o défice russo está a aumentar e de que, economicamente, será muito difícil continuar a sustentar este esforço de guerra.

A Europa substituiu os Estados Unidos no financiamento à Ucrânia e, com isso, a Ucrânia conseguiu sustentar-se e recuperar o bocado da falta de apoio que teve dos Estados Unidos com o início da administração Trump. É isso que, de alguma forma, está a influenciar os acontecimentos.

Quais são os três perigos, os três cenários a evitar? A Rússia ter uma vitória estratégica, que seria terrível para a Europa. A Europa iria sentir imediatamente as repercussões disso e, além disso, uma mudança do sistema internacional. A Rússia ter uma derrota pesada, com mudança de regime, com eventual pulverização da própria Federação Russa, o que seria perigoso face à capacidade nuclear existente na Rússia. E, por fim, a possibilidade intermédia de o atual regime russo sentir-se encurralado e tentar usar uma arma nuclear tática para conseguir atingir os seus objetivos.

A Europa - e os Estados Unidos e a NATO, mas essencialmente a Europa - têm de navegar em linhas muito estreitas e muito cuidadosas, de maneira a ir desgastando a capacidade russa, mas sem levar a Rússia a um ponto de rutura, porque, se levar a Rússia a um ponto de rutura, pode ter uma destas consequências.

Voltamos, de certa forma, àquela máxima que, na altura, foi amplamente criticada pelo consenso europeu, quando o presidente Emmanuel Macron diz que a Rússia não poderia sair humilhada deste conflito. E a verdade é que, quando olhamos para os acontecimentos desta semana, vimos um dos maiores ataques de sempre que a Rússia conduziu na Ucrânia, mas que, dado o contexto atual, tendo em conta a posição económica, mas também as dinâmicas que estão a acontecer no campo de batalha, pode soar diferente desta vez. A minha pergunta para si é: quão provável é agora o uso de uma arma tática por parte da Rússia?

Eu julgo que ainda estamos no campo da retórica. O uso de uma arma tática no mundo, neste momento, tem um significado muito grande em termos do que são os equilíbrios internacionais, e não me parece que seja exequível. Não só por causa da pressão da Europa e dos Estados Unidos, mas também da própria pressão da China, que quer evitar, a todo o custo, um cenário destes.

Portanto, não me parece que a Rússia vá fazer isso. A Rússia, de forma periódica, quando está em momentos de maior dificuldade, vem sempre acenar com a utilização da arma nuclear tática. A Europa já desmontou diversas vezes esse tipo de raciocínio e de cenário extremista.

No entanto, no fim, vamos ter de negociar com a Rússia. Eu julgo que não há outro caminho. Porque não negociar com a Rússia pode significar o colapso do regime russo, com uma implosão interna, e não sei se isso será muito bom para a Europa e para a segurança internacional no futuro.

Pode estar a existir uma mudança de ótica por parte dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, as declarações iam num sentido de algum desligamento do processo negocial, mas Marco Rubio veio dizer que os Estados Unidos continuam interessados em conduzir essas negociações, apesar das dificuldades, porque as partes não estão a ceder, sobretudo o lado russo. Rubio fala também no desbloqueio de verbas para a Ucrânia há muito congeladas. Pode estar a existir uma mudança de paradigma do lado norte-americano?

Sim, julgo que sim. O que aconteceu foi que, no início da administração Trump, houve uma estratégia de enfraquecimento da posição ucraniana, no sentido de forçar uma negociação com a Federação Russa com cedências fortes da Ucrânia.

A Europa, percebendo o risco que isso significaria em termos estratégicos, e até para o território europeu, substituiu-se de alguma forma aos Estados Unidos.

Os Estados Unidos, não tendo conseguido fazer essa negociação através do enfraquecimento da posição ucraniana, podem agora ser tentados a fazer um processo de negociação através do enfraquecimento progressivo da Federação Russa.

E o aviso de que vão voltar a dar apoio económico e militar à Ucrânia pode fazer parte dessa estratégia.

A Rússia também perdeu o ímpeto que tinha há cerca de seis meses no campo de batalha.

E acho que, neste momento, estão a criar-se condições para que a liderança russa comece a pensar seriamente que é melhor fazer um bom acordo do que continuar neste pântano ou acabar por destruir o regime por dentro.

Vamos ao ataque ucraniano com drones a São Petersburgo, com o lado simbólico que tem: foi na cidade natal de Vladimir Putin e aconteceu horas antes do arranque do Fórum Económico Internacional, que a Rússia tenta transformar num momento de afirmação. É mais um sinal de como a Ucrânia conseguiu exportar a guerra para lá das suas fronteiras, num momento em que a dinâmica no campo de batalha está estagnada?

Sim. A Ucrânia desenvolveu muito a sua capacidade de drones. Para terem uma ideia, há cerca de um ano e meio produzia alguns milhares de drones e, no último ano, produziu 2,4 milhões de drones. Isso mudou muito o campo de batalha.

De facto, essa situação deu uma vantagem tecnológica e uma capacidade tecnológica à Ucrânia, apesar de a Federação Russa também, de alguma forma, acompanhar. Mas a Ucrânia tem mostrado uma grande capacidade, claro, apoiada pelo Ocidente.

Hoje é comum a Ucrânia conseguir fazer ataques em penetração profunda no território russo. Eles usam duas metodologias diferentes. Uma delas são drones com grande capacidade de autonomia, que fazem percursos na ordem dos 3 a 4 mil quilómetros. Outra são drones que levantam voo do próprio território russo, através de células infiltradas, para atacar infraestruturas.

O Financial Times avançou esta semana que os Estados Unidos estão a considerar expandir a colocação de armas nucleares na Europa, sobretudo nos países bálticos. A Polónia tem feito muita diplomacia nesse sentido. Reforçar o flanco leste com este tipo de capacidades não pode contribuir para uma escalada?

Não contribuiria, pelo contrário, porque tem um efeito dissuasivo muito forte. Se a Rússia se livrasse do atoleiro em que está metida na Ucrânia, o mais provável era atacar os países bálticos.

Os Estados Unidos fazem uma jogada de xadrez com muita precisão ao sinalizarem o reforço da presença nuclear em bases nos países bálticos. O que é que isso significa? É dizer à Rússia 'nem pensem nisso', porque isso é começar a jogar num nível muito mais elevado de conflitualidade. Isso chama-se dissuasão e é isso que os Estados Unidos estão a fazer.

Houve muitas críticas à administração de Trump, mas o que me parece é que a administração de Trump já percebeu que não conseguiu enfraquecer suficientemente a posição ucraniana para gerar uma negociação com cedências. E, portanto, a melhor opção agora, face também à posição europeia, pode ser reforçar essa capacidade e tentar levar a Rússia a negociações sérias e profícuas para uma paz futura.

Nesta tentativa que a Europa está a fazer de reatar comunicações com Moscovo, a estratégia ainda não está totalmente concertada, porque a Europa ainda quer decidir quem será o enviado especial para ter essas conversas com Moscovo. Faz sentido a Europa conduzir um processo paralelo, se houver um processo conduzido pelos Estados Unidos, ou deve estar na mesma sala que os norte-americanos?

Eu acho que deve estar na mesma sala que os norte-americanos. No entanto, se calhar, para entrar nessa sala, tem de começar a ter um processo autónomo.

O problema é que a Europa foi completamente posta de parte no início da administração Trump nestas negociações. Mas, ao reagir, ao financiar a capacidade ucraniana e ao reagir, ganhou, de alguma forma, alguma autonomia estratégica.

Agora, é importante perceber que essa autonomia estratégica, se não for também enquadrada dentro do que é a NATO e enquadrada com os Estados Unidos, pode ser negativa no futuro.

Eu não defendo uma autonomia estratégica fortíssima da Europa, porque o mundo já é multipolar e o mundo ocidental vai-se fragmentar. As administrações passam. Os povos ficam, as culturas ficam, e há muita coisa que nos une na cultura ocidental. 

Um exército europeu, sim ou não?

Na minha opinião, não. Uma coisa é reforçar a capacidade europeia dentro do quadro da grande aliança ocidental; isso é importante. Um exército europeu, comandado por quem? Com que autonomia estratégica? Com que soberanias? As soberanias mais pequenas serão afetadas, as capacidades estratégicas dessas soberanias serão afetadas.

Eu acho que isso seria mais divisivo da Europa, porque relembra os problemas antes da Primeira Guerra Mundial, do que de uma Europa unida, que deve estar unida aos Estados Unidos, porque só assim é que o Ocidente vai conseguir resistir à ameaça estratégica que a China faz e que, de alguma forma, constitui também com a Federação Russa, com o Irão e com outros atores internacionais.

Portanto, a alternativa será sempre o reforço da NATO?

Parece-me que essa é a alternativa. Aliás, a administração Trump, nas suas ações, conseguiu uma coisa verdadeiramente inédita. A Europa esteve, desde a Segunda Guerra Mundial, à boleia dos Estados Unidos e achava que, estando à boleia dos Estados Unidos, conseguia ter um papel de relevo nas decisões da Aliança. E depois percebeu que não tinha esse papel e que estava até vulnerável dentro do espaço europeu.

Foi isso que nós agora percebemos. Mas podemos emendar de duas formas: ou criar um novo núcleo de poder europeu desligado dos Estados Unidos, ou reforçar o pilar europeu dentro do núcleo conjunto com os Estados Unidos.

E, como eu digo, as administrações passam. O que não passa são as culturas, as relações entre os povos, as relações comerciais e económicas e a interligação cultural e a dinâmica dos povos que já estabelecemos há dezenas e centenas de anos.

Desde a invasão da Ucrânia, assistimos a uma mudança de paradigma. Isso traduz-se nos números. De facto, parte desta discussão de maior autonomia em relação aos Estados Unidos, no quadro da NATO e da União Europeia, vê-se nestes números. É uma estimativa para 2025 de investimento em defesa de 380 mil milhões de euros, que já representa um salto de mais de 65% em quatro anos. Está-se a gastar muito neste momento?

Está-se a gastar o que é necessário. Melhor do que combater é prevenir o embate ou prevenir o conflito. Isso é dissuasão. O que nós estamos a fazer é puramente uma manobra de dissuasão para evitar um problema na Europa.

De facto, a Europa e os Estados Unidos juntos gastam cerca de 1,4 biliões de euros. A Rússia gasta 150 mil milhões. Portanto, não consegue competir. É incomparável. Mesmo a própria China são cerca de 350 mil milhões. Portanto, todos os BRICS juntos são 800 mil milhões. Só a NATO são 1,4 biliões. Portanto, não é um problema de recursos, é mais um problema de vontade.

Eu posso ter muita capacidade, posso fazer muitos investimentos, mas se a minha população, o meu sistema político, não tiver verdadeiramente vontade de criar uma defesa capaz e de executar missões no momento certo, posso investir tudo o que tiver, mas não consigo ter esse poder. Tem de haver vontade. O que faltou muitas vezes na Europa foi vontade.

O recrutamento de militares em Portugal, por exemplo, é muito baixo. E na Europa há uma grande dificuldade no recrutamento. Portanto, estamos a falar de vontade, não estamos a falar de capacidade.

Para 2030, a estimativa é que esta despesa represente entre 2,5% e 3,5% do PIB europeu. No que é que os exércitos europeus estão mais a gastar?

Nós temos muitas dificuldades na defesa antiaérea e antimíssil. Hoje, os mísseis tornaram a distância irrelevante. Estar a 2 mil quilómetros da fronteira de combate é praticamente a mesma coisa que estar junto à fronteira.

A Europa tem uma grande lacuna na defesa antiaérea e antimíssil. Os drones fazem parte desse racional, mas também mudaram a filosofia da guerra, tornando-a mais económica e mais automatizada, com menos pessoas.

A guerra eletrónica, a capacidade de vigilância eletrónica, a capacidade espacial, a ciberdefesa e, por fim, a reposição de stocks de munições e capacidades. Nós tínhamos os stocks completamente vazios e ainda tivemos de entregar alguns à Ucrânia. Portanto, temos de repor rapidamente esses stocks porque a dissuasão depende da capacidade de iniciar o combate, mas também de o sustentar durante algum tempo.

Quem é que está a liderar esse esforço de investimento?

A Finlândia e a Suécia, naturalmente, por terem aderido à NATO, tiveram de reforçar as suas capacidades.

A Polónia tem uma história que a leva a investir fortemente na defesa, precisamente para criar dissuasão. A Alemanha está a investir fortemente. Tem o objetivo não só de ter capacidade militar, mas também de reforçar a sua indústria. A França e o Reino Unido também fazem grandes investimentos. Os outros países vão acompanhando.

Mas os países de fronteira, os bálticos, a Suécia e a Finlândia, são os que estão na linha da frente e sentem isso de forma muito diferente.

Quem está a ganhar a guerra no Irão? Esta semana foi bastante significativa do ponto de vista dos desenvolvimentos no processo negocial e dos bastidores diplomáticos. O cessar-fogo tem sido marcado por escaramuças recorrentes no Estreito de Ormuz. O Irão ainda hoje lançou contra o Kuwait um dos seus maiores ataques desde o início desta guerra. Apesar da crescente pressão israelita no Líbano, Trump está confiante num acordo que será alcançado algures na próxima semana e até espera encontrar-se com Khamenei filho. Este sinal mostra que os Estados Unidos estão realmente empenhados em manter o processo negocial?

Estão empenhados porque Trump tem um problema que são as eleições. Após novembro, não sei se mantém o mesmo empenho, mas até novembro vão.

A administração Trump foi arrastada para uma aventura por Benjamin Netanyahu, que é um ultranacionalista que deseja um grande Estado de Israel. E conseguiu convencer, pela primeira vez, uma administração a apoiar um projeto dessa natureza. Claro que, no Médio Oriente, havia a necessidade de conter o poder emergente do Irão - poder balístico, eventualmente nuclear e através de proxies.

E os proxies não eram só contra Israel. Há dois proxies. Um não é proxy, porque é o próprio Irão que está no Estreito de Ormuz, mas há o Iémen, que está à entrada do Mar Vermelho. Se se fecharem estas duas rotas, o mundo tem um abalo gigantesco. Já está a ter um abalo em termos de segurança energética. Há, por isso, uma grande necessidade de negociar com o Irão.

O que aconteceu foi que Netanyahu deve ter convencido a administração Trump de que, com bombardeamentos e pressão, o Irão mudaria de regime. Isso não aconteceu e a situação acabou por gerar um efeito bumerangue através da pressão no Estreito de Ormuz.

O Estreito de Ormuz tem um significado gigantesco para o mundo global, mas também para o mundo ocidental. Podemos ser arrastados, todos nós, a NATO, para um conflito no Estreito de Ormuz se não houver um processo negocial. Porque nós não podemos permitir que aquele Estreito continue fechado e continue sob posse e hegemonia de um país que é o Irão. 

O Irão também percebe que tem limitações nessa capacidade. Espero que, até novembro, se consiga avançar para um processo negocial. Após novembro, não sei o que poderá acontecer.

O Irão voltou a agitar a ameaça de encerrar o Estreito de Bab el-Mandeb, onde os houthis podem cortar o corredor do Mar Vermelho e agravar o escoamento energético global.

Há aqui uma questão interessante, porque existem dois corredores económicos. Um é o IMEC - Índia, Médio Oriente e Europa - e o outro é a Rota da Seda. Estes dois estreitos vão afetar sobretudo o corredor Índia-Médio Oriente-Europa.

A Europa tem de estar verdadeiramente preocupada com isto, porque isto altera a economia e a logística global no curto e médio prazo, se não houver negociação que leve à paz e à abertura destas rotas.

Foram também conhecidos detalhes do telefonema entre Trump e Netanyahu. O presidente dos Estados Unidos confirmou informações avançadas pelo Axios e não negou a linguagem utilizada, incluindo a referência a Netanyahu como “completamente louco”. Acha que Trump está a construir uma narrativa de saída que o apresente como alguém que tentou controlar Netanyahu e privilegiar a diplomacia?

Na minha opinião, é precisamente isso que está a acontecer. É muito difícil acreditar que uma conversa entre dois aliados saia para o espaço público, a não ser que haja uma intenção. Eu julgo que a intenção é política. A popularidade de Trump está a descer nos Estados Unidos, esta guerra é verdadeiramente impopular nos Estados Unidos, e ele tem que dar um sinal, pelo menos até novembro, que não está a mando de Netanyahu.

Não sei até que ponto é uma encenação elaborada ou uma encenação de baixa qualidade, porque na realidade são os atos e os factos que nós vamos ver a partir de agora que vão contar na realidade. 

O que vimos esta semana foi Trump a surgir como alguém capaz de conter Israel e também o Hezbollah. Israel não pode interpretar isso como um sinal de que consegue obter mais concessões sempre que aumenta a pressão?

Estes processos são muito dinâmicos e no processo dinâmico há um conjunto de jogadas, como se fosse um jogo de xadrez, com múltiplas jogadas em simultâneo e um conjunto de movimentos que é muitas vezes difícil perceber por quem está de fora. Nós fazemos muitas vezes leituras rápidas destes movimentos. Eu julgo que tem de passar algum tempo para se perceber verdadeiramente o que é que está em jogo. 

Agora, os Estados Unidos nunca vão proteger o Hezbollah. Isso está fora de questão. E o grande projeto de Israel é, eventualmente, ficar com a Cisjordânia, com a faixa de Gaza e com alguns pontos dos países limítrofes, que controlem, de alguma forma, militarmente, o acesso ao território de Israel, porque o território de Israel é um território muito exíguo. Se pensar em Israel, estamos a falar de uma dimensão, algures, como o nosso Alentejo. Portanto, Israel tem verdadeiramente preocupações de sobrevivência e de preservação, de autopreservação. No entanto, pode estar a ir pelo caminho errado, porque agora, enquanto tem força, julga que consegue fazer isto, mas está a criar, a médio e longo prazo, ódios geracionais que vão perseguir Israel durante muitos, muitos anos.

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