Os ataques a infraestruturas energéticas críticas fizeram aumentar uma vez mais os preços do petróleo e do gás - mas há outra consequência: a decisão de atingir este tipo de alvo também levanta dúvidas sobre o grau de coordenação entre os aliados EUA e Israel. Enquanto isso, o Irão "tem-se mostrado surpreendente" na maneira como está a resistir. A conseguir resistir
"Estamos neste momento a assistir uma escalada de olho por olho, dente por dente" no Médio Oriente, afirma o tenente-general Rafael Martins, sublinhando que a reação iraniana tem surpreendido pela intensidade e pelo alcance. "Eu creio que tanto os Estados Unidos como Israel não esperariam, por parte do Irão, respostas desta natureza."
Essa surpresa torna-se ainda mais evidente quando se analisa o tipo de alvos atingidos. O ataque de Israel a South Pars - "fonte de energia vital para os EUA, para a Europa e para o mundo" e que tem gás para alimentar o mundo durante 13 anos - representa uma inflexão clara. Não se trata apenas de uma infraestrutura estratégica nacional, mas de um ponto sensível da cadeia energética global. "As consequências mundiais desse mesmo ataque podem prejudicar significativamente o desenlace desta operação militar", considera o tenente-general.
A decisão de atingir este tipo de alvo também levanta dúvidas sobre o grau de coordenação entre aliados. "Já é a segunda vez que, alegadamente, Israel toma ações que, em termos operacionais e estratégicos, podem prejudicar significativamente", refere, sugerindo que estas iniciativas podem não estar totalmente alinhadas com os interesses ou o timing estratégico dos Estados Unidos. "Eu subsisto aqui a dúvida se, de facto, os Estados Unidos não estão a afastar-se de uma realidade e a querer culpar Israel exclusivamente por isto".
Esta quinta-feira, o presidente norte-americano garantiu, através de uma publicação na rede social Truth Social, que nem Washington nem o Catar tiveram qualquer envolvimento no ataque ao complexo de gás, não tendo conhecimento prévio da operação. Também o seu homólogo israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou, em conferência de imprensa, que o ataque foi realizado apenas por Israel e sem o conhecimento da Casa Branca.
No terreno, o efeito pretendido poderá não estar a ser alcançado. A tentativa de fragilizar o Irão para o levar à negociação não só não resultou, como desencadeou uma resposta mais ampla. "A ideia era prejudicar esta infraestrutura levando-o, eventualmente, a capitular, ou pelo menos, à mesa das negociações em desvantagem, mas eu não creio que é isso que esteja a acontecer", afirma, apontando para a resposta iraniana como prova de resiliência: "O Irão retaliou e não retaliou apenas sobre o Catar", em vez disso, alargou a sua ação a outros países ligados à coligação.
"O Irão tem-se demonstrado não só resiliente, mas surpreendente. Consegue retaliar com consequências para além daquilo que são as consequências militares". E é precisamente essa capacidade de projetar efeitos económicos e políticos que torna o conflito mais difícil de conter. Para o tenente-general, o risco já não é apenas militar: "Estamos, eventualmente, no limiar de um processo de erosão reputacional e de credibilidade, tanto em termos políticos como diplomáticos."
Apesar da escalada, o major-general Jorge Saramago considera que o comportamento iraniano continua a ser guiado por uma lógica de sobrevivência, não de destruição. "O Irão sabe que não consegue vencer uma guerra do ponto de vista militar com os Estados Unidos e, muito menos, com os Estados Unidos e com Israel aliado", afirma.
É precisamente essa limitação que explica a estratégia. "Desde o início, aquilo que procuraram foi criar problemas económicos atacando a estrutura económica e impedindo a normal circulação do petróleo e do gás natural". Esta abordagem transforma o conflito numa disputa de pressão global, segundo o especialista militar. "A expectativa iraniana é que o mundo faça pressão sobre os Estados Unidos para que os Estados Unidos terminem a guerra", argumenta.
Fonte: Global Fishing Watch
Gráfico: Lou Robinson, CNN
Neste contexto, os ataques a infraestruturas energéticas deixam de ser apenas atos de retaliação e passam a ser instrumentos de influência. Ainda assim, essa estratégia tem limites claros: a ameaça de destruição do próprio sistema energético iraniano representa uma linha vermelha. "Se isso acontecer é acabar efetivamente com a economia iraniana e por essa via com o próprio regime", sublinha o major-general.
É por isso que insiste na ideia de contenção estrutural. "Eu julgo que o regime não se vai suicidar. O regime quer continuar, quer sobreviver e portanto não pode pôr em risco a sua sobrevivência." E esta lógica de preservação, diz, funciona, para já, como travão a uma escalada totalmente descontrolada. Talvez a última hipótese que ainda impeça a guerra de escalar de forma definitiva e ainda mais grave.
No entanto, há dinâmicas internas que estão a tornar o comportamento iraniano mais agressivo. A eliminação sucessiva de elementos da liderança política e militar tem efeitos diretos no processo de decisão. "Vai traduzir-se, efetivamente, em mais agressividade, em respostas mais violentas. É normal e é típico que isso aconteça", explica o major-general. A entrada de novos decisores, menos experientes e sob pressão, contribui para uma postura mais defensiva e menos previsível.
Enquanto isso, os Estados Unidos continuam a reforçar a sua presença militar na região. O tenente-general Rafael Martins vê nesse movimento um sinal de possível agravamento: "Temos a tal força de Marines e temos mais um conjunto de valências que podem aumentar a escalada. Não se avizinha uma contenção neste mesmo processo, antes, pelo contrário."
O risco de alargamento do conflito permanece, sobretudo se outros atores regionais forem arrastados para o confronto. O major-general Jorge Saramago alerta que os países do Golfo podem alterar a sua posição: "podem decidir juntar-se aos Estados Unidos e atacar o Irão”, caso continuem a ver as suas infraestruturas e economias ameaçadas.
Apesar da intensidade crescente, a probabilidade de um colapso total imediato continua a ser, diz, para já, limitada. "Não me parece que o Irão vá incendiar ali o Médio Oriente todo", afirma, classificando esse cenário como "pouco provável nesta altura".
