A Ucrânia saiu dos EUA como vítima da sua própria estratégia e ainda permitiu que a Rússia deixasse uma pergunta no ar

29 dez 2025, 15:41
Volodymyr Zelensky e Donald Trump reúnem-se em Mar-a-Lago

ANÁLISE || Volodymyr Zelensky poderá agora contentar-se com 15 anos de garantias de segurança dadas pelos EUA, mas compensou o avanço com um retrocesso para si próprio ao sugerir referendar o plano de paz de 20 pontos. Trump mantém-se otimista e ambiciona mais do que nunca a paz, porque percebeu que a guerra "já não é um bom investimento"

O encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, na Florida, já começou a produzir os primeiros resultados, que podem agradar ao presidente ucraniano, mas não tanto como ele gostaria. O chefe de Estado da Ucrânia esperava dos Estados Unidos 50 anos de garantias de segurança, mas Trump prometeu apenas 15, o que “não é mau”, de acordo com a especialista em relações internacionais Diana Soller, em declarações à CNN Portugal.

“A Ucrânia queria 50, mas 15 não é mau, porque permite que a Europa e a Ucrânia se reorganizem para enfrentar e dissuadir a Rússia, caso seja necessário”, afirma, alertando para a fragilidade da promessa americana, que, diz, continua por explicar. “Os EUA parecem estar dispostos a dar garantias de segurança à Ucrânia durante 15 anos, mas sabemos pouco: quais garantias de segurança? Em que termos?”.

Em contrapartida, a também comentadora da CNN Portugal acrescenta que o facto de as negociações não terem sido interrompidas depois do telefonema entre Trump e Putin é, por si só, uma vitória. Mas a ambiguidade das conclusões que saem deste encontro leva Diana Soller a crer que a reunião “não favoreceu realmente ninguém”. “Esta reunião tinha tudo para correr mal e não foi uma má reunião para a Ucrânia, mas não foi uma boa reunião para ninguém”, sublinha.

Já Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal e especialista em relações internacionais, acredita que “quem saiu a perder” das conversações com os EUA foi a Ucrânia, já que o número de anos subtraído por Trump é uma “desvantagem” logo à partida para Kiev, dado que este é o teto máximo apresentado pelo presidente norte-americano.

Além das garantias de segurança aquém das expectativas de Zelensky, saem desta reunião mais duas certezas, assinala o comentador: a formação dos grupos multidisciplinares para trabalho e a inevitabilidade de levar a Ucrânia a eleições.

Se, por um lado, a formação de grupos trilaterais, dos quais farão parte a Ucrânia, a Rússia e os EUA, é um ponto “muito positivo” que “abre portas ao diálogo” e vai permitir trabalhar sobre as dimensões da economia e da segurança, por outro, as intenções de Zelensky de evitar eleições num futuro próximo foram traídas pela sua vontade de “politizar e instrumentalizar os referendos para a questão da concessão de território”.

“[Recorrer aos referendos] é inteligente, só que há um problema e a Rússia deixou uma questão a que Donald Trump não conseguiu responder: se há capacidade para organizar um referendo, como é que não há capacidade para organizar uma eleição? É o mesmo tipo de infraestrutura. É o voto, a urna”, observa Tiago André Lopes.

A possibilidade de referendar o plano de paz de 20 pontos foi anunciada por Zelensky sob a condição de um cessar-fogo de pelo menos 60 dias. E isso como uma forma de “protelar decisões”, afirma o comentador da CNN Portugal.

“Ele está convencido de que a opinião pública vai dizer que não”, mas o problema é “se a opinião pública disser que sim”, explica Tiago André Lopes, que afasta a ideia de que um referendo seria vantajoso para a Ucrânia. “É óbvio que não dá para protelar muito mais a paz”, tendo em conta que “militarmente as coisas não estão a correr bem”. As perdas ucranianas e os avanços da Rússia no terreno parecem indicar uma derrota militar para a Kiev, levando Zelensky a fazer aquilo que “há um mês” não faria: assumir a disponibilidade para uma reunião final com Vladimir Putin.

Para Diana Soller, o referendo pode ter sido um sintoma da democracia, através do qual o presidente da Ucrânia conseguiria auscultar as vontades da população e ter um “respaldo para não assinar uma paz que desagrade completamente aos ucranianos”.

Num eventual contexto de eleições, Volodymyr Zelensky, vítima da sua própria estratégia, estaria perante um cenário pouco favorável, considera o comentador Tiago André Lopes. Os dados da última sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS, na sigla em inglês), citados pelo especialista, colocam o atual chefe de Estado ucraniano na frente da corrida presidencial, mas só com um ponto percentual de vantagem relativamente aos candidatos Kyrylo Budanov e Valery Zaluzhny. Quer isto dizer que numa segunda volta, “a hipótese de uma reeleição de Zelensky, a não ser que haja manipulação ou condicionamento dos votos, é muito baixa”.

Donald Trump "trouxe o nome de Putin demasiadas vezes para a equação"

Mar-a-Lago foi ainda palco de elogios direcionados a Vladimir Putin por parte de Donald Trump, que, além de confirmarem o “fascínio” do presidente norte-americano por aquilo que considera serem “líderes fortes”, diz o especialista em relações internacionais, revelam também que Trump “já percebeu que militarmente a guerra está perdida e a partir de agora é um mau investimento”.

“Acima de tudo esses elogios são para manter a Rússia interessada no processo negocial, para fechar a guerra o mais rápido possível, porque económica e militarmente [a guerra] já não é um bom investimento e Donald Trump está à procura de novos mercados e está interessado em afastar o máximo possível a Rússia da sua nova amizade com a China”, conclui.

Diana Soller não vê nas declarações de Trump sobre Putin um problema. “Não foram propriamente grandes elogios. Foi dizer que Putin também quer a paz - que é uma coisa de que todos nós duvidamos - e portanto acaba por soar a elogio, mas acho que a linguagem acabou por ser relativamente neutra”, descreve a especialista.

Aquilo que poderia ser alvo de críticas, acrescenta a comentadora, é a omnipresença de Vladimir Putin no encontro do passado domingo. Naquilo que deveria ser uma reunião bilateral entre a Ucrânia e os EUA, o nome do presidente russo foi referido “demasiadas vezes” por Donald Trump.

No que toca ao território, apesar de não serem ainda conhecidos progressos na negociação das terras ocupadas, Tiago André Lopes refere que o presidente ucraniano deixou subentendido nas suas declarações que “não voltará” a controlar os territórios capturados.

“Temos de respeitar a nossa lei, o nosso povo e o território que controlamos”, disse Volodymyr Zelensky aos jornalistas em Mar-a-Lago. Esta é, no entender do comentador da CNN Portugal, uma “assunção de que as condições territoriais são quase uma inevitabilidade” e de que a guerra vai terminar de forma “desvantajosa” para Kiev.

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