Do lado dos EUA há a convicção de que é isto que é preciso para que a guerra não suba ainda mais de tom. Na Ucrânia pensa-se no perigo futuro de uma concessão de tal tamanho
Concessões territoriais. Esta é a expressão-chave do momento na guerra da Ucrânia, com ambos os lados a garantirem um desejo de chegar à paz, mas a não encontrarem forma de resolver o maior obstáculo.
Com a Rússia a avançar em praticamente toda a linha da frente, o presidente dos Estados Unidos já avisou a Ucrânia de que tem de aceitar que vai perder território, juntando-se a Moscovo numa tenaz de pressão que procura pelo menos a saída ucraniana dos locais onde ainda resiste no Donbass - cerca de um quarto de Donetsk e uma pequena porção de Lugansk.
Recheada de centrais metalúrgicas e de minas de carvão - basta olhar para a importante Azovstal, há tanto tomada na cidade-mártir de Mariupol -, esta zona é um objetivo da Rússia até bem antes da invasão total.
Mas além de defender que este território é seu por direito, mesmo que seja uma das zonas com mais influência russófona, a Ucrânia tem outra razão para não querer mesmo perder o Donbass. Olhando para Pokrovsk, Kostyantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Slovyansk, as cidades que ainda faltam conquistar por parte da Rússia, Kiev acredita que a sua perda significaria um abdicar dessa mesma “rede de fortalezas” que ainda impedem um maior alargamento da invasão.
A aumentar a pressão há vários meses, a Rússia garante agora ter controlo da maioria de Pokrovsk e estar já às portas de Konstyantynivka. O próprio chefe das Forças Armadas ucranianas admitiu uma ordem para a retirada parcial da primeira cidade.
Para se ter uma ideia da importância do Donbass, foi lá que a Ucrânia gastou grande parte dos quase mil milhões de euros no ano passado, tentando conter os assaltos russos ao máximo, nomeadamente com labirintos compostos por todo o tipo de obstáculos, desde “dentes de dragão” a trincheiras e arame farpado.
A juntar a isso está o terreno naturalmente acidentado, com vales e montes que tornam a paisagem irregular, e que, sobretudo, dificultam a passagem de um inimigo. Caso o Donbass caia completamente, a Rússia fica com campo aberto para avançar para áreas densamente populadas e com menos capacidades de defesa.
Na prática, a queda daquelas cinco cidades - e, consequemente, de todo o Donbass - facilitaria a tarefa russa de entrar pela Ucrânia adentro. Se não agora, porque o que se procura é uma paz, num futuro próximo, sobretudo se as ambições de Vladimir Putin permanecerem intactas.
E é a pensar nesse futuro que a Ucrânia está tão relutante em aceitar a quase imposição dos Estados Unidos, que delineou o plano diretamente com a Rússia nas várias idas de Steve Witkoff a Moscovo - só este ano foram seis.
Os Estados Unidos veem esta cedência como inevitável para que se faça uma paz, dando ao Kremlin aquilo que procura desde 2014, mesmo que de forma oficiosa.
Segundo o Financial Times, que cita dois responsáveis ucranianos, Steve Witkoff acredita que a cedência do que resta do Donbass é a chave para evitar uma guerra mais duradoura e mais alargada.
Além disso, Donald Trump já deixou bem claro o que pensa neste momento: a Ucrânia “não tem as cartas” para jogar este jogo e Volodymyr Zelensky deve simplesmente “aceitar” o seu destino.
Resta saber o que consta da proposta que a Ucrânia já entregou aos Estados Unidos, e que retira oito pontos ao plano original de 28 cláusulas. Neste momento, qualquer coisa que deixe de fora a cedência do Donbass dificilmente será aceite pela Rússia e, por extensão, pelos Estados Unidos.