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Trump pode estar a fazer "grandes progressos" na Ucrânia ou a cair na armadilha de Putin

CNN , Análise de Stephen Collinson
7 ago 2025, 09:48
Guerra na Ucrânia (via CNN)
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Putin há muito que diz estar disposto a encontrar-se com Trump quando for o momento certo. Tal encontro evocaria ecos das famosas reuniões da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética e pode estar muito perto de acontecer

Donald Trump proclamou “grandes progressos” no sentido de pôr fim à guerra na Ucrânia, depois de anunciar que há planos em curso para reunir-se em breve com o presidente russo, Vladimir Putin.

Mas será que Putin, para citar o presidente dos EUA num raro momento de lucidez sobre as relações com a Rússia, está apenas a “brincar com ele” novamente?

A frustração fervilhante de Trump com Putin, que manchou as esperanças do presidente norte-americano de se tornar um pacificador digno do Prémio Nobel, evaporou-se depois de o seu enviado especial Steve Witkoff ter saído de uma reunião de três horas na quarta-feira com o homem forte do Kremlin.

 Presidente da Rússia, Vladimir Putin, cumprimenta o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, antes das negociações em Moscovo. Gavriil Grigorov/AFP/POOL/Getty Images

Trump antecipou que uma reunião dentro de semanas poderia pôr fim à guerra na Ucrânia, afirmando que há “uma boa hipótese de podermos chegar ao fim deste caminho”.

O seu otimismo estava mais de acordo com o seu caráter do que com a sua postura nas últimas semanas, quando criticou os “repugnantes” ataques aéreos de Putin a Kiev e descreveu o líder mundial que sempre tentou impressionar de “completamente louco”.

O presidente norte-americano alertou na quarta-feira que não houve um “avanço” nas negociações em Moscovo. Mas ainda parecia incrivelmente otimista, tendo em conta os recentes ataques com drones e mísseis da Rússia contra a Ucrânia — alguns dos mais intensos desde o início da invasão — e a ausência de qualquer evidência, ao longo de três anos de combate, de que Putin tenha qualquer intenção de acabar com a guerra.

Trump tem afirmado repetidamente que há grandes progressos em curso desde que assumiu o cargo em janeiro — depois de prometer e não conseguir acabar com a guerra em 24 horas.

Mas as razões de Putin para continuar a guerra são muito mais convincentes do que qualquer incentivo que Trump possa oferecer.

“Acho que nós, em Washington DC, por vezes subestimamos o quanto o Kremlin está empenhado em continuar esta guerra”, observa David Salvo, especialista em assuntos relacionados com a Rússia e diretor-geral da Alliance for Securing Democracy no German Marshall Fund. “A legitimidade e o destino de todo o regime de Putin baseiam-se não apenas em concluir esta guerra nos termos da Rússia, mas em continuar a combatê-la num futuro previsível, toda a economia está sustentada em torno da guerra.”

Salvo, um antigo funcionário do Departamento de Estado, complementa: “Não vejo nada que possa mudar a situação e alterar os cálculos do Kremlin.”

Há alguma esperança de que desta vez seja diferente?

Ainda assim, muitas vezes, para que a paz seja bem-sucedida, os presidentes precisam de correr riscos. Se Trump conseguisse, de alguma forma, iniciar um processo de paz genuíno, poderia salvar potencialmente milhares de vidas numa guerra que devastou a população civil ucraniana. E também conseguiria alcançar um marco importante para os EUA e para si mesmo.

Então, há algum motivo para otimismo?

Uma reunião com Putin seria um grande momento de habilidade política e permitiria a Trump ter a tão esperada reunião cara a cara com o líder russo e a oportunidade de testar a sua convicção de que, pessoalmente, pode usar as suas habilidades de negociação para acabar com a guerra.

Trump também está a propor uma reunião trilateral que reuniria Putin e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, naquele que seria o encontro diplomático mais significativo desde a invasão russa da Ucrânia há três anos.

A Rússia já confirmou preparativos para uma reunião entre Trump e Putin, que deverá decorrer “nos próximos dias”.

Um morador observa o local de um bloco de apartamentos atingido durante ataques com mísseis e drones russos em Kiev, Ucrânia, em 3 de julho. Thomas Peter/Reuters

Mas o aumento das apostas para uma reunião presidencial poderia pressionar Putin a entregar pelo menos algo que Trump pudesse chamar de vitória. Tal pode incluir um acordo para interromper os ataques aéreos contra civis, mesmo que um cessar-fogo total e um acordo de paz pudessem levar vários meses até serem concretizados. Mas as promessas russas de cessar-fogo muitas vezes não valem o papel em que estão escritas.

Um progresso significativo também validaria a nova estratégia de Trump de tentar coagir Putin a sentar-se à mesa com punições em vez de elogios. Pode não ser coincidência que o movimento aparente na guerra tenha ocorrido no dia em que Trump disse que iria impor pesadas tarifas à Índia — um dos principais países que compra petróleo russo, que, por sua vez, financia o esforço de guerra. Trump enfrenta o seu próprio prazo para também impor novas sanções à Rússia por ter ignorado as suas exigências de cessar-fogo.

Houve uma rara nota de otimismo na Ucrânia esta quarta-feira. “A Rússia agora parece estar mais inclinada a um cessar-fogo — a pressão está a funcionar”, afirmou Zelensky, no seu habitual discurso à nação.

Razões para não confiar em Putin

Putin também pode estar a jogar o mesmo jogo de sempre.

Nos primeiros sete meses do seu segundo mandato, Trump foi humilhado por Putin, que ignorou os seus esforços de paz e ridicularizou as afirmações do presidente norte-americano de que o seu homólogo russo deseja sinceramente a paz. Até mesmo Trump, que tem um longo histórico de se curvar perante o líder russo, parece ter percebido que foi enganado.

Mas Putin pode estar a enganar Trump novamente depois de se ter reunido com Witkoff, que saiu das reuniões anteriores no Kremlin amplificando os argumentos russos e cujo histórico em relação à paz no Médio Oriente e na Ucrânia é fraco.

O presidente admitiu que não sabe qual é o jogo de Putin. “Ainda não posso responder a essa pergunta”, afirmou aos jornalistas, na quarta-feira. “Vou dizer-vos dentro de semanas, talvez menos.”

Trump pode tentar apresentar qualquer cimeira com Putin como uma vitória por si só. Mas estaria a conceder a Putin um prémio sem garantir um preço. O ex-tenente-coronel da KGB no Kremlin pode estar a contar com o gosto de Trump por sessões fotográficas teatrais que muitas vezes não rendem muito. As reuniões do seu primeiro mandato com Kim Jong Un, por exemplo, não conseguiram pôr fim ao programa nuclear da Coreia do Norte.

Putin há muito que diz estar disposto a encontrar-se com Trump quando for o momento certo, e tal encontro — que evocaria ecos das famosas reuniões da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética — representaria o retorno de um líder pária ao palco diplomático mundial. E qualquer encontro reacenderia as memórias da reunião em Helsínquia no primeiro mandato de Trump, quando Putin foi surpreendentemente bem-sucedido em manipular o seu homólogo norte-americano.

“Acho que Putin verá isso como uma oportunidade”, observa o ex-conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, em declarações à CNN. “Creio que ele sabe que, deliberada ou inadvertidamente, pressionou demasiado Trump e terá algumas ideias sobre como trazer as coisas de volta ao seu lado.”

Ucranianos descansam numa estação de metro, usada como abrigo antiaéreo, durante um ataque russo em Kiev, Ucrânia, na madrugada de 10 de julho. Efrem Lukatsky/AP

A questão crucial é saber o que os russos ofereceriam como resultado da reunião. Os EUA tentaram no passado chegar a um acordo para suspender os ataques aéreos de ambos os lados. Isso permitiria que os ucranianos saíssem dos seus abrigos antiaéreos. Mas as hipóteses de um cessar-fogo mais abrangente parecem longe de ser concretizadas. Há agora uma probabilidade de chegar a grandes avanços na ofensiva de verão de Moscovo. Então, porquê parar de lutar agora? Putin pode ver este novo compromisso com Trump como uma forma de ganhar mais tempo para conquistar territórios estratégicos importantes no leste da Ucrânia.

Outra abordagem potencial seria a Rússia persuadir Trump com incentivos para que ele desviasse a atenção da Ucrânia — talvez uma promessa de negociações sobre um acordo de controlo de armas nucleares que impulsionaria o seu legado, ou alguma cooperação económica significativa que evocaria os instintos transacionais de Trump.

A Ucrânia também deve ser ouvida e ficará cautelosa com o regresso de Trump a um plano de paz pró-Rússia que teria atendido às exigências de Moscovo de manter todo o território que conquistou na Ucrânia, bem como de excluir definitivamente a adesão de Kiev à NATO. Moscovo há muito que tenta aproveitar o ceticismo de Trump em relação à guerra, incentivando divisões entre os EUA e os aliados europeus de Kiev. Por isso, é de destacar o facto de os líderes europeus terem participado numa chamada com Trump e Zelensky na quarta-feira.

A máxima do presidente Ronald Reagan sobre como lidar com Moscovo durante a Guerra Fria — “Confie, mas verifique” — parece antiquada, dado o historial da dualidade de Putin em relação à guerra. Na quarta-feira, Zelensky fez uma advertência mais adequada: “O importante é garantir que eles não enganam ninguém nos detalhes — nem a nós nem aos Estados Unidos.”

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