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"Se Montenegro arriscasse dizer que vamos enviar 100 portugueses para a Ucrânia, era muito giro até chegar o primeiro caixão"

19 dez 2024, 08:00
Montenegro recebe Zelensky em São Bento (José Sena Goulão/LUSA)

 

 

Macron continua a insistir no envio de tropas de vários países europeus para a Ucrânia. E Putin pode aproveitar isso para espoletar um "Vietname da Europa" - "vai querer matar primeiro essas tropas"

Os líderes europeus estão a discutir o envio de tropas europeias para a Ucrânia, antecipando um cessar-fogo ou um acordo de paz. Mas especialistas ouvidos pela CNN Portugal mostram-se bastante céticos com essa hipótese, até porque “não estamos nem perto de um acordo de cessar-fogo, quanto mais de um acordo de paz”, adverte o major-general Isidro de Morais Pereira, salientando a “inflexibilidade” das partes beligerantes.

A ideia tem sido explorada por Emmanuel Macron desde o início do ano, mas foi sempre recebida com bastante relutância por parte dos restantes líderes europeus. Mas há novidades: segundo a Reuters, o presidente francês está mesmo a liderar conversações nesse sentido, equacionando-se a hipótese de se formar uma força militar composta pelas grandes nações europeias - como França, Alemanha, Itália, Polónia e Reino Unido.

Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais e comentador da CNN Portugal, afirma que esta iniciativa “não parece de todo realizável”, sobretudo tendo em conta a atual conjuntura política dos respetivos países. Começando desde logo por França, onde  “dificilmente uma medida como o envio de tropas passaria na atual legislatura”, já muito debilitada pela troca de cadeiras na chefia do governo. Já a Alemanha “só vai poder decidir este tipo de matérias daqui a cinco, seis meses”, após as eleições antecipadas para fevereiro. 

Na Polónia, Tiago André Lopes duvida que Donald Tusk, o primeiro-ministro, “consiga negociar o envio de tropas” numa altura em que as sondagens mostram um apoio crescente ao maior partido da oposição, o Lei e Justiça. Além disso, acrescenta, “os agricultores polacos têm feito um grande braço de ferro com o Estado porque a facilitação do comércio de produtos ucranianos está a destruir alguns negócios locais”, logo a ideia não seria bem recebida pela opinião pública, argumenta Tiago André Lopes.

“Sobram-nos apenas o Reino Unido e Itália. A Itália de Meloni até podia ter vontade mas também não vejo grande ensejo nem grande entusiasmo na opinião pública italiana para enviar tropas. No Reino Unido, tenho muitas dúvidas que Keir Starmer [primeiro-ministro] se vá meter nisso. O mandato que ele recebeu da opinião pública britânica foi muito interno e, portanto, ele fala muitas vezes de apoio mas sempre indeterminado”, acrescenta Tiago André Lopes.

Independentemente da conjuntura política de cada país europeu, o especialista em Relações Internacionais acredita que a ideia não seria bem recebida pela opinião pública seja onde for - e dá o exemplo de Portugal para mostrar isso mesmo. "Se amanhã Luís Montenegro arriscasse, por exemplo, dizer que vamos enviar 100 portugueses que seja para a Ucrânia, era tudo muito giro até chegar o primeiro caixão", diz, argumentando que "a maior parte dos europeus é favorável a acordos de paz com concessão de território" ucraniano. "Não porque têm uma grande paixão por Vladimir Putin", explica, mas porque "o grande medo das pessoas neste momento é que os governos continuem numa deriva a alimentar uma guerra que, lamentavelmente, está perdida."

As conversações ainda estão numa fase inicial, pelo que ainda há muitas questões críticas por esclarecer, nomeadamente qual seria o mandato de uma missão deste género. “Hipoteticamente”, diz Tiago André Lopes, até se podia avançar numa missão de manutenção de paz ao abrigo da ONU, só que, uma vez que  a Rússia e a China têm poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas - a quem cabe a competência nesta matéria -, a decisão seria sempre bloqueada. 

Não havendo essa opção, pode avançar-se com uma missão europeia, que “seria arriscada”, diz Tiago André Lopes, uma vez que a Europa, apesar de ter uma política de defesa comum, não tem propriamente uma política de missões de estabilização de paz.

“Podia também ser uma missão da Organização de Segurança e Cooperação para a Europa (OSCE), que tem missões desta natureza, mas que, neste momento, está descapitalizada”, acrescenta Tiago André Lopes, sustentando assim o seu ceticismo em relação a esta iniciativa.

Qual "Vietname da Europa"

Mesmo os objetivos desta missão levantam dúvidas. Segundo fontes ligadas ao processo que falaram com a Reuters sob condição de anonimato, os líderes ainda não definiram se esta missão europeia desempenharia um papel tradicional de manutenção de paz, como a monitorização de uma linha de cessar-fogo, ou se seria uma força dissuasora contra eventuais ataques russo. Enquanto os líderes italianos falam em manutenção da paz, os líderes franceses e ucranianos defendem a criação de forças de dissuasão.

A dimensão de uma força militar europeia depende dos objetivos, indicam os analistas que falaram com a Reuters, sendo que alguns sugerem que cerca de 40 mil soldados seriam viáveis como força de dissuasão, enquanto outros falam num contingente de 100 mil tropas num esquema de rotação.

“Um efetivo de 40 mil homens é uma ninharia para 1.300km de frente”, observa o major-general Isidro de Morais Pereira, comparando com o contingente militar enviado numa missão de paz para a Bósnia, onde foram destacados 60 mil soldados “num teatro de operações muito mais pequeno”.

Seja qual for a dimensão do contingente militar, uma missão desta natureza “vai certamente sobrecarregar as forças terrestres europeias”, declarou à Reuters Franz-Stefan Gady, especialista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Tiago André Lopes sublinha que os exércitos europeus “estão no limite”, no “chamado grau mínimo para as suas missões de paz de ordem interna”. “Há vários exércitos à espera de equipamento novo e por isso é quem têm transferido equipamento mais antigo, e às vezes menos operacional, para a Ucrânia”, aponta, questionando: “Íamos fazer o quê para a frente de batalha sem equipamento?”.

A somar a isso, os europeus fariam-no sem o apoio dos EUA, uma vez que Donald Trump já excluiu a hipótese de enviar tropas norte-americanas para impor um cessar-fogo na Ucrânia e, segundo a Reuters, deixou claro a Emmanuel Macron e a Volodymyr Zelensky, num encontro em Paris, no passado dia 7, que os europeus teriam de desempenhar esse papel sozinhos.

A concretizar-se esta missão, Tiago André Lopes não antevê um desfecho positivo. "Curiosamente, isto podia ser uma espécie de trunfo escondido" para Vladimir Putin, teoriza Tiago André Lopes, que fala mesmo num "Vietname da Europa".

"Vladimir Putin sabe que a opinião pública interna dos Estados europeus podia forçar os governos a reverter essa decisão. Portanto, o foco da Rússia seria eliminar logo à partida os soldados enviados pelos vários países europeus, de modo a forçar uma opinião pública revoltada, quase que um momento Vietname da Europa", argumenta Tiago André Lopes, lembrando que os EUA saíram do Vietname "não só porque estavam a perder a guerra mas também porque a opinião pública nos anos 70 se mexeu de forma muito, muito, muito intensa".

Ou seja, concretiza, a reação de Putin "seria sempre matar primeiro esses soldados dos vários países europeus para forçar a sua retirada em seguida".

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