Ministro russodos Negócios Estrangeiros acusa a NATO de “transformar a Ucrânia numa ponte militar para conter a Rússia”
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, argumenta que o princípio da integridade territorial não se aplica à Ucrânia e alerta para "as consequências para todos os europeus" da transformação da NATO num "bloco militar e político"
Em entrevista ao jornal húngaro Magyar Nemzet, Sergei Lavrov refere que só Estados que assegurem a igualdade e autodeterminação dos povos é que podem defender a sua integridade territorial.
“É claro para qualquer observador imparcial que o regime de Kiev, que elevou a russofobia a um nível de política de Estado, não representa a população russa das regiões da Ucrânia, incluindo a Crimeia, Sevastopol, Lugansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson”, reiterou.
Segundo Sergei Lavrov, pessoas que se consideram russas e que queiram preservar a sua identidade, linguagem, cultura e religião têm sido consideradas cidadãos de segunda na Ucrânia.
“Por exemplo, em 2021, [Volodymyr] Zelensky chamou publicamente os habitantes da parte sudeste do país de ‘criaturas’ e pediu que eles se escondessem na Rússia pelo bem do futuro dos seus filhos e netos”, acusa Lavrov.
No entender do ministro russo, “como o regime de Kiev não representa a população dessas regiões, não pode, sob o direito internacional, alegar que o princípio da integridade territorial se aplica ao Estado ucraniano na sua forma atual.”
Questionado sobre as preocupações da Rússia em relação à eventual adesão da Ucrânia à NATO, Lavrov acusa a Aliança Atlântica de “transformar a Ucrânia numa ponte militar para conter a Rússia”.
“A NATO há muito deixou de ser uma aliança defensiva (...) O surgimento de bases da NATO na Ucrânia e o envolvimento da própria Ucrânia na aliança beligerante representam uma ameaça direta à nossa segurança nacional”, reitera o ministro.
No final de 2021, meses antes da invasão russa, continua Lavrov, Moscovo pediu a Washington DC e à NATO para que se comprometessem com garantias de segurança à Rússia. “A nossa iniciativa foi rejeitada. O Ocidente continuou a ‘bombardear’ a Ucrânia com armas para resolver as questões do Donbass e da Crimeia pela força. No final, não nos deixaram outra escolha a não ser lançar uma operação militar especial. Tenho a certeza de que qualquer país que se preze teria feito exatamente o mesmo nesta situação”, argumenta.
Interrogado sobre as acusações de líderes europeus que dizem ter provas de que Vladimir Putin quer alargar a sua influência na Europa, com intenções de “invadir” o continente europeu, Lavrov responde que essa narrativa da “mítica ameaça russa” é uma forma de os líderes europeus tentarem “desviar a atenção da incapacidade de resolver problemas reais, como inflação, aumento do desemprego, queda dos rendimentos, imigração ilegal e criminalidade desenfreada”.
“É triste e alarmante que a ‘Europa unida’ esteja a incitar o sentimento antirrusso, revivendo o complexo militar-industrial e clamando pela guerra contra a Rússia. A UE rapidamente passou de uma aliança de integração para um bloco militar e político, uma espécie de apêndice da NATO. Esta é uma tendência perigosa que pode ter consequências a longo prazo para todos os europeus”, avisa Lavrov.