Putin esteve cinco horas reunido com os enviados americanos. O resultado? "Não estamos mais perto de resolver a crise na Ucrânia"

2 dez, 23:08
Reunião entre as delegações americana e russa em Moscovo com Vladimir Putin, Yuri Ushakov, Kirill Dmitrev, Steve Witkoff e Jared Kushner (Alexander Kazakov/Pool Sputnik Kremlin via AP)

A Ucrânia quer um acordo, a Rússia quer um acordo, os EUA querem mediar o acordo. Mas está a ser difícil chegar a um entendimento

Passavam poucos minutos das 10:00, hora de Portugal Continental, quando Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, aterraram no movimentado aeroporto de Vnukovo, na capital russa.

Na bagagem dos dois estaria a paz, uma paz que Volodymyr Zelensky quer “aberta e justa” e discutida com a Ucrânia. O Kremlin diz que a reunião entre Witkoff e Vladimir Putin é “um passo importante para uma resolução pacífica do conflito". Mas os primeiros sinais não são nada animadores para Kiev.

Após a reunião, que durou cinco horas, Yuri Ushakov, conselheiro de Putin, disse que a conversa foi “muito útil, construtiva e muito significativa”. O problema é o que vem a seguir.

“Não estamos mais perto de resolver a crise na Ucrânia, e há muito trabalho a ser feito”, disse Ushakov. “Ainda não foi encontrada uma solução de compromisso para a questão territorial, mas o lado americano anunciou as suas propostas para um acordo”.

Da esquerda para a direita, Yuri Ushakov, Jared Kushner, Kirill Dmitriev e Steve Witkoff no Kremlin esta terça-feira (Kristina Kormilitsyna/Pool Sputnik Kremlin via AP)

Todos os lados falam de um acordo, um tão necessário acordo que Zelensky diz ter sido “refinado” entre ucranianos e americanos durante as negociações na Florida e já após longas horas de reuniões em Genebra.

É pouco claro o quão “refinado” é esse acordo. Sabemos que passou de 28 para 20 pontos, como garantiu Zelensky, e que os temas “mais sensíveis”, de acordo com o presidente ucraniano, são três: concessões territoriais, utilização dos ativos russos congelados e a designada “coligação dos países dispostos”, um grupo maioritariamente compostos por nações europeias que quer participar numa paz duradoura na Ucrânia.

O papel da Europa tem sido menorizado por Moscovo. Enquanto a administração Trump e o Kremlin se aproximam e Witkoff confessa a Putin que está “satisfeito” por vê-lo, à Europa é dado o rótulo de vilão, que “dificulta” a paz e “não tem uma agenda pacífica”.

“Não estamos a planear entrar em guerra com a Europa, já o disse centenas de vezes”, disse Vladimir Putin, que também jurou que a Rússia não tinha planos para ocupar a Geórgia e a Ucrânia. “Mas se a Europa, de repente, quiser lutar contra nós e começar, estamos prontos agora mesmo. Não há dúvidas quanto a isso”. Palavra de presidente da Rússia.

Foi um dia longo para Witkoff e Kushner. Como um bom cavalheiro, Putin manteve os dois enviados americanos à espera enquanto discursava num importantíssimo fórum de investimentos do banco russo VTB, aparentemente mais importante do que as negociações para terminar a maior guerra em território europeu desde a II Guerra Mundial. A julgar pela situação no terreno, não admira.

Jared Kushner e Steve Witkoff antes da reunião com Vladimir Putin (Alexander Kazakov/Pool Sputnik Kremlin via AP)

As coisas estão cada vez mais a sorrir aos russos. Esta terça-feira, nesse mesmo fórum, Putin anunciou formalmente a conquista da cidade de Pokrovsk, importante nó logístico para o exército ucraniano. Kiev nega, mas é certo que as tropas russas já entraram bem dentro da cidade ucraniana.

Perante este cenário, Zelensky já não quer apenas um cessar-fogo. "O nosso objetivo comum é pôr fim à guerra, não apenas obter uma pausa nos combates. É necessária uma paz digna", disse o presidente ucraniano, durante uma visita à Irlanda.

Zelensky pediu também “certezas” para o povo ucraniano e agradeceu aos EUA pelo apoio. Mas confessa ter medo que Washington DC se canse de apoiar a Ucrânia.

“Sim, tenho medo. Se alguém dos nossos aliados está cansado, tenho medo. O objetivo da Rússia é retirar o interesse dos Estados Unidos desta situação”, disse o líder ucraniano. Por isso, refere Zelensky, há que aproveitar a “oportunidade real” de alcançar a paz.

Do outro lado do Atlântico, vem a bazófia habitual. "Estamos a tentar resolver isso [guerra da Ucrânia]. Já resolvi oito guerras. Esta seria a nona, e o nosso pessoal está na Rússia neste momento para ver se conseguimos resolver a situação", disse Donald Trump, antes de uma reunião com os seus secretários de Estado.

"Não é uma situação fácil, posso garantir. Que confusão", acrescentou o presidente americano.

Trump está habituado a confusão, toda a sua administração é uma confusão, desde a forma como tem lidado com o caso Epstein, aos ataques a barcos no Mar das Caraíbas e aos polémicos raides anti-imigração ilegal do ICE. Mas esta não é uma confusão qualquer.

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